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Em nome da ciência

Em nome da ciência

Por Sinval Medina
William Hogarth, The Four Reward of Cruelty, 1751

Prezados senhores. Tomem seus lugares, por favor. Hoje daremos continuidade aos nossos estudos sobre a existência, sofrimento e morte dos seres animados, ou seja, se me permitem: sobre o próprio sentido da vida. 

Prosseguindo nossos experimentos com ratos, que, como sabem é a designação atribuída pelo vulgo a várias espécies de roedores da família “Muridae”, apresentarei aqui uma sessão de vivissecção, complementando nosso encontro da semana passada, quando estudamos a relação entre o instinto de sobrevivência e os deveres da maternidade. 

O anterior objeto de estudo foi um exemplar feminino de “Rattus rattus”, a espécie mais abundante no País, conhecida popularmente como “rato de navio”. Como devem se lembrar, foi objeto do nosso estudo uma ratinha que acabara de parir sete filhotes. Após mantê-la presa durante uma semana sem alimentação, abrimos a porta da gaiola oferecendo-lhe liberdade e alimento, desde que deixasse a prole.  Hesitou por mais de dois minutos antes de abandonar a ninhada. Acabou deixando os rebentos desprotegidos para saciar a fome. Enquanto o fazia, eliminamos cinco das sete crias. Ao retornar, deu falta das mesmas e começou uma busca desesperada, com gritos lancinantes devidamente registrados por nossos equipamentos de gravação. Minha hipótese é que os guinchos se assemelham, mas não são exatamente iguais aos emitidos quando os são ratos submetidos a tormentos físicos. A experiência de hoje tentará provar que os ratos expressam de forma diferente as dores da carne e as dores da alma. 

Isto dito, vamos dar início aos trabalhos.

Na bancada, como podem observar, dispus uma cuba com um líquido que chamo de fármaco regenerador e um bico de Bunsen aceso. Entre o polegar e o índice da mão esquerda (sou destro, como podem observar), seguro um barbante no qual amarrei um rato pela cauda. Na mão direita, livre de embaraços, tenho uma tesoura cirúrgica. Em seguida, vou cortar a pata esquerda dianteira do roedor na altura de sua inserção ao tronco e, em seguida, o chego à chama, para, rapidamente, cauterizar a ferida antes que morra esvaído em sangue.  Preservo-lhe a vida, exacerbando a dor. 

Verificando o gravador para ver se os guinchos estão sendo perfeitamente registrados, extirpo agora a pata direita traseira, com um corte mais aberto, e repito a cauterização. Peço que me perdoem pelo odor que os pelos do rato exalam ao serem queimados. Repetirei a operação nas patas restantes, sem, contudo, expor os órgãos internos. Quando aos bigodes e focinho, bastará chamuscá-los com o roedor suspenso pelo rabo para ver como ele grita e se contorce em lenta agonia.

Sei que a essa altura do experimento, muitos de vocês enterram as unhas nas palmas das mãos, controlando-se a custo para não saltar sobre mim, exigindo que eu acabe logo com a vida do infeliz. Outros agitam-se nas cadeiras e fecham os olhos, sem, contudo, abandonar a sala em sinal de protesto. Haverá, porém, os que que acompanham meus gestos com redobrado interesse.   

Antes que o rato acabe de morrer, mergulho o que resta dele na cuba do meu fármaco regenerador que está sobre a mesa e asseguro-lhe que ele tem mais de dez por cento de chance de sobreviver. Isso, na pior das hipóteses. Na melhor, as patas extirpadas voltarão a crescer e ele será reintegrado na sociedade dos ratos como herói, condição que jamais sonhou alcançar antes do tratamento. 

O notável sucesso do meu experimento em roedores me faz crer que, em breve, o método passará a ser utilizado em seres humanos para que possamos estender as fronteiras do conhecimento e romper as barreiras que ainda impedem o pleno domínio da ciência sobre as forças que regem o universo.   


Nota: Este texto foi inspirado na leitura dos contos “A Sereníssima República” e “A Causa Secreta”, de Machado de Assis.

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