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Um autor em busca de personagens

Um autor em busca de personagens

Por Sinval Medina

Ao contrário das demais nações das Américas, o Brasil alcançou as fronteiras que hoje demarcam seu território antes do fim da Era Colonial. Os Estados Unidos, por exemplo, só se transformaram em um país de dimensões continentais na primeira metade do século XIX, enquanto nossos limites geográficos, a partir da separação das monarquias ibéricas, em 1640, chegaram ao pé da Cordilheira dos Andes, dando ao nosso território quase que a conformação atual. Um ponto do atual mapa brasileiro, porém, permaneceu em disputa entre as coroas de Portugal e Espanha por mais de cem anos: a vasta área que se estendia da vila de Laguna ao estuário do Rio da Prata.  Nesse período, o espaço hoje ocupado por Rio Grande do Sul e Uruguai transformou-se em uma Terra de Ninguém, marcada por constantes conflitos, até a demarcação definitiva, no início do século XIX.  

Nesse contexto, destacam-se duas figuras que tiveram papel decisivo na consolidação da presença luso-brasileira na nossa fronteira meridional. São eles Cristóvão Pereira de Abreu, o desbravador que abriu o caminho dos tropeiros, ligando o Rio Grande do Sul a São Paulo, e José Marcelino de Figueiredo, o governador que reconquistou em 1776, após treze anos de ocupação, as vastas áreas tomadas pelos castelhanos. Some-se a isso o papel decisivo que ele teve na fundação de Porto Alegre e a transformação da cidade à beira do Guaíba em capital da Capitania. 

O primeiro é o personagem principal do meu romance O Cavaleiro da Terra de Ninguém; o segundo protagoniza O Governador do Fim do Mundo. Cristóvão nasceu na vila de Ponte de Lima, região do Minho, Portugal, em 1678, e morreu em Rio Grande em 1755. Marcelino, também português, nasceu em Bragança, Trás-os-Montes, em 1735, e faleceu em Lisboa em 1814. Apesar de contemporâneos, não chegaram a se conhecer pessoalmente. Quando Marcelino chega ao Rio Grande do Sul, em 1765, Cristóvão é já uma figura lendária para os povoadores da nascente Capitania do Rio Grande de São Pedro.

A ideia de contar a história desses dois gigantes não me ocorreu ao mesmo tempo. Tudo começou com Cristóvão, de quem eu ouvia falar desde os tempos de estudante. Mas só me interessei por ele quando, em conversa com o meu amigo Salvato Trigo, reitor da Universidade Fernando Pessoa, do Porto, Portugal, mencionou o “Rei dos Tropeiros” como possível tema de romance. Salvato, profundo conhecedor da literatura lusófona, que escrevera uma elogiosa crítica sobre o meu Tratado da Altura das Estrelas, sabia que eu me interessava por personagens que haviam sido protagonistas tanto no Brasil como em Portugal. E, natural de Ponte de Lima, me estimulou a escrever sobre seu conterrâneo que, no século XVIII, ligou o Continente de São Pedro ao corpo geográfico do Brasil. Começou então a busca por informações sobre o meu personagem nos registros históricos. Encontrei menções preciosas a ele em Moysés Vellinho e, sobretudo, em duas obras de Guilhermino Cesar (História do Rio Grande do Sul: período colonial e Primeiros cronistas do Rio Grande do Sul). 

Faltavam, contudo, dados sobre a vida de Cristóvão antes de sua atuação no Continente de São Pedro. E esses dados, só fui descobrir em Portugal. No arquivo público de Viana do Castelo, localizei seu registro de nascimento. Na Torre do Tombo, o processo de nomeação como Cavaleiro da Ordem de Cristo. Pude assim reconstituir sua trajetória desde que chegou ao Brasil, passando pelo Rio de Janeiro e Colônia do Sacramento, até se tornar o Rei dos Tropeiros. Com base na documentação inédita que reuni, e que hoje faz parte do meu acervo no Delfos (PUCRS), soltei a imaginação para construir a imagem ficcional d’O Cavaleiro da Terra de Ninguém. O romance foi publicado no Brasil (Editora Prumo, 2012) e em Portugal (Editora Narrativa, 2018). 

A descoberta do meu terceiro “personagem dobradiça”, ou seja, figura relevante nas relações entre Brasil e Portugal no período colonial também tem sua história. De passagem, lembro que o primeiro foi João Carvalho, marinheiro lusitano que protagoniza o Tratado da Altura das Estrelas. O segundo é Cristóvão Pereira de Abreu, acima referido. O mais recente é José Marcelino de Carvalho, cujas aventuras relato em O Governador do Fim do Mundo. Não vou descrever meu primeiro encontro com ele para não revelar o enredo do livro. Digo apenas que ao conhecer sua vida, me dei conta de estar diante de uma trama romanesca perfeita. Bastava aprofundá-la. 

Lancei-me na busca do meu personagem nos documentos que registravam sua passagem pelo mundo. Achei registros sobre ele nos arquivos do Museu Militar de Lisboa, na biblioteca pública de Bragança, Portugal, no Arquivo Histórico Moysés Vellinho, de Porto Alegre, e nos autores que tratam da história gaúcha. Com base nas informações disponíveis, construí uma narrativa que não pretende mostrar como as coisas de fato foram, mas sugere como poderiam ter sido. 

O resultado está em O Cavaleiro da Terra de Ninguém – Vida e tempos de Cristóvão Pereira de Abreu e em O Governador do Fim do Mundo – Vidas e aventuras do homem que fundou Porto Alegre, dois livros que se entrelaçam sem, necessariamente, constituírem dois tomos de uma mesma obra.

 Ao entremear registros históricos com as névoas do imaginário, convido o leitor a um mergulho no inesgotável universo mítico que torna única a identidade cultural da antiga Terra de Ninguém, hoje Terra Gaúcha.   

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