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José Goldemberg, a pesquisa independente.

José Goldemberg, a pesquisa independente.

Por Cremilda Medina

Mais do que merecido o Prêmio Jabuti à Personalidade Acadêmica do consagrado pesquisador José Goldemberg, anunciado no último dia 7 de julho. Ainda na sexta-feira, dia 3, em reunião com o grupo de pesquisa que coordeno, havia trazido à mesa de discussões transdisciplinares do Projeto Plural, circunstâncias que me marcaram a partir dos anos 1970 em torno do significado científico deste pioneiro no âmbito da pesquisa energética no Brasil. Em seguida, leio o anúncio desta homenagem no Jornal da USP, que me motivou a registrar algumas memórias.

Em 1975, bem no momento em que, por motivos políticos, me afastei da USP e me dediquei integralmente ao jornalismo profissional, por mim, já então lhe atribuiria a excelência de sua atuação, quando, com independência, lançou sua voz crítica ao acordo de energia nuclear com a Alemanha no governo militar, definido sem ouvir os especialistas nacionais. Aproveitei para encontrar o físico que  se destacava, inclusive por trânsito acadêmico internacional, e lhe propus um perfil para publicar na grande imprensa. Páginas à época datilografadas narravam sua história de vida até esse momento, meio dos anos 1970. Imaginei diagramar uma página inteira de jornal com dois frisos de imagens no alto e na base da página e lhe pedi fotos de passaportes para simbolizar sua importância para além da fronteira nacional. Mas o esforço de procurar um veículo que publicasse essa história de vida, bateu no muro das autocensuras da época, pois, segundo certos critérios, as restrições de José Goldemberg eram subversivas. Os editores a quem ofereci o perfil não se animaram a publicar a reportagem. 

Conto esta passagem, porque também há um desfecho lúdico para as fotos que colhi junto a Goldemberg. Em lugar de devolvê-las, num lapso imperdoável, deixei num envelope em casa. Não fosse a virada da abertura política, as anistias e a fase da redemocratização, e essa dívida não seria saldada. Onze anos depois, 1986, já havia retornado à USP, José Goldemberg havia assumido a reitoria e, numa cerimônia em que saudou, em seu gabinete, o professor anistiado Sinval Medina, me apresentei nessa ocasião de significado ímpar e levei o bendito envelope das fotos para entregar ao reitor (que deu boas risadas e perdoou minha falta na década anterior). Lembramos também que o perfil de sua figura histórica fora recusado pela imprensa.

De lá pra cá só cresceu e multiplicou o vigor energético do pesquisador que nasceu em 1928 em Santo Ângelo, no Rio Grande do Sul. Hoje o reconhecimento de sua ação na ciência, nas políticas públicas e resultados práticos das energias sustentáveis para o meio ambiente constituem pautas frequentes dos meios de comunicação, estão registradas em sua obra e nas esferas digitais. No meu caso, aquela admiração que por ele surgiu ainda no século passado, foi reafirmada em 2009, em um seminário que Sinval Medina e eu organizamos no Projeto Plural, em coordenação com a Faculdade Casper Líbero, de São Paulo, e Universidade Fernando Pessoa do Porto, Portugal. Na série Novo Pacto da Ciência, que tem publicado os anais de seminários transdisciplinares a partir do primeiro, em 1990, o décimo volume “Energia, Meio Ambiente e Comunicação Social” parte da inspiração do físico brasileiro que para o livro escreveu o ensaio “Etanol: energia solar convertida em líquido”. Para quem discute a contribuição brasileira para as diversas energias alternativas, mais favoráveis ao meio ambiente, retomar a excelência acadêmica de Goldemberg como o faz hoje o Prêmio Jabuti, é também revisitar uma história que não cabe aqui por inteiro, mas pontilhada em momentos que o revelam numa resistência cultural e numa liderança ímpar. Sua lucidez sem meios termos se revela ao longo da trajetória e parece estar presente numa anotação muito realista do último parágrafo de seu texto, acima referido, de 2009:

Se nós não vamos diminuir o nível do conforto e vamos aumentar o contingente populacional na nossa esfera de conforto, a produção vai aumentar, os combustíveis terão que continuar a ser produzidos e os biocombustíveis, cujo desenvolvimento estratégico parece se concentrar mais no hemisfério sul, talvez pudessem gerar um início de mudança nas concentrações de poder internacional ou mesmo domésticas. Por exemplo, dentro do País, as regiões em que essas culturas necessárias ao biocombustível vão se desenvolver não são necessariamente as regiões industrializadas.  Por outro lado, as regiões industrializadas continuarão a ser consumidoras do combustível, mas não necessariamente produtoras, e terão de negociar seus interesses com as regiões produtoras de energia. Portanto, novos grupos de interesse vão emergir nesse cenário, querendo ter sua participação política. E a sociedade vai ter que sentar à mesa e negociar com todos eles.

(José Goldemberg in “Energia, meio ambiente comunicação social”, organização de Cremilda Medina e Sinval Medina, série Novo Pacto da Ciência 10, 2009, páginas111 a 122.)

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