
1985. Cobertura Mengele, trabalho no jornal O Estado de S. Paulo, sou repórter especial, pedem-me, na editoria de Geral, que suspenda o que estou fazendo, e dê uma mão aos repórteres que atuam no grande tema do momento — a identificação do nazista, morto e enterrado no Brasil. Destacam-me, às 14 horas, para localizar um sobrevivente de campo de concentração, o perfil é para hoje, devo fechar a matéria até 20 horas.
Recorro a meu repertório humano (amigos), acumulado em quinze anos de São Paulo. Paro para pensar: meus amigos judeus. Muitos, de variadas profissões, poder aquisitivo, níveis intelectuais. Entre tantas opções, decido por uma fonte de informação que pode me assessorar: uma brilhante professora de História, ex-aluna minha de Jornalismo, na ECA, no início dos anos 70. Não falha: amiga e profissional competente, me indica três judeus sobreviventes de campo de concentração, em apenas meia hora de consultas. Acerto, por telefone, a pessoa disponível. (Não foi fácil. Naquelas circunstâncias de 1985, em que a imprensa vasculhava a intimidade, as pessoas fugiam, recusavam-se a mexer nas feridas.) Depois de certa habilidade, via telefone, acertamos o contato.
Às 17 horas, aporto, com o fotógrafo e o motorista do jornal, em Higienópolis. Deixo os dois de plantão no carro e subo ao apartamento de d. Bela Lukower, para o que der e vier. Deu e veio. Em uma hora e meia, o encontro fecunda. Com dificuldades aparentemente intransponíveis, a batalha — dentro de d. Bela — se define: obtenho o depoimento. Entre silenciar ou mexer na área mais frágil de sua vida, Bela assume os riscos pessoais em função do dever histórico. Entra, o mais fundo possível, naquele momento decisivo. “Viver é muito perigoso”, diz Guimarães Rosa. D. Bela não se furtou a viver e a tocar defuntos e fantasmas.
A última etapa da batalha é a fotografia:
— Para dar credibilidade ao depoimento, para provar que a senhora existe, não posso falar de uma personagem que eu poderia inventar, entenda, d. Bela, é preciso dar ao leitor o registro visual de sua presença, tão significativa, que diz coisas tão importantes quanto as que a senhora já disse, não se preocupe, não há nenhum risco de sensacionalismo, meu trabalho é sério, só quero respeitar seus sentimentos, não vou forçar nada, mas é preciso, senão, quem vai acreditar que efetivamente estive aqui?
(Seria longo demais relatar os lances da luta.)
Em um instante luminoso, desses que se perseguem a vida toda, d. Bela decide: está certo, você me derrotou, pode deixar subir o fotógrafo, você é muito convincente, eu não quero, mas entendo sua argumentação.
E então a matéria se fez realidade. Entrego-a às 20h30, prontos o texto e as fotos. O editor de Geral fecha a matéria e, no outro dia, aparece na última página de O Estado:
Sobrevivente pede o fim da maldade
Com estes acontecimentos, em São Paulo, todos nós — judeus — voltamos a viver como se não tivessem passado 40, 42, 43 anos. Está tudo tão dolorosamente vivo como se fosse hoje. O sentimento que se apossa de Bela Lukower, que saiu de um campo de concentração da Polônia em 1945, se generaliza entre os que sofreram os horrores do nazismo. A discussão sobre a presença de Mengele fez vir à tona fantasmas que nunca foram enterrados. E é por causa dessa chaga que muitas vítimas se negam a prestar depoimento, a se deixar fotografar. Chega a ser desumano mexer neste domínio privado e intraduzível da dor.
Depois de muito relutar, só concedo falar porque se trata de O Estado, um jornal liberal que sempre assumiu posições maravilhosas em relação ao nosso povo. Bela Lukower insiste, não é possível expressar tudo o que sofreu, tudo o que viu, sofrer. (Há muitos anos não consegue chorar, mas agora, ao tentar trazer à tona certos episódios, a voz se embarga, o soluço interrompe a frase e não consegue conter as lágrimas.) Mas Bela tem plena consciência de que o momento exige não o desabafo, o ódio, e sim o alerta. Há, dentro da gente, uma grande necessidade de clamar pela justiça, a bem da humanidade, a bem de todos os que estão nascendo e têm o direito de viver livres, dentro de seus credos, de suas tradições…
Vem-lhe imediatamente à memória seu irmão, um menino cujo talento precoce para o violino fez com que o Ministério da Cultura da Polônia lhe concedesse uma bolsa de estudos em Varsóvia. Numa das trágicas noites vividas na praça principal de sua cidade, Zwolen, onde todos os judeus eram convocados a comparecer pelos alemães, separaram uma leva de 16 a 60 anos, o irmão no meio, e lá se foram para o campo de concentração Skarzysk. O pequeno músico, promessa já visível, foi trabalhar em uma seção química, no fabrico de pólvora. Adoeceu, envenenado, foi recolhido da enfermaria e morto. 1942: aquela criança que nem começara a viver, morreu cruelmente. Assim perdi meu irmão, o primeiro da minha família, que seria totalmente destruída.
É preciso tomar fôlego. Bela volta a se sentir incapaz de prosseguir a narração. Afinal, o que realmente interessa saber? Só as pessoas que lá estavam, podem perceber a dimensão de tudo isso. Nunca ninguém no mundo poderá dar sentido e fazer com que os outros sintam tudo o que aconteceu. De repente, Bela acrescenta um fato inesquecível. Outra das noites trágicas: um SS alemão entrou no gueto onde morava com os pais, o irmão (isso foi antes de o levarem) e a irmã, uma tia, e o filho desta tia. O policial escolheu o menino, seu primo. Pegou nele, tinha treze anos, levou-o ao quintal e ali o matou. O sangue se espalhou pelos muros e janela. Antes de sair, deixou um recado: enterrem imediatamente, aí no quintal, senão, amanhã volto e mato o resto de vocês. Bela e toda a família viram o pai enterrar o menino no quintal, fazer uma cova e ali depositar o sobrinho. Por tudo isso, é preciso fazer justiça. E olhe que não foi só o povo judaico, não. Foram seis milhões de judeus, mas trinta ao todo, os que os nazistas mataram. Freiras, padres, intelectuais, principalmente estes que são sempre os mais conscientes, mais críticos e os nazistas só queriam adeptos fanáticos. Vi, na minha cidade, nessa mesma praça, obrigarem rapazes judeus a levarem padres para serem enforcados em postes de telefone.
Bela adquire uma expressão enfática, quase dura, ao frisar que tudo eles executaram com naturalidade. Nunca percebeu um só sinal de consciência humana, um segundo de remorso pelo que estavam fazendo. Isso, sem exceção. Se ela e sua irmã (também residente em São Paulo, mas que não se sente em condições de falar, tal a náusea que o tema lhe causa) resistiram, talvez tenha sido um milagre. Também elas ainda não tinham começado a viver e foram levadas para o mesmo campo de concentração onde o irmão foi fuzilado. (Os pais e o resto da família morreram todos em outra parte da Polônia.) Adolescentes, as meninas caíram também na fábrica de munições e Bela se arrepia ao lembrar que se a bala não saísse perfeita da forma, o castigo, que ela também sofreu, era apanhar com chicote de extremidades de ferro diante da responsável pela seção, que presenciava o sádico espetáculo executado por alguém que comandava.
Quem poderá explicar o milagre da sobrevivência, da libertação? Foram três anos em que não vimos leite, açúcar, carne. Davam-nos uma refeição de repolho cheio de minhocas. Em 1945, ao ser libertada, deveria estar com uns trinta quilos. Não sei. Doze horas de trabalho na fábrica e o terror das noites sem luz alguma. Numa delas, ouvimos o choro de criança nascendo, havia uma mulher grávida em nosso barraco. Fomos ver. A vigia que ajudou a criança a vir ao mundo pegou um travesseiro, sentou em cima, matou-a ali mesmo.
Mas uma das noites foi de luz, ainda que com medo. Anunciou-se o fim do corredor da morte desses três anos. Os russos chegavam, os alemães abandonavam o campo de concentração e levavam grande parte dos prisioneiros em trens, para a Alemanha. Bela e sua irmã ficaram no campo que, diziam, estava todo minado. Mas, de repente, os clarões que se viram eram dos libertadores.
Bela se casou com um polonês que lutou contra os nazistas na Lituânia, foram para a Itália como refugiados e terminaram no Brasil em 1947. São Paulo, precisamente. Aqui é sua pátria. Ama a liberdade deste país e todos os que lutam contra a injustiça. Quer que seu depoimento sirva para o bem, confia na humanidade e espera, com fervor, que se consiga, um dia, inverter o mal. Seu alerta dirige-se a todo aquele que possa ajudar a achar esse homem, um dos piores da História, e que também os que o protegem ou protegeram (a ele e aos demais) sejam julgados por alimentarem esse foco de maldade.
Mais perto do invisível
Em 1985, fiz o possível na precariedade do dia a dia. Ficou a frustração da superfície atingida, sob pressão de tempo, sob pressão de espaço (não ultrapassar 120 linhas de texto).
Em 1986, uma ambição maior de encontro entre o Eu e o Tu me empurra, outra vez, para d. Bela.
O aprofundamento não é fácil para ambas as partes. Para mim, como justificar outra e maior invasão na privacidade? Para ela, por que se expor a novos e mais perigosos riscos, ainda que já confie em mim por ter aprovado o trabalho de 1985? As gestões telefônicas entram em novo e delicado encaminhamento. Mas triunfa a sensibilidade de Bela Lukower, uma pessoa simples e profunda do anonimato paulistano de Higienópolis. Assim aconteceu no primeiro momento, quando foi aleatoriamente escolhida como fonte de informação numa determinada cobertura jornalística.
Chego, outra vez, à rua Sergipe, a dois passos da Praça Buenos Aires, ao amplo apartamento, decorado com a sobriedade de um gosto europeu, polonês. Móveis de linhas ascetas, estofados acolhedores, algumas obras de arte e lustres que nos levam aos anos 50 do Brasil, 40 da Europa. D. Bela, afetiva, receptiva, elogia minha chegada pelo vestuário, você é muito elegante, elegância europeia. Penso: são seus olhos simpáticos, que já me aceitam por inteiro. Conversamos sobre tudo, sobre nada. O calor de São Paulo, a umidade, o bairro, trocamos entusiasmos sobre Higienópolis, as ruas em que todos se misturam, estar à vontade por aí. Nos aproximamos dos costumes, do jeito de ser das pessoas… D. Bela fica mais concentrada, os olhos se aprofundam: o ser humano, hoje, tem uma pretensão muito grande. Num tempo antigo, não sei me expressar muito bem, não sei se meu português é claro, a morte, entende?, era afastada das crianças, se escondia a morte, porque havia uma distância muito grande entre a vida e a morte. Hoje, não. Há uma ansiedade tão grande na existência que se passa por cima da morte de qualquer animal de estimação. Conto-lhe um caso: fui a um casamento e uma amiga minha, viúva como eu, mas muito frágil fisicamente, esteve também nesse casamento e morreu ali, na Igreja. O filho, filho único, entende, você entende?, assimilou aquela morte com a maior facilidade.
É assim: as pessoas morrem, tudo muito natural, continuamos a viver como se nada tivesse acontecido.
Na minha infância nós vivíamos mais os sentimentos. Tenho essa impressão. Cada membro da família tinha seu lugar e todos nos uníamos. Acho que o que nos unia eram os princípios morais, de certo por trás estavam princípios religiosos. (Nós não éramos judeus muito religiosos, talvez minha mãe um pouco, sim, mas meu pai, não.)
Você me fala de seu trabalho sobre o diálogo humano e o muro que existe entre nós hoje em dia. Acho este muro muito agressivo. Sabe? Vivemos dois mundos — um externo, o outro é individual. Pode-se dizer que a família faz parte do individual, mas, como dizer?, o que acho é que o externo influencia muito sobre o individual.
(Provoco-a para a Polônia, a infância.)
Aquele mundo foi bem mais simples, menos pretensioso do que o que eu vejo agora. Meu pai? Tinha uma loja de confecções numa pequena cidade da Polônia, a cem quilômetros de Varsóvia, Zwolen. Uma cidade primitiva, há 50 anos. Bem, se considerarmos o mundo há 50 anos, não é que queira defender minha cidade, mas as coisas eram, em geral, bem mais simples. (Seus olhos se aprofundam.) Nós — como crianças — está me entendendo?, eu consigo me expressar?, nós adquirimos uma riqueza até hoje importante. Sabe, Cremilda, acho que foi essa riqueza que nos deu força para atravessar aqueles momentos e sobrevivermos com moral. Quero dizer… como dizer… Enfrentar aquele perigo com dignidade nacional. É isso. Mas não. Perigo não é uma boa palavra: ela não pode expressar o VULCÃO. Não, não há palavras para expressar.
Você, naquela entrevista que eu tanto admirei, me fez uma pergunta que eu até hoje me arrependo de não ter assumido. Você me perguntou, lembra?, se eu queria esquecer.
Claro que eu não quero esquecer. Veja aquele livro ali na mesa (a mesinha, em frente ao sofá). Está ali sempre, para não esquecer. É um livro feito — uma coisa terrível — com os depoimentos de pessoas de minha cidade. Sabe o que quer dizer o título — Yzkor Book Zwolen? Yzkor quer dizer um canto à morte… (Interfiro: Réquiem a Zwolen, a sua cidade?) Isso mesmo.
D. Bela, vamos voltar a sua cidade, na infância. O que a senhora considera simples e importante para sua vida?
Acho que era aquela vizinhança sem muros. Uma primitividade que, lhe confesso, me aquece até hoje. Sabe que até hoje essas pessoas de minha infância são mais significativas do que meus próprios parentes? Você quer que eu tente dizer o que é essa primitividade? Me parece que é esta dependência que havia, sem arrogância. Lembro uma vizinha, uma pessoa muito humana, que lutava todos os dias pela sobrevivência. Olho para ela hoje e ela é para mim o símbolo da luta cotidiana. Éramos pobres? Olhe, a Polônia, nesses tempos, como acho que de certa forma hoje, tinha ou mais pobres ou menos pobres. A Europa nunca teve essa diferença tão grande que se vê na América, os muito ricos e os muito pobres. A Europa sempre foi povoada, pelo menos desde que eu a conheci na minha infância, por uma classe média que lutava pela sobrevivência e que levava uma existência menos pretensiosa. Nos tempos atuais, certamente tudo se modificou.
Sua chegada à América, como foi d. Bela?
Chegamos, como sabe, em 1947. Minha irmã e o marido, eu e meu marido. Fomos morar na Lapa, em São Paulo, na rua Clélia, conhece? A recordação que guardo da Lapa é muito boa. Está certo, eram outros tempos, outros costumes, outros princípios, princípios e costumes diferentes dos nossos, na Polônia, mas era uma gente de classe média com calor humano para dar. Nós chegamos muito feridos, ansiosos por boas relações humanas, estávamos conscientes de que vínhamos para outro mundo, que devíamos ter o máximo de respeito por outros costumes, outros princípios, nós sabíamos que o nosso mundo tinha desaparecido nas câmaras de gás… Só lendo, Cremilda, só lendo, se entende isso tudo que eu não consigo expressar… Nem sei se lendo… Sim, este mundo aqui, a Lapa no começo, deu a nós, logo de saída, a facilidade de se adaptar com muita positividade.
Mas então, d. Bela, o que se opunha de essencial entre o velho mundo de sua infância e o novo mundo da América?
(D. Bela para. Pede que tome o café, coma o bolo caseiro que me serviu.)
Minha mãe fazia as reservas de inverno. Você sabe, o inverno rigoroso da Europa. Sucos, geleias e, no meio, a framboesa. Quando se preparava a framboesa já se sabia que era boa para as gripes de inverno. Então, minha mãe fazia tudo isso com a intenção de se preparar, com uma reserva a mais, para os que batiam à porta e pediam: a senhora teria um pouco de framboesa a mais, que falta lá em casa e estou com os meninos muito gripados?
(Choramos ambas.)
Nós somos procedentes de uma gente de um sabor humano que desapareceu. O Vulcão acabou com ele.
A senhora, d. Bela, acha que este país não tem condições de desenvolver este humanismo?
Não, não. Você me entende mal. Não é o país que tem culpa, estas coisas são universais. São Paulo pode ser uma cidade, por causa da ganância econômica, mais agressiva, mas o problema é universal.
A guerra destruiu tudo, d. Bela?
Uma tendência de um povo se constituiu em séculos.
Através dos costumes, de uma sociedade. Eu, por exemplo, desde menina, fui a primeira filha, a primeira neta, me criei com toda a liberdade, brincava à vontade com os meninos, todos se contentavam, era uma sociedade pequena, sem perigos. A nossa única luta era da existência do dia a dia. Hoje, tento vários controles para você, mas não quero nada disso.
Quando a senhora fala de sua cidade, da Polônia, a senhora se refere só aos judeus, não é?
Sim. Não é por acaso que os polacos tanto colaboraram na construção dos crematórios na Polônia. Os judeus formam atores historicamente e a própria Polônia se deve à existência judaica. A Polônia era obrigada a essa hora. Sabe por quê? Você já deve ter ouvido que se dizia que os judeus faziam o pão do dia de sábado de crianças cristãs, mortas para esse fim.
E na Lapa, d. Bela, havia discriminação?
No Brasil, houve problemas no período de Getúlio, que proibiu a entrada de judeus. Mas nossos parentes conseguiram que nós viéssemos num dos períodos especiais, em 1947. A Lapa, não. Só conhecemos as possibilidades da liberdade, do trabalho e da convivência com muito calor humano. Lembro-me que nós saíamos sábado à noite, nos divertíamos em festas, voltávamos muito tarde, felizes, deslumbrados. Imagine nós, sobreviventes da guerra, se divertindo num sábado à noite de festa…
Vieram casados para o Brasil?
Sim, logo que terminou a guerra — minha irmã e eu, libertadas do campo de concentração, meu marido, resistente, desses que se escondiam nos bosques — casamos logo. Era assim: não sei lhe explicar, mas os jovens procuravam mulheres para casar, desesperadamente. As mulheres, poucas após a guerra, eram muito disputadas. Aí nos instalamos numa mesma casa, na rua Clélia. Um ano e meio depois, meu marido, uma pessoa muito sensível, uma pluma, um intelectual com grande capacidade para as coisas práticas, abriu uma loja de móveis e eletrodomésticos na rua 12 de Outubro. E morreu aos 47 anos, com câncer no aparelho digestivo. Consequência da guerra? Deve ser, ele era um partisan que viveu enterrado, é isso mesmo, debaixo da terra, nos bosques da Lituânia e assim resistiu sabe-se lá às custas de que riscos de saúde. Uma pessoa tão frágil, tão sensível. Fiquei viúva com trinta e poucos anos e sinto este peso até hoje. Confesso a você, sou uma pessoa com certa facilidade de adaptação, de vencer grandes obstáculos, mas este peso, não consigo superar.
A Lapa foi um princípio de vida que eu guardo com muito carinho, muito respeito. Nossa convivência na loja com aquele povo me sensibilizou pelo calor humano. Por mais que repita isso, é pouco.
No espelho do abismo
No fundo, sinto uma marca que nunca nos deixará. Essa infância que levamos, separados, o estigma. Depois, o Vulcão. Como você vai se libertar desta marca? Nem com toda a liberdade com que fomos recebidos no Brasil, na Lapa. Não quero ser hipócrita. Claro que somos marcados… um certo medo talvez… um medo que não nasceu com você, foi provocado de fora para dentro, aquela desconfiança do outro, ou me expressando melhor, a falta de confiança no outro. Muitas vezes já me perguntaram: por que os judeus são tão fechados? Não é nem foi o País, o Brasil, que fez os muros. Nós, que viemos para o Brasil, todos nós, imigrantes, e os da guerra, trouxemos para cá os muros, os recalques que aqui estão dentro de nós.
Mas não confundo esses complicados muros com os outros provocados, universalmente, pelos costumes atuais. Hoje o ser humano quer mais, quer mais e mais e a ansiedade de querer o torna muito agressivo. Sabe, claro que você sabe, o desenvolvimento tecnológico trouxe tanta coisa para ser cobiçada. Tudo muito atrativo, que embeleza. Vou lhe contar um caso. No final dos anos 40, na nossa loja de móveis da 12 de Outubro, um noivo entrava e escolhia o seu enxoval para casar: uma cama patente, uma mesa e quatro cadeiras, um fogão de carvão. (Eu, quando cheguei, nunca tinha visto um fogão desses, e cozinhava com ele no fundo do quintal.) Mas então o noivo contava o dinheiro, fazia a compra a prestação e lá ia ele todo satisfeito, pronto para casar — a cama, a mesa, o fogão. E precisava mais? Meu cunhado e meu sobrinho, eu estava na loja deles há pouco tempo, me mostraram um operário que entrou para escolher um fogão do último tipo, nem sei como se chama. Ainda não casou nem está com a data marcada, mas antes desse fogão luxuoso, comprou uma televisão a cores e um dormitório completo muito caro. Acho que é este querer, querer mais que leva as pessoas à agressividade, aos muros.
Que o Brasil é um país muito especial, não há dúvida. Eu cheguei em 47 e passei por momentos bem difíceis neste País: primeiro a morte de Getúlio Vargas, depois 64, depois os últimos vinte anos, depois a Reforma Monetária, e eu sempre digo, na intimidade dos amigos, este povo se manifesta de uma maneira por demais pacífica. Acho isso negativo? De maneira alguma, sou contra qualquer agressividade. Lógico, existem conflitos, que também são formas de agressividade, mas não se comparam às guerras, à agressividade física contra o homem. Infelizmente, quanto mais se vive, mais se constata que isso tudo é idealismo. Acho que sou idealista. Meu marido, já lhe disse, que era uma pessoa sensível, tinha uma forma muito prática de viver, eu sempre fui mais sonhadora. Mas o fato é que quando nasci e no meio em que nasci só se vivia para a paz, para as relações humanas harmoniosas, cheias de calor, compreensão — uns e outros, as crianças e os adultos, os adultos e os mais velhos, cada um muito respeitado pelo outro. Já vivi e não encontrei o progresso de que falam. Abro o jornal todos os dias e que vejo? Só agressividade: uma criança de oito meses explodiu no ar, com a bomba que colocaram em um avião. Onde está o idealismo do ser humano? Só o encontro quando estou no cinema assistindo a filmes como “Ran”, do Kurosawa, ou então em um dia como hoje, nós aqui conversando, você preocupada com os muros, eu também, nos encontramos. Na maior parte das vezes, diante desse mundo externo que está aí, tenho uma reação estranha que cada vez me assusta mais, porque não era assim. Fico apática. A apatia é minha saída.
Você, jovem, com família, cuide muito de seu mundo íntimo. Ele vale tudo o que nós temos. Hoje, eu só dependo das relações com outras pessoas. De certa forma, a gente sempre depende. Mas como está o mundo externo, não é fácil: cada um cuida de si e não liga nada para o outro. Por causa dessa ansiedade de vida, dessa forma pretensiosa de viver. Falta aquela simplicidade, você sabe, a minha mãe fazendo geleias para os que viessem bater à sua porta, no inverno. Falta, nas relações de hoje, vamos ver se consigo dizer o que sinto, desculpe se não sou clara no meu português, mas o que falta, parece-me, que é aquele respeito ao outro que é capaz de evitar qualquer sofrimento. Um pequeno exemplo: é dos nossos costumes que aos sábados ninguém fuma em casa. Um filho evita de fumar na sala; se ele fumar lá no seu quarto, fechado, é opção a que tem direito. Eu mesma não sou ortodoxa na minha religião. Mas são os princípios. Se esse filho fumar, por rebeldia, está provocando um sofrimento em sua mãe, em seu pai. Isso que chamo de respeito: não provocar, com um gesto, uma atitude, o sofrimento em outro ser humano, ao seu lado.
Agora, você vê, quem está preocupado com isso? As relações humanas são muito oportunistas. Esse mundo moderno que está aí é um mundo fechado entre quatro paredes, cada ser humano fechado entre quatro muros. As pessoas só avaliam as outras pela força, pelo poder que elas têm e no que podem ser exploradas. Diante disso, eu fico cada vez mais apática. Me recolho à intimidade e procuro aquela força para continuar. Ela está lá na infância, na minha cidadezinha primitiva e simples. Sem essa forma, como teria sobrevivido?
Lavas do Vulcão
Pedaços dessa terrível História, de que Bela Lukower foi protagonista, estão reunidos em um livro, editado em Nova York, e que permanece, bem à vista, na casa de todos os sobreviventes de Zwolen, cidade polonesa. “Réquiem a Zwolen” é uma chaga aberta que eles não querem esquecer. Na sala de d. Bela, um símbolo da Paz: este livro, abismos nunca superados na alma de quem neles foi afundado.
Todos, testemunhos dolorosos. Por mais que o depoimento pretenda o relato verídico das etapas da guerra, é impossível que as palavras saiam assépticas. Também a seleção que faço de uma pequena amostra é subjetiva. Como não se manchar de emoção?
Com uma criança nos braços
Quando deixei minha cidade natal, Zwolen, em 15 de julho de 1939, a guerra tinha estourado, minha família fugiu para Soletz no Vístula, onde tínhamos parentes. Meus irmãos — Yosl e Israel — faziam o possível para ajudar meus pais nesse terrível tempo.
A guerra me surpreendeu em Oppole. Fiquei lá dois anos, cercada de todos os inimagináveis tormentos e sofrendo todos juntos, nós os judeus, no gueto de Oppole. Minha situação piorou quando, em 1942, nasceu minha filha Rayzele. Como me escapar com um bebê que, em qualquer esconderijo, se denunciava pelo choro? E era preciso se esconder porque os criminosos não poupavam as criancinhas.
Nos mudamos para Soletz com meus pais. Ainda em 1942, fomos todos empurrados para dentro de um trem e transportados para o gueto de Tarlev. Muitos judeus foram mortos nesse dia, inclusive meu avô Chame Bachman, de 75 anos.
Ficamos sabendo que seríamos levados para Treblinka. Quando meu irmão Yosl tentou escapar, nesse momento, foi morto. Meu pai me disse: “Não podemos nos ajudar uns aos outros, mas você precisa se salvar, você e sua filha”. Fiquei confusa: como dizer adeus a meu pai, minha mãe, meus tios, tias, primos?
Meu marido arrumou um camponês para me acolher em um lugar perto da floresta. Ele só quis que minha irmã Hindele viesse junto, rejeitou trazer conosco meus pais. Mais tarde, meu marido conseguiu ir buscar outra irmã, minha cunhada Gute. A floresta era perto da vila Niedzwiala. Pagando bem aos camponeses, várias dúzias de judeus ali se refugiavam, trabalhando no campo. Nós nos juntamos a eles.
Alguns dias depois, os nazistas vieram e levaram todos os homens. Meu marido ainda conseguiu escapar. Eu me escondi no mato e aconteceu o milagre de que minha pequenina filha não chorou, ficou bem quietinha. Pouco depois, meu marido voltou.
Agora, o capítulo mais perigoso: a luta de vida ou morte de meu bebê. As noites de outono, na floresta, já eram muito frias. Não havia nem comida nem água. Meu marido saía, desesperado, do esconderijo, para buscar qualquer coisa.
Alguns camponeses vizinhos, descobrindo que havia judeus escondidos nas redondezas, atacaram-nos no meio da noite, achando que estávamos com ouro entre nossos pertences. Minha filha me encarou, os olhos cheios de terror. Ela, pobrezinha, estava praticamente sem roupa. Aparentemente os camponeses tiveram piedade de minha filha e então minha vida foi salva. Um dos camponeses me deu alguma alimentação para minha Rayzele. A pobre criança estava enregelada. Os bracinhos roxos de frio. Não podíamos continuar ali. Precisávamos arriscar, fugir para um lugar mais quente. Uma camponesa me deu uma batata.
Quando chegou a noite foi o mais terrível de tudo, e o que sempre tememos finalmente aconteceu: Rayzele não suportou mais o sofrimento; sua jovem vida se extinguiu, como uma chama que se apaga. Era como se o céu tivesse me soterrado. Sua cabecinha continuava fazendo pressão em meu ombro, eu a ninava, a ninava e corria e corria.
Não sabíamos o que fazer. Os sentidos se atrofiaram. Depositamos nossa preciosa vida na corrente de um rio, cobrimos com um pouco de areia. Na manhã seguinte, um camponês a encontrou e queimou a menina num lugar qualquer, não deixou sequer uma marca lá, um simples sinal. Minha Rayzele morreu no dia 16 de dezembro de 1942. Completava 22 meses de vida.
Nesse tempo rezei e ainda hoje imploro a Deus: “Perdoe-me pela morte de meu bebê”. Este pecado ainda mora na minha consciência.
Na vila, quando nossa jornada estava chegando ao fim, uma camponesa se ofereceu para batizar minha filha. Eu recusei. O temor de minha mãe e de meu pai vieram diante de meus olhos, eu não podia fazer uma coisa dessas a eles. Talvez eu estivesse errada ao sentir dessa maneira.
Deborah Hershman (Brooklyn-Estados Unidos)
Do livro “Réquiem a Zwolen”
New York Independent Zvoliner Benevolent Society, New York, 1982
Observatório do espanto
Após Treblinka, foi em Skarzysk que estiveram os restantes judeus de Zwolen. Um olhar do espanto ficou registrado no livro “Nas fábricas da morte”, de Mordecai Shtrigler. “Réquiem para Zwolen” reedita alguns fragmentos. Eis um deles:
Eram sempre entre quatro a sete mil pessoas no Werk A, a metade das quais mulheres. Com a exceção de uma parte das privilegiadas de meia-idade e das mais velhas (mães ou sogras de um comandante, de um polícia ou de um funcionário), eram todas jovens com média de idade entre 16 e 35 anos. Cada uma havia sido selecionada várias vezes, logo a maioria era saudável e de rara beleza. Eram objeto de muitos abusos sexuais por parte dos alemães e dos guardas poloneses, assim como por parte dos comandantes judeus. A degradação moral era inevitável neste inferno de caóticas condições. Eis apenas um exemplo.
Em janeiro de 1943, todos estes “Big Shots” da administração do campo fizeram uma celebração. Após uma noite de bebedeiras, Battenschleger e Eisenschmitz apareceram no campo. Era meia-noite e as mulheres que trabalhavam no noturno ainda estavam acordadas. Os dois entraram nas barracas femininas e fizeram com que todas se levantassem. Obrigaram-nas a fazer uma fila, seminuas — e examinaram uma por uma e finalmente escolheram as três mais bonitas: Milchman de Suchedniow, Zierberberg de Apt e uma terceira de nome desconhecido. Carregaram com elas, praticamente nuas, fizeram com que elas desfilassem pelo campo até seus quartos privados. Foram então totalmente desnudadas e violentadas várias vezes. Às quatro da madrugada, Battenschleger levou duas das mulheres para a cerca e matou-as. Ele chamou logo a seguir dois guardas, mandou que queimassem as mulheres e espalhassem grama por cima. Na noite seguinte, ele trouxe a terceira mulher e ele próprio também a matou (assim me contou meu amigo Baruch Goldberg). Este é apenas um dos casos entre dúzias de outros similares que aconteciam no Werk A e B, cujos incidentes se verificavam diante de confiáveis testemunhas. Mas eu quero contar o que eu vi com meus próprios olhos:
- Havia inúmeros casos em que os membros dos Werk Schütz, guardas e outros oficiais, selecionavam as mulheres judias, mantinham relações íntimas num curto ou longo período e depois as matavam ou mandavam para o Werk C. Quando me lembro disto ainda sinto a vergonha do horror.
Por exemplo, um guarda do Werk B escolheu a menina mais bonita da fábrica. Pôs a mulher no serviço de limpeza de seu escritório e a usou sexualmente em um longo período. Quando ela ficou grávida… esperou até uma seleção de um grande grupo de mulheres doentes, despidas, e descartou a jovem grávida no meio das condenadas. Ela se lançou a seus joelhos, lhe implorou piedade, beijou suas botas, implorou clemência para sua vida. Ela lhe lembrava, com a voz tênue, muito baixo, que só tinha 21 anos, que tinha pela fresca e muita saúde… Na sua loucura, lembrou-lhe, em voz quase sumida, que no dia anterior ele a acariciara – por que condená-la hoje? Ele deu gargalhadas e respondeu cinicamente “Há muitas outras judias aqui melhores que você”. Puxou o revólver e, ali mesmo, diante de todos, atirou, gritando aos berros “judia histérica”
Eu sei muitos casos assim. Nem todos terminavam em morte.
Do livro “Réquiem a Zwolen”
New York Independent Zvoliner Benevolent Society, New York, 1982
A cidade arrasada
Não se sabe da gênese dos judeus em Zwolen, Polônia.
Era uma vila até 1443, quando foi guindada a cidade. Em 1448, assinalam os registros históricos, Zwolen promove sua primeira feira anual. E é de 1554 a mais antiga referência aos judeus. Apenas dois: Isaac e Israel. Já dez anos depois havia várias casas de comércio: onze açougueiros, sete artesãos de rodas de carreta, dois comerciantes de lojas de alimentos, um guarda da Casa de Banhos da cidade. Mas em 1579, as autoridades exigiram a separação dos negócios dos judeus em Zwolen.
O rei Stefan Batory fez uma concessão em 1579 — deu autorização oficial para que os judeus morassem na cidade. Para regular esta magnanimidade, o rei Zygmunt III, em 1591, promulgou um edital onde se estabelecia que eles não teriam direito a mais de dez casas. Dois anos depois, os habitantes não mais dependiam dos judeus, passaram a ser autossuficientes no comércio de alimentos. Os comerciantes poloneses criaram todos os obstáculos possíveis aos comerciantes judeus que atuavam nos mesmos ramos de negócios e uma associação de trabalhadores cristãos assumiu posições frontais contra eles.
As estatísticas de 1550 indicam a expansão de Zwolen, mas foram necessárias mais algumas décadas para que os judeus chegassem a uma situação competitiva. É no século XVI, no entanto, que se dá seu definitivo enraizamento em Zwolen. Há informações esparsas sobre a vida espiritual e a organização da comunidade. Nenhuma referência a sinagoga nem a um sequer rabino, o que dá a medida das dificuldades por que passavam os judeus para professarem seu credo.
A grande expansão econômica de Zwolen ocorre nos séculos XVII e XVIII. Em 1616, os judeus transportavam grãos e fios de lã para várias cidades polonesas e possuíam doze carroças. Os dados de 1789 dão um panorama mais preciso: quatro tecelões, 25 sapateiros, dois carpinteiros, cinco artesãos do linho, quatro de rodas de carretas, um ferreiro. Os judeus começam a se envolver também com destilarias, mas o rei Poniatowski, em 1767, ordena que abandonem esta atividade. Havia, em 1765, oito lojas na cidade e dois judeus lideravam ramos de transportes. Todo o ímpeto, no entanto, é reprimido em vários setores e sua expansão não acompanha o ritmo de crescimento de Zwolen. Embora as estatísticas oficiais acusem, em 1662, 543 poloneses versus 102 judeus, e, em 1673, 319 contra 75, todos pagantes de taxas, os números reais indicam, nas mesmas datas, 408 e 300 judeus.
Politicamente Zwolen fez parte da Áustria, após a terceira divisão do território em 1795. A partir de 1815 se incorpora à Polônia Central. A primeira referência a uma sinagoga data de 1820, mas certamente a comunidade judaica já contava com rabinos duzentos anos antes. Após 1815, há registros claros da significativa percentagem de judeus na população da cidade:
| 1827 | 629 | Judeus | 33% | da população |
| 1856 | 1.350 | Judeus | 49% | da população |
| 1897 | 3.242 | Judeus | 55% | da população |
| 1921 | 3.789 | judeus | 51% | da população |
Em 1908 a tragédia de um incêndio praticamente destruiu Zwolen. Nos anos 30, porém, cinco mil judeus habitavam a cidade reconstruída, eram então metade da população. O contingente de judeus forçado a vir para Zwolen pelos nazistas fez com que somassem onze mil em 1942. Todos juntos foram deportados para os campos de concentração no final de outubro desse mesmo ano. Aí incluída Bela Lukower.
(Dados compilados do livro “Réquiem a Zwolen”, título original em inglês: Yzkor Book – Zwolen. New York Independent Zvoliner Benevolent Society, New York, 1982.)
P/S Em 2007, muito tardiamente, decidi visitar dona Bela. Afinal, era minha vizinha – morava a uma quadra de distância de minha casa. O porteiro nem conhecia a moradora; o zelador, novo na função, também não. Por coincidência, outra moradora, já idosa, saía do prédio, viu minha aflição e interferiu: “Olhe, dona Bela já faleceu.” Nada mais me informou. Estava com pressa.
