
Cada escritor convive com as próprias dúvidas existenciais, e isso se reflete na sua obra. O “quem sou?” conduz a temas de cariz psicológico. Indagações sobre “o sentido da vida” sugerem tramas de natureza filosófica. O inconformismo com as desigualdades econômicas remete a histórias que denunciam injustiças sociais. Finalmente, a busca das origens da tribo a que pertencemos gera o tipo de narrativa que eu defino como inaugural, ou fundante, e que por seu próprio caráter, está presente em todas as culturas humanas.
As epopeias míticas das civilizações antigas são bons exemplos: o Gilgamesh da Mesopotâmia; o Mahabarata da Índia, a Ilíada e a Odisseia da Grécia, a Torá judaica, a Bíblia cristã, o Corão islâmico, as sagas nórdicas, a demanda do Santo Graal e os cavaleiros da Távola Redonda britânicos, os Cantares del Mio Cid ibérico, os Lusíadas de Portugal, o Anel dos Nibelungos germânico, a Kalevala finladesa, enfim… São todas narrativas inaugurais, fundantes, demarcadoras de territórios culturais e fronteiras identitárias.
De modo geral, as narrativas fundantes do Velho Mundo remontam a um passado anterior aos atuais estados nacionais europeus, que se consolidam com a Paz de Vestfália, no final da Guerra dos Trinta anos, em 1648. Ao término do conflito que incendiou a Europa, acabam as incertezas sobre a autoridade nacional ainda remanescentes do período feudal (onde figuras supranacionais como o Imperador e o Papa, e infranacionais como a nobreza territorial, rivalizavam com os reis). O fortalecimento das monarquias absolutas cria o mapa da Europa que hoje conhecemos.
O ano da paz de Vestfália constitui uma data recente para os europeus. Já para as nações da América, não é assim. No entanto, apesar da juventude dos nossos estados nacionais, persiste a necessidade de narrativas fundadoras, porque elas ecoam necessidades e anseios profundos das sociedades humanas.
O problema é não termos, no Novo Mundo, a figura do herói mítico-civilizador, que com maior ou menor intensidade, sempre aparece nas narrativas inaugurais. Na América, a modernidade chegou pronta, trazida pelos conquistadores ocidentais nos braços da cruz e na ponta espada. A herança Civilização Ocidental talvez se aplique nos espaços que Darcy Ribeiro chama de “neo-europeus”. Mas nos países em que a população é majoritariamente mestiça, gerada no ventre de mães indígenas e negras, como é o caso do Brasil, o “civilizador” branco e cristão aparece na memória coletiva mais como opressor do que como herói. E os heróis, como Zumbi dos Palmares, Sepé Tiaraju e o próprio Tiradentes, figuram mais como mártires do que como redentores.
Admitindo que as narrativas fundacionais respondem a um anseio profundo do ser humano, se todos queremos saber de onde viemos, quem são nossos ancestrais, que enredo nos faz ser como somos, onde buscar alimento para o nosso imaginário? Para nós, brasileiros, a resposta não está na mitologia greco-romana, nas sagas nórdicas ou mesmo nos mistérios cristãos. A resposta está no sincretismo cultural, gerador da “civilização tropical” que reflete nosso modo particular de estar no mundo.
Cito como exemplo genuinamente brasileiro de narrativa fundacional os enredos das escolas de samba. Os desfiles trazem para a avenida fulgurantes narrativas que se transformam em mitos contemporâneos. Ao rufar das baterias, são consagrados, em espetáculo altamente ritualizado, temas nacionais que vão da transmigração da corte portuguesa para o Rio de Janeiro, em 1808, ao voo do 14 Bis de Santos Dumont em Paris, quase cem anos depois. Em outra clave, a arquitetura de Oscar Niemayer, sobretudo a construção de Brasília, também pode ser lida como narrativa fundacional, ao consagrar a entrada do Brasil, ainda que tardia, na modernidade urbana e industrial.
Nesse contexto, é claro que não podemos esquecer a literatura. A busca das raízes aparece, na literatura barroca, em dois poemas épicos árcades – O Uraguai, de Basílio da Gama (1769) e O Caramuru, do frei Santa Rita Durão (1781). Já no período romântico, José de Alencar, com seus romances indianistas (O Guarani, 1857; Iracema, 1865; Ubirajara, 1874), regionalistas (O Gaúcho, 1870; O Sertanejo, 1875) e históricos (As Minas de Prata, 1862 e A Guerra dos Mascates, 1873).
Mas a tradição mais forte do romance brasileiro, do romantismo ao modernismo, passando pelo realismo e o naturalismo, é, sem dúvida, a narrativa de cunho social e/ou psicológico. Os autores canônicos da segunda metade do século XIX até quase os nossos dias pertencem ou à corrente social, ou à psicológica. Falo de Machado, Aluísio Azevedo, Lima Barreto, Raul Pompéia ou, já no século passado, de Jorge Amado, Rachel de Queiroz, José Lins do Rego, porta-vozes do drama nordestino. No plano psicológico, destacam-se Otávio de Faria, Lúcio Cardoso, Clarice Lispector, sem esquecer Graciliano Ramos, ponto fora da curva por navegar nas duas canoas, com as obras primas Vidas Secas (de cunho social) e Angústia (de acento intimista). São menos abundantes as ficções de cunho fundacional que se consagram neste período. Entre estas, Macunaíma, de Mário de Andrade, e a saga de Erico Verissimo, O tempo e o vento, sobre a formação do Rio Grande do Sul.
Se a literatura brasileira não era pródiga em textos fundacionais, o mesmo não se pode dizer do ensaio. Nesse gênero não-ficcional, encontramos as mais brilhantes narrativas míticas sobre as origens do Brasil. Refiro-me a monumentos literários como Os Sertões, de Euclides da Cunha, e dos livros de Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Hollanda, para ficar nos exemplos óbvios. E aí chegamos a Darcy Ribeiro, dublê de ensaísta e romancista (Os índios e a civilização, O povo brasileiro, Maíra, O mulo) que, a partir dos anos 70 do século passado, abre uma nova trilha para as narrativas fundacionais em nossa literatura. Nesse período vão surgir diversos importantes romances que se perguntam “de onde viemos?”. Sem pretender ser exaustivo, cito A estranha nação de Rafael Mendes, de Moacyr Scliar; A república dos sonhos, de Nélida Piñon; O povo brasileiro, de João Ubaldo Ribeiro; e, pedindo desculpas pela falta de modéstia, Memorial de Santa Cruz, de minha autoria, publicado em 1983, que marca uma inflexão na minha trajetória.
Em dois romances anteriores – Liberdade condicional (1980) e Cara, Coroa, Coragem (1982) – eu fazia uma literatura, digamos, militante. A partir de então, a pergunta “o que é ser brasileiro?” tornou-se o motor do meu trabalho literário. Isso me fez buscar nos desvãos da História, nos labirintos do mito e nos lampejos da intuição a matéria-prima das minhas ficções. Depois de Memorial de Santa Cruz, a busca continuou em Tratado da Altura das Estrelas, O Herdeiro das Sombras, O Cavaleiro da Terra de Ninguém e O Governador do Fim do Mundo, que me recuso a definir como romances históricos. Prefiro chamá-los, pelo que expus até aqui, de fundacionais. A História é tarefa para os historiadores profissionais.
Não estou afirmando que a narrativa baseada na ânsia de saber “de onde viemos” seja mais importante do que outros tipos de produção romanesca. Nem que eu vá praticá-la pelo resto dos meus dias. Ao contrário, tenho os sentidos abertos para infinitos cantos de sereia e espero empreender novas buscas, instigado por diferentes inquietações. No entanto, o processo de transformação interior que me levou a encarar o fazer literário a partir da pergunta “o que é ser brasileiro?” se tornou a marca registrada da minha trajetória como escritor.
