
Sempre fui fascinado pela história das histórias, isto é, pelos caminhos e motivos que levam o ficcionista a produzir seus contos, novelas e romances. Recentemente escrevi sobre a relação de um texto de Voltaire com O Homem da Máscara de Ferro, célebre protagonista criado por Alexandre Dumas. A referência do grande filósofo iluminista a um episódio obscuro que ocupava pouco mais de uma página em sua obra A Era de Luís XV tornou-se uma das mais populares tramas de Dumas quase um século depois.
Ouvi certa vez o mestre do romance brasileiro Osman Lins (1924/1978) dizer que toda a construção ficcional se origina de uma semente de memória. A árvore que brota dessa semente é produto da imaginação do artista. Não vou aqui fazer uma lista de grandes obras nascidas de impressões fugidias, de uma frase ouvida ao acaso, de uma notícia de jornal, enfim, de um fato aparentemente sem a menor importância que ganha corpo nas páginas do autor, ainda que o tema seja apaixonante. Vou relembrar a história do romance O Herdeiro das Sombras, o quinto da minha carreira, publicado em 2001.
Em 1984, assisti em pré-estreia, a convite do escritor Ricardo Ramos, ao belíssimo Memórias do Cárcere, filme de Nelson Pereira dos Santos baseado na obra homônima de Graciliano Ramos. Na plateia, dona Heloísa de Medeiros Ramos, viúva de Graciliano, ao lado do filho Ricardo, era o centro das atenções. Também estava presente a atriz Glória Pires, então na casa dos vinte anos, que fazia o papel de dona Heloísa no filme.
Ao término da exibição, aplaudida de pé pelos convidados, Glória caiu aos prantos nos braços de dona Heloísa. A bondosa senhora, já septuagenária, que vivera na pele os terríveis acontecimentos mostrados na tela e tivera papel decisivo na libertação do marido, consolou sua intérprete sem derramar uma lágrima, dizendo-lhe, não chore, minha filha, assim é a vida.
Mas não foi só esse momento inesquecível que ficou na minha memória. Na última cena do filme, quando Carlos Vereza, na pele de Graciliano, já a bordo do barco que o levaria do presídio da Ilha Grande para o Rio de Janeiro, joga nas águas o chapéu que traz na cabeça. Sobe o som e a tela é tomada por uma versão orquestral do nosso conhecidíssimo “ouviram do Ipiranga”. Mas, fixando-me na melodia, percebo algumas discrepâncias, que a princípio atribuo ao arranjo. Não, não é apenas o arranjo. Em alguns momentos, é outra melodia. A curiosidade me leva a aguardar a ficha técnica do filme, coisa que raramente faço — costumo levantar assim que a palavra FIM aparece na tela. E aí vem a surpresa. A trilha sonora não é o original de Francisco Manuel da Silva, mas uma peça intitulada Grande Fantasia Triunfal sobre o Hino Nacional Brasileiro, de um compositor de nome complicado, do qual eu nunca ouvira falar.
Com o botão da curiosidade acionado, trato de descobrir quem é o misterioso autor. É bom lembrar que estamos em 1984, e esse tipo de informação a gente só encontrava nas enciclopédias. Achei a primeira referência a Gottshchalk (Louis Moreau) na Britannica consultada na Biblioteca Mário de Andrade, em São Paulo. Num modesto verbete, fiquei sabendo que era norte-americano e morrera no Rio de Janeiro em 1869. Pronto. Eu descobrira o personagem. O problema era obter informações sobre ele. Não achei nenhuma obra no Brasil sobre Louis Moreau Gottschalk.
Minha primeira ideia foi retratá-lo em uma biografia, o que para mim era um trabalho de Hércules, já que, na época eu estava mergulhado nas pesquisas do Tratado da Altura das Estrelas e a atividade como jornalista me absorvia praticamente em tempo integral. Assim, a história de Gottschalk foi para a gaveta como uma boa ideia da qual, talvez um dia eu pudesse me ocupar.
Passou-se o tempo, publiquei, as novelas para jovens As múltiplas vidas do Dr. Gaspar (1986) e O dia da caça (1989), cuidando, ao mesmo tempo, do Tratado (que, à época, se chamava Carvalho, raiz e fruto). No ano anterior, recebera uma bolsa de trabalho da prestigiosa Fundação Vitae, com duração de 18 meses, para escrever o romance, o que me permitiu deixar o cargo de redator-chefe da revista Saúde!, da Editora Azul, podendo assim dedicar mais tempo à literatura. Após quase dez anos, O Tratado foi publicado pela EDIPUCRS, em coedição com o IEL, e, em 1999, conquistou o Prêmio Zaffari & Bourbon de Literatura de Passo Fundo para romances em língua portuguesa.
Já então o projeto Gottschalk começava a andar e eu tinha a dimensão do personagem que me impressionara em 1984 com sua Fantasia Triunfal, na pré-estreia do filme Memórias do Cárcere. Dona Heloísa falecera em setembro de 1999. Meu amigo e mentor Ricardo Ramos, grande contista e romancista, se fora em março de 1992. Cheguei a trocar ideias com ele sobre Gottschalk, quando ainda pensava em retratá-lo em uma biografia. Ricardo me fez mudar de ideia. Você é ficcionista, meu caro. Escreva um romance.
Segui o conselho. E fui atrás dos caminhos percorridos por Gottschalk na sua breve e agitada existência. Estive em New Orleans, cidade onde ele nasceu; procurei os endereços onde viveu, nos anos 1850, em Paris; visitei em Manhattan a igreja onde foi rezada missa de corpo presente após o traslado de seu corpo para os Estados Unidos; visitei seu túmulo no Green-Wood Cemetery, no Brooklyn, Nova York; no Rio de Janeiro, tentei reconstituir seus passos quando ele por lá esteve; andei pelo Largo de São Francisco e pelas arcadas da Velha Academia, em São Paulo, onde sofreu um atentado que quase lhe custou a vida. Mas o que mais me impressionou nessa jornada do autor em busca do personagem foi um fato banal que até hoje permanece um mistério para mim.
Em 1997 estive em New Orleans em busca do meu personagem. A primeira escala da viagem fora a inevitável Disney (Miami e Orlando) para comemorar os cinco anos da minha neta Alice. A parada seguinte foi na Louisiana. Em um passeio turístico no berço do jazz fui apresentado à “Rainha do Vodu”, figura lendária na cidade. O guia parou diante de uma casa modesta, transformada em patrimônio histórico e explicou que ali vivera Marie Laveau, uma espécie de sacerdotisa dos rituais de origem africana trazidos do Haiti para os Estados Unidos. Não prestei muita atenção no assunto e o tour prosseguiu por outros pontos da cidade. No dia seguinte, em uma loja de souvenirs, vi um livrinho tosco, quase um folheto, com o título “Mysterious Marie Laveau – Voodoo Queen”, de Raymond J. Martinez, historiador e folclorista local. A aparência do livro era tão pouco atraente que nem me dei ao trabalho de folheá-lo.
Em Nova Iorque, etapa seguinte da viagem, encontrei na Livraria Barnes & Noble o que eu queria sobre Louis Moreau Gottschalk. Não só a completíssima biografia Bamboula!, de S. Frederick Starr (Oxford University Press, 1995) como duas caixas de CDs com registros da obra musical do compositor. Com o tesouro debaixo do braço, encontrei Cremilda em outro andar da livraria, diante da prateleira de “Mitos”, assunto em que a minha companheira se aprofundava na época. Ela também já tinha concluído as obras que a interessavam. Era só passar no caixa, pagar e seguir o nosso rumo.
O inexplicável, porém, me fez olhar de relance para a prateleira. E deparei com uma brochura de menos de cem páginas saltando para fora das belíssimas lombadas que a cercavam. Era o livro sobre a misteriosa da Rainha do Vodu, que eu desprezara em New Orleans.
“No creo en brujas” e, sinceramente, acho que “no las hay”, mas não resisti às artimanhas da feiticeira. Eu não podia ignorá-la. A participação dela tornou-se obrigatória no romance. Marie Laveau tornou-se uma personagem que escapou por completo ao meu controle. Me lançou numa dimensão desconhecida do imaginário. As sombras que aparecem no título do livro afloraram com a presença da mítica pitonisa afro-americana na vida de Gottschalk.
Continuo “no creyendo en brujas”, mas por amor à verdade, não posso negar a ajuda que recebi de Marie Laveau ao escrever O Herdeiro das Sombras, publicado em 2001. Convivo com o mistério até hoje.

