Após 36 anos do primeiro seminário transdisciplinar e após a primeira de treze edições da série Novo Pacto da Ciência, torna-se necessária a reflexão atualizada, agora na segunda década do século XXI, dos principais desafios epistemológicos debatidos no encontro de 1990 na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP). É bem verdade que a ensaística coletiva praticada nos 13 livros (doze deles publicados em 1991, 93, 94, 95, 96, 98, 99, 2005, 2008, 2009, 2010, 2022 e o 13º título em edição) vem desdobrando várias temáticas de embates e avanços do conhecimento e visões de mundo contemporâneas. Seminários locais (São Paulo), nacionais e internacionais, em conjunto com ensaios de autorias inter e transdisciplinares, têm abordado as contribuições epistemológicas da América Latina e de outras latitudes sobre crises nos paradigmas científicos ou nas vivências cotidianas. Assim, já se especulou o Mundo do Trabalho e da Sobrevivência, o Estado Moderno, o Meio Ambiente, as Questões Energéticas, os Fluxos Migratórios, as Mediações Ciência-Sociedade, Sociedade-Ciência ou as Diversidades dos Saberes Plurais a par das Disciplinas da Ciência. E o volume mais recente da coleção, Nas Trilhas do Saber Plural (2022), justamente reavalia esse percurso de três décadas de interrogantes, reforçando a vocação de nossa linha de pesquisa.
Foi também na área de pesquisa em que trilho – do início dos anos 1960 (graduação em Jornalismo e Letras na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, a UFRGS) ao Mestrado (1975), Doutorado (1986), Livre-Docência (1989), Titularidade (1992), etapas concluídas em São Paulo e na USP – que me aproximei de autores na Comunicação Social, na Educação, nas Ciências Sociais e nos demais campos de estudo. Pensadores fundantes de inquietudes, incertezas, perguntas em aberto, a todos comuns. A dissertação de Mestrado, hoje publicada em livro há 47 anos, Notícia, um Produto à Venda – Jornalismo na Sociedade Urbana e Industrial -, reúne, na apresentação, os principais autores da renovação paradigmática da época e que já me ofereciam um voo epistemológico para a complexidade (Edgar Morin), para as sutilezas da linguagem (Eliseo Verón), para a comunicação anônima e não massiva (Jean Lohisse), para as percepções de estéticas múltiplas (Abraham Moles), para o conflito de forças simbólicas (Hans Magnus Enzensberger), para a riqueza da cultura popular (Ecléa Bosi), para nuances entre teorias e ideologias (Gabriel Cohn), para a importância da Antropologia a par da Sociologia (Egon Schaden), para a amplitude simbólica de comunicação e consumo (Gillo Dorfles). Enfim, apenas alguns autores no coletivo bibliográfico do Mestrado em 1975. Já então mergulhava em novos paradigmas que alicerçariam a proposta de discussão do “Primeiro Seminário Transdisciplinar”, de 1990. Sempre me dispus a praticar a interdisciplinaridade, no entanto queria testar a possibilidade de transpor os limites disciplinares e tentar pontes transdisciplinares.
Duas experiências lançaram essa curiosidade. De 1975 a 1985, como editora de Artes no jornal O Estado de S. Paulo, vivi diariamente a situação de reunião de pauta (a agenda temática do dia) todos os fins de tarde para se decidir a edição da manhã seguinte. Me incomodava seguidamente a delimitação dos assuntos às gavetas estanques das editorias. Muito discuti (e até briguei) para produzir jornalisticamente determinado assunto em dobradiça com duas ou mais seções (editorias). Como se poderia determinar que aquela pauta era exclusivamente econômica, ou política, ou policial, ou da cidade, ou das artes, ou do esporte? E não adiantava argumentar que a divisão das editorias em uma mídia jornalística é uma questão da divisão do trabalho na Era Industrial, e persistia na tradicional fragmentação temática. Muito raramente consegui a inter e transdisciplinaridade do tema em questão, daquela pauta em particular.
Mas a outra experiência se deu no mesmo ano do seminário da USP. Em agosto de 1990 fui à 17ª Conferência da International Association for Mass Communication Research, que aconteceu na antiga Iugoslávia (hoje no país Eslovênia). Estava entre os pesquisadores da minha área, mas ensaiei discutir em minha comunicação que a noção de cultura não se fechava, no caso do chamado Jornalismo Cultural, na produção artística ou filosófica. Vencido esse paradigma conceitual e aceito o novo paradigma que Néstor Canclini formulou, tudo o que se diz da realidade é produção simbólica, produção de sentidos, produção cultural. Levava a tiracolo um trecho do autor, a título de epígrafe, para minha comunicação que, no fundo, propunha definir o jornalista como um leitor cultural. Eis o texto de Canclini:
(…)preferimos restringir o uso do termo cultura para a produção de fenômenos que contribuem, mediante a representação ou a reelaboração simbólica das estruturas materiais, para a compreensão ou transformação do sistema social, ou seja, a cultura diz respeito a todas as práticas e instituições dedicadas à administração, renovação e reestruturação do sentido.
“As Culturas Populares no Capitalismo”, São Paulo: Brasiliense, 1983, p. 29
O congresso internacional, porém, não se interessou pela crise do conceito de cultura e a radical mudança para a noção de produção simbólica. O que monopolizou as apresentações foram os equipamentos necessários para as novas tecnologias. Para meu consolo, nessa época recebi em casa um eminente familiar de Porto Alegre, casado com minha irmã Dina. Mário Barberena, paleontólogo da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (ele já nos deixou), passou por São Paulo para participar de uma banca de doutorado em Campinas, na Unicamp. Estava bastante impressionado porque o pesquisador defendia, na tese, que a reconstituição de um fóssil não espelha objetivamente o fóssil, mas o reelabora na produção assinada pelo paleontólogo. Também lembro aqui meu parceiro na USP, o sociólogo e pesquisador da fotografia Bóris Kossoy, que já registrou na sua obra – o que a câmara capta não é um retrato da realidade, mas cria uma segunda realidade. Daí se deduz que tanto um paleontólogo quanto um fotógrafo são leitores culturais, em sua produção (transdisciplinar) atribuem sentidos ao Real, segundo Canclini, administrativos, renovadores ou reestruturadores.
Ora, quando volto ao primeiro seminário de 1990, posso encontrar uma semeadura de sentidos renovadores ou reestruturadores das práticas e teorias epistemológicas. E como não citar o cientista Newton da Costa (1929-2024) que nos introduziu a uma noção revolucionária, a contradição na lógica consistente da matemática, que ele consagrara décadas antes no Brasil e no mundo.
Novos paradigmas no primeiro seminário
Não imaginava eu, em março de 2024, que, ao propor uma oficina de “Escrita Autoral” na série “Memórias Lúdicas/LongeViver” (já em longo percurso no projeto da Terceira Idade, hoje nomeado “USP+60”, na instituição onde eu iniciei nos anos 1990 e, atualmente, no Portal do Envelhecimento), que os participantes estranhariam o eixo temático – Narrativas dos cotidianos escolares e a paraconsistência. Aos poucos, em dez encontros e textos sucessivos, as narrativas foram aplicando a noção de lógica paraconsistente, de Newton da Costa. Profissionais maduros, de várias áreas de conhecimento, que produziram um livro, editado em 2025, se encantaram e se entregaram a uma lógica que corre a par da clássica lógica consistente da Ciência. O cientista que havia nos brindado com sua concepção transformadora, em 1990, no Primeiro Seminário Transdisciplinar – acentuando as contradições na Matemática – nos inspirou para a descoberta de momentos paraconsistentes em todo o nosso disciplinado percurso da escolaridade consistente, da infância à idade madura.
Mas o que eu não previa foi o acontecimento culminante: escrevia eu texto final para a troca e discussão com os textos dos participantes da oficina no “Portal LongeViver”, quando me chega a informação da morte de Newton da Costa (1929-2024). E assim o Jornal da USP, de 17 de abril, iniciava a notícia: “Mundialmente reconhecido como criador da lógica paraconsistente – que, diferente da lógica tradicional, introduz a contradição no pensamento lógico – o professor Newton da Costa morreu nesta terça-feira, dia 16, aos 94 anos”. Segue-se um longo perfil de atuação científica internacional. Nascido em Curitiba, se formou em Engenharia Civil e Matemática, no Paraná, e aí se “doutorou”. A carreira de pesquisa e docência se desenvolveu em universidades brasileiras (USP e Unicamp sobretudo) e, como Professor Visitante, atuou nos Estados Unidos, França, Itália e Austrália. Deixa também, para nossa emoção, um documentário de 2019, Espírito da Contradição, em que o documentarista Fernando Severo o filma na terra natal e recebemos de própria voz essa viragem do paradigma da lógica consistente.
Na edição do livro Novo Pacto da Ciência (1991), os anais do seminário transdisciplinar, tive o privilégio de acrescentar ao debate um ensaio escrito por um colaborador de sua equipe na Matemática da USP, Jair Minoro Abe, intitulado “Lógica e Paraconsistência”. A partir deste momento, são mais de três décadas em que sempre cito essa mudança de paradigma fundamental para qualquer leitor cultural. Nas palavras do professor Abe, parceiro de Newton da Costa: “Uma das ideias mais originais e criativas em lógicas não clássicas em nosso tempo foi a formulação de lógicas que permitem contradições ou inconsistências. Tais lógicas são hoje conhecidas com o nome de lógicas paraconsistentes” (Novo Pacto da Ciência, ECA/USP, 1991, pág. 189).
Digamos que, como a Matemática, a Física que se fez presente no seminário aqui lembrado e comemorado, representada por Sílvio Salinas e Newton Bernardes (que nos deixou em 2007), manteve um diálogo surpreendente: podemos flagrar, com a devida licença dos especialistas, as lógicas consistentes da física mecânica em paralelo às paraconsistentes da Física quântica. E nos ensaios acrescidos ao seminário, Newton Bernardes ainda assina uma poética da Ciência ao opor as heranças paradigmáticas dos mitos Apolo e Dionísio, o que ele considerava um dilema. O título, “O Dilema da Física Moderna: um Dilema Humano Milenar”, sintetiza a atemporalidade do confronto entre a racionalidade objetivista e a interação sujeito-sujeito que ocorre tanto no cotidiano da experiência humana quanto no laboratório dos cientistas. A compreensão das sutis contradições (ou da paraconsistência) no labor da ciência deste pesquisador na Unicamp e em outras universidades semeou, no seminário de 1990, muitas inspirações para a ciências humanas, a literatura e as artes, permeadas por forças simbólicas dionisíacas.
Humanas e biológicas partilham incertezas
Milton Greco, que traz consigo a comunhão interdisciplinar entre a sociologia e a odontologia, reforçou no seminário a bagagem do novo paradigma da complexidade e da Era das Incertezas. Sintonizado com a posição fundante de Edgar Morin dos anos 1960-70, o pensador humanista, de prática profissional no consultório de dentista e na educação superior (como sociólogo), fez uma revisão histórica dos “Paradigmas Fundamentados na Certeza¨ (título do ensaio) até vir aportar na emergência contemporânea das incertezas. O que, de fato, lança pontes transdisciplinares com os dilemas da Física e da Matemática, vozes da mesma mesa no seminário.
Se deslizarmos para a psicanálise, encontramos, na presença de Walter Trinca, uma instigante interrogação: como podem conviver “A Imaterialidade e o Espírito Científico”? Para o pesquisador com longa carreira na USP e muitos livros publicados, o observador participante da experiência psicanalítica participa “do espetáculo onde o encanto toma parte na relação com o objeto de conhecimento” (Novo Pacto da Ciência, 1991, pág. 151). E prossegue acentuando o que hoje nomeio observação experiência: “Não mais uma relação asséptica, objetivista e desvitalizada; é uma ciência que nutre a vida mental, expande-se e humaniza-se através do contato com seu objeto”. Uma frase epifânica de Trinca nos dá a chave do novo paradigma: O mistério que envolve o mundo, envolve também a ciência.
O que ocorre, segundo o neurologista da Santa Casa de São Paulo, Wilson Luiz Sanvito, quando, no cotidiano das cirurgias de cérebro, com toda a especialização científica, se confronta com o desconhecido, o imprevisível, o misterioso no conhecimento. Assim ele abriu sua participação no seminário de 34 anos atrás. E no ensaio que enviou para o livro, deu o título que expressa sua inconformidade perante a clássica lógica da ciência: “As camisas-de-força do pensamento”. Para Sanvito, “os intelectuais (a chamada intelligentsia) têm uma necessidade, quase visceral, de se armar em um sistema para explicar – e transformar o mundo. Uma teoria instrumental, uma espécie de modelo prêt-à-porter para o que der e vier. Este sistema de explicar desde o desemprego na América Latina até os terremotos no Japão. Sem esta armadura eles se consideram nus. Nestes sistemas, todas as perguntas têm respostas, tudo se encaixa perfeitamente: cada teoria se transforma em leito de Procusto” (Novo Pacto da Ciência, 1991, pág. 171). E vai adiante, impetuoso, pois para ele “é preciso exorcizar os ismos: marxismo, freudismo, estruturalismo, darwinismo. Adotar um desses sistemas tout court significa perder a liberdade de pensar, uma espécie de ajoelhou tem que rezar. O homem é um sistema aberto com possibilidades inesgotáveis e o conhecimento do mundo exige uma epistemologia complexa” (pág. 172).
E que complexidade na Arte Incomum
Foi quando o psicanalista João Frayze-Pereira, docente e pesquisador da USP, passou a acompanhar a produção artística do “psiquiatrado” Arthur Bispo do Rosário (1911-1989), que consagrou a noção de Arte Incomum. Nise Silveira, pioneira na motivação de internos em instituições psiquiátricas a se expressarem pela arte, já havia concebido, em 1952, o Museu das Imagens do Inconsciente, no Rio de Janeiro. Mas persistiu o rótulo arte dos loucos. No seminário transdisciplinar de 1990, a contribuição de João Frayze-Pereira contestou o conceito, e com profundidade epistêmica. Para ele, como aceitar ou não a discriminação dos indivíduos loucos-doentes mentais e não loucos-mentalmente sãos? Retomando a mudança de paradigma que a Dra. Nise Silveira (1905-1999) propôs e praticou, as instituições psiquiátricas possuem, no entender do colaborador de nosso Projeto Plural, um sentido muito mais amplo, sutil, complexo.
No ensaio que publicou no Novo Pacto da Ciência, após o seminário, discorre longamente sobre a contestação à assim dita arte dos loucos, muito bem referendada na bibliografia contemporânea que apoia a noção de Arte Incomum. A propósito, cita Octávio Paz, que, numa exposição de 1987, em Washington, comenta: “Tais obras não fazem pensar nas quatro paredes em que está encerrado o esquizofrênico, nem na galeria de espelhos da paranoia; são ressurreições do mundo perdido de seu passado e os caminhos secretos para chegar a um outro. Que é esse outro mundo? Difícil saber” (Novo Pacto da Ciência, 1991, pág. 179). Mais interrogantes que se acrescem ao conhecimento científico. E João Frayze-Pereira as amplia: “A arte transcende, ou melhor, ignora a diferença entre as frágeis fronteiras da sanidade e da loucura, como ignora a diferença entre primitivos e modernos” (p. 180).
A XVI Bienal de São Paulo, em 1981, consagrou a nova concepção com a total adesão do curador geral Walter Zanini (1925-2013). O ensaísta do seminário de 1990 registra palavras do historiador e crítico de arte que anuncia as produções culturais de “psiquiatrado”: “(…)sejam eles doentes mentais ou indivíduos desatados dos contextos normais de visualidade, sabem fazer fluir da lógica de seus mundos inconscientes uma grande força libertária” (p.180). Este rompimento de paradigma provoca questionamentos para qualquer cientista, pois exige do intérprete, segundo Frayze-Pereira e outros especialistas da área, a renúncia (ainda que temporária e provisória) das categorias familiares, a suspensão de seus sistemas usuais de referência. E cita Michel Foucault que, na última obra, publicada após sua morte (1984), aponta para uma paraconsistência epistemológica: “Existem momentos na vida onde a questão de saber se se pode pensar diferentemente do que se pensa, e perceber diferentemente do que se vê, é indispensável para continuar a olhar ou a refletir “(p. 1983).
(Aqui abro um parêntese na memória do primeiro seminário transdisciplinar e da contribuição do psicanalista João Frayze-Pereira, em 1990, e pulo para 2023, na capital do Alentejo. De visita aos artistas da casa – Daniel Medina, filho, e Renata Bueno, sua então companheira, residentes em Portugal – fui convidada a conversar com escultores em um espaço artístico de Évora. Renata Bueno participa das lides de criação que, no caso, é transformar rejeitos de mármore de uma mina local em esculturas de pequeno e grande porte. No meu caso, o convite era para um encontro em que falasse de narrativas. Ou seja, na oficina de pedra, eu trataria da oficina de palavras. Foi deslumbrante o momento transdisciplinar, mas o que me vem agora à mente é o fato de entre os escultores se encontrarem dois “psiquiatrados”, um deles acompanhado de enfermeira. A conversa fluiu com o grupo de quinze artistas e, em particular, a troca rica de experiências com os que se declararam esquizofrênicos e desfrutam do espaço de arte nomeado poeticamente Pó de vir a ser (cuja programação está ao acesso de todos que quiserem verificar na Internet.)
E os paradigmas da comunicação social?
Como idealizadora do seminário transdisciplinar levei quatro meses, em 1990, para visitar pesquisadores das diferentes áreas de conhecimento e encontrar plataformas de dialogia no momento culminante do encontro em um dia acadêmico pleno na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP). Se difícil de organizar, difícil também seria coordenar o debate entre os participantes da mesa pela manhã e as perguntas do auditório (com predominância de alunos de pós-graduação da ECA) à tarde. O resultado deu a partida aos 36 anos de posteriores de outros seminários no Brasil e no Exterior. Penso que as inspirações registradas no primeiro dos atuais treze títulos da série que se apropriou do título do primeiro livro, Novo Pacto da Ciência, remetem à coluna vertebral das Ciências da Comunicação – as mediações sociais ou a dupla vocação do Jornalismo, a mediação autoral ciência-sociedade, sociedade ciência.
No ensaio que assino no fim do livro Novo Pacto da Ciência, anais (1991), retomo a comunicação que apresentei no congresso internacional da minha área na antiga Iugoslávia (a que já me referi neste texto). Os paradigmas do Jornalismo e da Comunicação Social me perturbavam há muito tempo, precisamente, alguns deles, a partir dos anos 1960. Mas o encontro com parceiros de outras áreas neste seminário de 1990 deu consistência e paraconsistência às interrogantes que me perseguem quando leio e reporto o acontecer contemporâneo e o humano ser nas circunstâncias comuns ou imprevisíveis do cotidiano. Hoje prefiro a pluralogia à dialogia, tema de meu doutorado em 1986 na USP. Também amplio a experiência de observação do Real para além da participação linguística e sim, na impregnação dos cinco sentidos, no estar afeto a – ao Outro e seu contexto sociocultural.
Para permanecer nos apontamentos sintéticos sobre o seminário que fiz até aqui, lembro que, no texto final, ensaio uma agenda de transformações paradigmáticas para a leitura cultural do jornalista ou do comunicador social. São novas noções que transformam os conceitos tradicionais – e foram, em grande parte, os físicos que mexeram com sistemas de conhecimento antes fechados, Fritjof Capra por exemplo. Tanto a produção simbólica da reportagem quanto a dos comentários sobre a contemporaneidade necessitam atentar para as noções que anoto na página 195 do Novo Pacto da Ciência, em 1990:
- Do conceito de sujeito e objeto, passamos à noção de sujeitos inter-condicionantes, num processo de reversibilidade;
- Do conceito de causa e efeito, passamos à noção de inter-causalidade, uma rede de forças em interação;
- Do conceito de universo sólido, passamos à noção de universo poroso, como um enxame, um redemoinho;
- Do conceito de massa destrutível ou massa indestrutível, passamos à noção de que a massa está em transformação;
- Do conceito de substância e acidente, passamos à noção de relação complexa;
- Do conceito de que existe o ser da matéria e existe sua atividade, passamos à noção de que o ser da matéria e sua atividade não podem ser separados, constituem aspectos diferentes da mesma realidade;
- Do conceito de certo e errado, passamos à noção de que os dados da realidade não estão assim hierarquizados e sim, dentro da noção de coerência, de encaixe e sustentação no todo.
Uma das noções que mais diz respeito ao pesquisador de qualquer área, às práticas de Comunicação Social ou de Medicina, entre outras, é a passagem do conceito sujeito-objeto para a noção de sujeito-sujeito. O que torna inconveniente um estudioso enunciar – meu objeto de pesquisa… Ou seja, no paradigma reestruturado, sujeito pesquisador(es) e sujeito(s) pesquisado(s) são inter-condicionantes.
O 13º volume em edição, Trilhas de interrogantes, conta com colaboradores do grupo de pesquisa que coordeno na USP, Epistemologia do Diálogo Social. Por certo levarão adiante novas crises de paradigmas, outras visões de mundo. Eis a última frase do meu ensaio que fecha o livro de 1991, na página 205: E o projeto ético de humanização dos significados que produzimos se expressa na estratégia dialógica entre arquétipos atualizados em nossa cultura e “lidertipos” das matrizes mais poderosas. A osmose cultural ilumina a produção simbólica planetária, aponta para a virtual fertilidade do concerto das culturas.
Novas balizas da complexidade, a considerar.
E não é que ao se encarar virtudes e limites da Era Digital, fica de lado esse laboratório nos alvores dos vinte e seis anos do século XXI? Lembro agora, na véspera dos 105 anos de Morin, algumas de suas ideias em processo que bem podem inspirar as novas gerações que pavimentam o futuro da IA: atenção à disjunção entre ciência e consciência; cuidado com o princípio da simplificação; a cientificidade não está aí para dar certezas teóricas; a relação verificável que advém das experiências externas, da observação na ciência, não pode escapar de uma dependência com relação à sociedade que as produz; o sujeito que observa e o objeto observado (digo eu, o sujeito observado) são conjuntos de complexidade (digo eu, conjuntos do signo da relação); o conhecimento é uma aventura em espiral; a complicação é um emaranhado de inter-retroações; à primeira vista complexidade aparece como irracionalidade, incerteza, confusão, desordem; o tempo – tudo está historizado, o tempo em organização que se desorganiza, a poli temporalidade; na complementaridade e no antagonismo reside a complexidade; causalidade em círculo, não linear, causas endógenas e causas exógenas, movimento circular ininterrupto; o drama das ciências é terem se encontrado em princípios simplificados com os quais é inconcebível a existência, a autonomia, o sujeito, a responsabilidade; o ingrediente mitológico é tão necessário quanto o ingrediente material; na epistemologia da complexidade não existe um trono soberano, mas uma pluralidade de instâncias, cada uma insuficiente, incerta; e no princípio de incerteza, não oferecer a chave mestra da complexidade.
Voltando aos desafios do futuro, outra vez recorro a Morin e suas Lições de um século de vida: o que é o Novo Mundo? Um mundo se arruína, o mundo novo não emergiu. Uma revolução se opera, mas ela está inacabada. Ou seja, eis um mapa para a cifração/decifração de uma esfinge. Nunca foi tão viva a necessidade do imaginário que se expressa em narrativas míticas. Como a História não nos satisfaz, a ciência sobrevive no inacabado, a inquietude pulsa perante nossos problemas e desafios, deslizamos, mesmo sem querer, para a Viagem do Delírio, ou da Aventura, como em mais uma frase de Morin: É preciso seiva, que é completamente diferente de acumulação do saber, que é, no fundo, a aventura humana.
E então, se pergunta: a IA seria essa seiva atual? Na Era da Inteligência Artificial, os autores do livro desse título, Henry A. Kissinger, Eric Schmidt e Daniel Huttenlocher, após longa compilação dos dados que conformam os presentes desafios, centram, a exemplo do neurocientista António Damásio, digo eu, na consciência humana das decisões, esta, ainda não assumida pela Inteligência Artificial. Segundo a possível avaliação, “o fato de ser capaz de fazer determinadas previsões, tomar determinadas decisões ou gerar determinados materiais não indica, por si, uma sofisticação comparável com a dos humanos. Mas, em muitos casos, os resultados são comparáveis aos que antes foram produzidos por humanos”. E a reflexão sobre os desafios da identidade humana se fundamenta nos avanços como o GPT-3 na criação de textos. Para esses autores norte-americanos, essa virtude da IA pode “revelar-se um valioso parceiro das pessoas”. Incrível que dos autores, o consagrado pensador e político Henry Kissinger produziu não só esta obra traduzida em Portugal em 2021, como deixou uma espécie de testamento, o livro sob o título de Gênesis, antes de morrer aos cem anos em 2023.
Em 11 de janeiro de 2025, o jornal Folha de S. Paulo republicou uma análise da última obra de Kissinger do jornal The Economist, em que além de sintetizar reflexão e ação do que considera a trajetória de um polímata nas sociedades regidas pela cultura analógica, se surpreende com as incursões, no fim da vida, na Era Digital. E outro fato surpreendente aí relatado é a última viagem ao exterior ter sido ao território chinês. A convite de Xi Jinping, o diálogo travado entre o Presidente Popular da China e Henry Kissinger abordou, como tema emergente, os muitos riscos que a humanidade enfrenta com a IA. Nas palavras que o artigo capta em Gênesis, o centenário deixou para as futuras gerações o alerta: perante os perigos à vista na Era Digital, é tarefa da filosofia, das instâncias diplomáticas e legais forjar consensos. Para os parceiros de Kissinger do livro anterior, no atual admirável mundo, “a definição do futuro da humanidade assenta na escolha que as pessoas façam do seu papel numa era da IA”.
A educação, a saúde, a geopolítica, as negociações econômicas, ou seja, todas as ações ditas humanas estão hoje envolvidas em interrogantes perante seu futuro. Mas o presente está aí consumindo o planeta, consumindo nações, comunidades, grupos, consumindo, isso é grave, o cotidiano dos seres viventes. E este Projeto Plural, cujo leme sustenta o Signo da Relação, navega para unir os fios. Inclusive algoritmos da máquina e sinapses de nossas mentes naturais. Ou, como diz Damásio, seremos talvez uma espécie de híbridos de criaturas naturais e artificiais. Dará para manter rotas de intuição criativa que produz símbolos, ou no meu caso, Narrativas da Contemporaneidade, numa Mediação Social e Autoral? Entregaremos à IA a invenção mitológica, a narrativa da imaginação do desejo de Outra História? Desprezaremos as memórias lúdicas em favor das precisas memórias materiais? A poética da desordem, das contradições, do lado invisível do Real ficará à deriva das informações catalogadas das Máquinas? Os organismos vivos dos cinco sentidos serão encapados na lógica eficiente, perdendo o imprevisível da lógica paraconsistente? Nesse universo mediado ao longe, como despertar a necessidade do tocar de perto ou sentir o gostinho da presença natural? E nessa distância das nuvens, como recuperar o toque empático nos massacrados das guerras e das armas que atuam sem decisão ética?
Não sei.
O que percebo é que ainda sinto que o Signo da Relação, o Ato Presencial, comparecem em carne viva toda a vez que se faz necessário um Gesto de Vida ou se revela num Gesto da Arte. E aí vamos enfrentando o Cotidiano.
Breve nota biográfica
Cremilda de Araújo Medina, jornalista, pesquisadora e professora titular sênior da Universidade de São Paulo (USP), professora emérita pelo Prolam/USP, é autora de 20 livros e organizou 65 coletâneas interdisciplinares. Com mais de 500 alunos de Jornalismo, editou a coleção São Paulo de Perfil (26 exemplares publicados e o 27º inédito); a série Novo Pacto da Ciência (12 títulos) reúne seminários em que cientistas de várias áreas do conhecimento debatem a crise de paradigmas contemporâneos. Também organizou oito edições de seminários de pesquisas acadêmicas sobre a América Latina na Fundação Memorial da América Latina. Desde a criação do Programa da Terceira Idade na USP, tem oferecido oficinas de “Narrativas da Contemporaneidade”, das quais já resultaram dez coletâneas. Além de coordenar o “Projeto Plural”, a pesquisadora orientou 33 doutores, 28 mestres e três pós-doutorados. Ato Presencial, Mistério e Transformação (2016) e A arte de Tecer Afetos, Signo da Relação, Cotidianos (2018), dois dos livros mais recentes, registram sua principal linha de pesquisa: dialogia ou pluralogia social. A autora e seu companheiro, o escritor Sinval Medina, criaram em 2025 o presente site – lendasenarrativas.com.br – em que este ensaio está publicado.
