
Não, ilustre colega. Não está tudo bem. Ao contrário. Em verdade lhe digo: estou metido em dardanelos. Da cabeça aos pés. Até a raiz dos cabelos.
Grave assim?
Pior impossível. Sim senhor. É como me sinto. Metido em dardanelos. Sabe o que são dardanelos, pois não?
Geograficamente falando, sim. O Estreito de Dardanelos é a porta de entrada do Império Otomano para quem vem da Europa.
Ou de saída, se o viajante vem do Oriente.
Perfeitamente. Quem vem de Leste, entra pelo Bósforo e sai pelos Dardanelos. Se for o contrário, é o contrário.
A propósito, um dia desses ouvi um capadócio metido a linguista sustentar que Bósforo, em turco arcaico, é uma apócope de bosta com fósforo. Imagine só.
Disparates de gramático ranheta, meu caro. Esses tipos estão em voga ultimamente.
Melhor seria se estivessem em extinção. A propósito, seu café está bom de açúcar?
Na medida exata. “Quantum satis”, como diria um latinista.
Outra espécie que definha, mas não se extingue. Mas voltando ao assunto.
Ora bem. Vamos ao que serve. Entende quando lhe digo que ando metido em Dardanelos, pois não?
Entender, entendo, mas confesso que desconheço a expressão.
Folgo em saber, colega. Julgo que acabo de criá-la, mas nunca se sabe. Tenho dúvidas sobre a autoria. Será mesmo de minha lavra? Não quero que me acusem de plagiá-la. Temo ser acusado de engenheiro de obras feitas.
Fique tranquilo quanto a isso. Asseguro-lhe que “meter-se em dardanelos” é um achado poético totalmente seu. Uma verdadeira pérola metafórica. “Data vênia”, se me permite, vou passar a usá-la nos meus despachos. Citando a fonte, naturalmente.
Para mim será uma honra, nobre colega.
Modéstia sua, meu caro. A propósito, aceita mais um café?
