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Um mapa não é o território

Um mapa não é o território

Por Cremilda Medina

Foi um engenheiro e matemático polonês, Alfred Korzybski, que, em 1931, emitiu esta frase decisiva para o entendimento da produção simbólica humana. O mapa não é o território, ou melhor, “um mapa não é o território que representa, mas, se estiver correto, tem uma estrutura semelhante à do território, o que justifica sua utilização”, disse ele em um encontro da American Mathematical Society muito antes de, na narratologia, se conceber que uma narrativa da contemporaneidade não é o retrato da realidade, mas o que a autoria diz dela. Numa outra concepção, como registra  bem depois do filósofo polonês, o historiador e sociólogo brasileiro Boris Kossoy, a fotografia não é o retrato fiel da realidade, mas a criação de uma segunda realidade.

Uma das pinceladas simbólicas dessa segunda realidade – a narrativa – são os traços histórico-culturais que se acrescem ao estrito factual do real contemporâneo, seja ele dos aconteceres imediatos ou seja ele impregnado em uma memória, já que a contemporaneidade inclui um tempo mais alargado do que a instantaneidade. Nossa produção cultural  – situada em tempos de memórias ou de experiências atuais, na moldura da contemporaneidade – vem à tona em um mapa carregado de símbolos históricos coletivos,  de biografias culturais.

Recentemente a imprensa publicou a imagem de um novo mapa-múndi com o Brasil na posição central. (Não por acaso, já que a geopolítica atual está em  profunda alteração.)  Mas se quisermos escrever objetivamente, na redondeza em  movimento, o planeta Terra, qual seria a posição do mapa certo, objetivo, verdadeiro? Físicos como Fritjof Capra já tinham virado o mapa de cabeça pra baixo.  Os geógrafos brasileiros do IBGE, assim como o engenheiro, matemático e filósofo proferiu em 1931, concebem, hoje, que “o mapa é uma interpretação do território”. E alguém duvida que o Brasil no centro do novo mapa-múndi é uma interpretação cultural da geopolítica do Sul Global, o desenho simbólico autoral de  um território historicamente assim situado no Planeta Terra? 

No início dos anos 1970, ao me mudar para São Paulo para cursar o primeiro curso de pós-graduação em Ciências da Comunicação na Universidade de São Paulo, acabei por cancelar meu contrato com a Universidade Federal do Rio Grande do Sul, onde, a partir de 1967, era professora assistente (nomenclatura da época, antes da Reforma Universitária) no curso de Jornalismo da URGS e fui contratada como auxiliar de ensino na USP, em 1971. Mas já trazia de Porto Alegre a inquietude da pesquisa e o projeto para desenvolver no pioneiro mestrado da América Latina. Ao encontrar na chefia do departamento um docente que estimulava a criatividade nos currículos de Ciências da Comunicação, o Professor José Marques de Melo (1943- 2018), fui convidada a implantar na USP a disciplina Jornalismo Interpretativo. Já trabalhava em 1971-72 numa disciplina que seria nomeada Jornalismo Informativo, cujo projeto/laboratório, também pioneiro na América Latina, era a Agência Universitária de Notícias. Na perspectiva de ensino-aprendizado, cuja inspiração vinha do curso de licenciatura em Letras, concluído em conjunto com o de Jornalismo na Universidade Federal do Rio Grande do Sul em 1964, era natural enfatizar o boletim semanal de notícias universitárias, distribuídas à imprensa nacional às sextas-feiras, como laboratório de pesquisa e aprendizado dos alunos de Jornalismo. A experiência na USP tinha por alicerces de ordem pragmática a profissionalização na área que desenvolvera no Rio Grande do Sul, na década 1960.

No entanto, já vinha do Sul com o propósito e um plano escrito de pesquisa para aprofundar a notícia numa narrativa mais densa e tensa. O desafio de José  Marques veio a propósito. O que seria interpretar o acontecimento? Com a colaboração de Paulo Roberto Leandro (1947-2015) colega que passou a trabalhar comigo na nova disciplina Jornalismo Interpretativo, posterior no currículo à que já oferecíamos, Jornalismo Informativo, em que havia sido implantado o laboratório pioneiro, Agência Universitária de Notícias, passamos então a estudar o conceito de interpretação. No nosso caso, com a proposta de ampliar a profundidade da notícia na reportagem de autoria, o que eu viria a nomear na década posterior de Narrativas da Contemporaneidade. Nos primeiros anos da década de 1970, o laboratório pedagógico que Paulo Roberto Leandro e eu criamos foi o jornal comunitário, em que os alunos praticavam na reportagem o aprofundamento interpretativo. Para isso, após pesquisa bibliográfica em que selecionamos da teoria da interpretação, criamos um cruzamento de Marx, Nietzche e Freud para a nossa formulação de quatro eixos na representação simbólica do acontecimento contemporâneo, o que veio a nortear a disciplina Jornalismo Interpretativo na ECA/USP e veio a público no livro (o primeiro que assinei, a quatro mãos com Paulo Roberto) A arte de tecer o presente (editado na gráfica da ECA em 1973). Informados pela bibliografia especializada e com o radar voltado para a observação da imprensa nacional e estrangeira, propusemos quatro alicerces simbólicos do mapa da reportagem sobre o território real dos acontecimentos contemporâneos cobertos pelo Jornalismo. (Em circunstâncias complexas no que tange a situação de ditadura no Brasil e em outros países vizinhos da América Latina). No entanto, na virada dos anos 1960 para 1970, observava-se nos Estados Unidos uma reflexão que enfatizava a reportagem de autoria e não foi por acaso que examinamos, no Departamento de Jornalismo e Editoração (CJE), o ensaio da revista Esquire, com o pioneiro texto de Tom Wolfe cujo conteúdo apontava na direção do que viria a constituir a onda de Jornalismo Literário. Curioso também que nossos alunos dos anos 1970, ao traduzirem e estudarem a reflexão de Tom Wolfe, concordaram conosco que a interpretação mais aprofundada do Real não se dava pela forma literária e sim pela captação de traços mais profundos dos aconteceres contemporâneos e deles emergiria uma narrativa criativa, autoral.

Então vamos a esses aprofundamentos do contato do jornalista, do comunicador social, do mediador-autor em ação na comunidade. Elegemos como o primeiro da abordagem do repórter, esse mediador-autor, o encontro com histórias de vida de protagonistas sociais, de preferência anônimos, que fazem acontecer o factual visível contemporâneo; em segundo plano, essas histórias (ou perfis humanos) acontecem em um contexto coletivo, revelador de circunstâncias que não são apenas individuais; a terceira aproximação  desafia o repórter a pesquisar as raízes histórico-culturais do acontecimento, nunca escancaradas, mas sempre presentes nos símbolos implícitos dos hábitos, crenças e principalmente da criação linguística na oralidade dos falantes ou oratura (como aprendi a formular nas minhas viagens na África, nos anos 1980); por último, acrescentávamos nesse início dos anos 1970, que o repórter procura o auxílio de coautores de sua narrativa, fontes especializadas para um possível (e incerto, digo hoje, a partir dos diálogos epistemológicos com os cientistas no Projeto Plural), mas volto a dizer, um possível diagnóstico-prognóstico do real em pauta na cobertura jornalística. Na conjugação dessas quatro estratégias de mediações dialógicas, para usar outra vez a metáfora geográfica, o mapa-reportagem do território-real seria profundo e autoral. 

Em um fôlego seguinte, unindo a formação em Letras nos primeiros anos de 1960 na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre, e a aproximação à bibliografia de Narratologia, já em São Paulo, a partir de dezembro de 1970, fui recuperando outra vertente fundamental das Narrativas da Contemporaneidade: Autor faz parte do território real, enquanto o(s) Narrador (es) que por ele são mobilizados estão presentes no mapa simbólico que a Narrativa constrói. Essa percepção que surge nos estudos literários é muito oportuna para desmontar o Autor Miraculoso (objetivo) do Jornalismo ou da Comunicação Social (ou do romance realista), que se afirma como um rigoroso mapa que reproduz (e não, representa) o território. A partir dessa mudança de crença, a ilusão objetivista,  para uma pesquisa do Narrador-Mediador Social Autoral, as Narrativas da Contemporaneidade ganham na Pluralogia de vozes: tanto o autor se descentraliza em narradores quanto os protagonistas sociais são representados na criatividade da Oratura. E não me digam que as mídias tradicionais não autorizam essa mudança de paradigma, porque eu própria experimentei a pluralidade de narradores no jornal O Estado de S. Paulo, nas reportagens que escrevi durante dez anos de exercício profissional, de 1975 a 1985 (período em que deixei a USP por motivos políticos).

Essa experiência de democratização do Autor-Mandante, mesmo que travestido de “terceira pessoa, neutra e objetiva”, resultou na seara de assinaturas coletivas, narradores de polifonias sociais, em todas os laboratórios de graduação (como, por exemplo, a série São Paulo de Perfil, 27 exemplares escritos por alunos de Jornalismo da USP, da década de 1980 até a primeira década do presente século); também na estilística de dissertações de mestrado, teses de doutorado e pesquisas de pós-doutorado; e na atual constante de oficinas com alunos do grupo 60+ , em que suas produções de variados temas, agora enfeixados pelo selo de Memórias Lúdicas, estão registradas em dez livros. 

Para não me alongar mais, toda essa trajetória coletiva que tenho motivado e me motivado está presente nos  64 títulos que organizei. Mais do que as reflexões que fui alinhavando em meus vinte livros, é principalmente nas coletâneas que as autorias  melhor exemplificam quão gratificante  se torna multiplicar as vozes de narradores e narrados na mediação social. Uma circularidade narrativa que retorna à criação do mapa simbólico da Autoria.

Os cinco sentidos em ação

A Autoria, para além  desta circularidade de vozes se alimenta acima de tudo da Observação-Experiência no Ato Presencial (2016). Ao Reportar os aconteceres, seus protagonistas sociais em um contexto coletivo, com raízes culturais, o radar de Mediador-Autor na observação da experiência mobiliza os cinco sentidos, não apenas a clássica entrevista.  E é nesta circunstância que se despoja das técnicas mecanicistas para dar vez à Intuição Criativa. A ação dos cinco sentidos pode assim ser transformada:

  1. Enxergar – ver
  2. Ouvir – escutar
  3. Mastigar – saborear
  4. Encostar – tocar
  5. Cheirar – aspirar

Na ação da escuta, já se consagrou a entrevista como diálogo possível (1986, tese de doutorado defendida na ECA/USP, sob o título Modo de ser, mo’dizer). Mas é no contexto da observação-experiência dos cinco sentidos em ação que, para além do EU-Tu, o EU-NÓS, a pluralogia social, que Entrevistador e Entrevistado(s) agem na escuta mútua e se transformam. A relação sujeito-sujeito(s) se move na produção simbólica perante o fato externo e a narrativa da contemporaneidade sob a Autoria Mediadora ainda acrescenta subsídios de raízes histórico-culturais com o auxílio da História, da Antropologia, da Sociologia, da Epistemologia, bem como diagnósticos e prognósticos do acontecimento em processo de especialistas de várias  áreas de conhecimento.

Estratégias já apontadas na Arte de tecer o presente (1973). 

Há, no entanto, transformações nos demais sentidos que compõem a impregnação da experiência: o Ato Presencial ganha em símbolos da visão de mundo aberta, não aprisionada em formas ideológicas de enxergar. Fundamental se torna a mutação de se encostar nas beiradas do acontecer para um tocar de sensibilidade cúmplice na cena em observação. Muito das raízes culturais de determinado contexto e histórias de vida se revelam no aspirar profundo no lugar de cheirar desinteressado. 

Para culminar, quem disse que a cultura dos paladares ficaria à parte, apenas no estudo da gastronomia. Em uma oficina online que coordenei no primeiro semestre de 2025, com um grupo 60+ no Portal de Envelhecimento, escrevemos textos da Memória Lúdica dos Paladares que revelaram traços culturais da identidade, cultivados na cozinha da infância, da família e do Outro em viagens, do conhecimento construído nas miscigenações históricas ou da pesquisa gastronômica. Eis um legítimo acerbo que comprova a força dos paladares quando se quer reportar certa experiência humana. 

Pergunta que se impõe: terá a IA essa possibilidade de observar a experiência dos humanos com os cinco sentidos em ação? Ou apenas registra dados, aconteceres e símbolos da estática do viver?

São Paulo, 18 de junho de 2025.

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*Cremilda de Araújo Medina, jornalista, pesquisadora e professora titular sênior da Universidade de São Paulo, é autora de vinte livros e organizou 64 coletâneas em várias áreas como jornalismo e comunicação social, literatura e transdisciplinaridade. Um dos projetos em que coordena  seminários e reflexões dos campos científicos, expressões artísticas e saberes comuns ou do cotidiano, o Projeto Plural, com doze livros publicados desde 1900, quando organizou o Primeiro Seminário Transdisciplinar na USP, está agora em edição, na 13ª  coletânea, tendo como principal interrogante – conquistas e limitações ou os desafios da IA na qualidade de vida e nos conhecimentos contemporâneos. O livro de sua autoria mais recente foi publicado em 2022, Memórias Lúdicas em tempo de pandemia (São Paulo, Portal Edições).

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