
Agora que o cinema brasileiro está em cartaz na concorrência a prêmios nacionais e internacionais, quero trazer a estas memórias o dia 5 de setembro de 2025, quando prestei uma homenagem a Sílvio Tendler que nos deixou aos 75 anos. A ele dedico uma memória lúdica e afetiva em que também recupero o valor da pedagogia dos documentários nas Narrativas da Contemporaneidade. Que nosso inesquecível cineasta perdoe o tom das cenas que a seguir narro com sua sempre bem humorada parceria, um recorte simbólico de cotidianos.
Jango e fragmento de memória caseira
Sempre sinto necessidade de acentuar como os documentários cinematográficos me inspiram e inspiram meus alunos, principalmente na volta à Universidade de São Paulo em 1986 (ficara dez anos fora da instituição acadêmica por motivos políticos da ditadura militar de 1964). Nessa época em que atuei como jornalista no Estado de S. Paulo (1975-1985), estive diretamente ligada aos criadores, dirigindo uma Editoria de Artes. Por isso mesmo, conhecia Sílvio Tendler e seu filme de grande êxito de bilheteria, Jango, de 1984. Quem já convivia com este cineasta e historiador, presente como professor da PUC do Rio de Janeiro, certamente se encantou com o documentário que reconstitui a trajetória do 24º presidente do Brasil, João Goulart, deposto a 1º de abril de 1964. Ao revê-lo hoje, 40 anos depois, ainda impressiona uma textura narrativa que vai da biografia, ao contexto sociocultural coletivo, às raízes históricas e à coleta de depoimentos de várias visões políticas. Uma obra que, por sua autoria, não ficaria datada.
Desnecessário, pois, retomar a sinopse do filme, porque é um clássico que contribui para endossar certos cognomes de Sílvio Tendler como cineasta dos vencidos ou dos sonhos interrompidos. Por conta de assinaturas ímpares, nos anos 1980, convidava os meus alunos de Jornalismo na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo para ir assistir a filmes de ficção ou documentários no estúdio de audiovisuais e como poderia esquecer de trazer à cena Jango? Não só pela leitura cultural que Sílvio Tendler fez dos anos de resistência à ditadura, mas também pelo conteúdo simbólico das entrevistas com Afonso Arinos, Leonel Brizola, Celso Furtado, Frei Beto, Magalhães Pinto. O filme documenta a arte de tecer o presente, essência de meu projeto de pesquisa em qualquer suporte e código de expressão.
Mas não é do filme que desejo falar e sim, da memória afetiva da humildade de um autor. Fico sabendo que Sílvio vem a São Paulo para uma exibição de Jango no Cine Belas Artes, seguida de um debate com público interessado. Estou de volta à ECA e iniciando meus alunos a curtir cinema como inspiração, assim como as demais artes, capitaneadas pela literatura. Chamo essa inspiração O gesto da arte. Então entro em contato com Sílvio Tendler no Rio e pergunto se ele aceita um convite para conversar com minhas turmas na ECA/USP no dia da projeção de seu filme em São Paulo. Prontamente aceita o convite, mas expõe um pequeno problema: só lhe ofereceram passagem de avião na ponte aérea no mesmo dia, para vir a São Paulo e voltar ao Rio à noite. Penso rapidamente, quem sabe consigo na universidade ou na distribuidora uma diária de hotel. Fico de ver. Não consigo nada, ninguém tem verba pra isso. Volto a ligar ao cineasta, com mil desculpas, papo vai, papo vem e surge uma possível solução, Sílvio, você topa dormir lá em casa? Ele logo aceita e agradece a solução. Eu que tenho que agradecer, por mim e por meus alunos.
Não deu outra: quem diria que um carioca agora já famoso, acolheria uma solução mambembe na rica São Paulo. O problema é a concretização da hospedagem. Chego a casa e vou logo dizendo ao Daniel, o filho, um jovem de 17, 18 anos (falta-me agora a precisão do ano), você vai emprestar seu quarto para um pernoite aqui em casa de Sílvio Tendler, tá ouvindo? Sim, mas que ideia é essa? Explico tintim por tintim e o Daniel até se sente orgulhoso de ceder seu quarto para tão importante visita. Aí vem minha preocupação com o referido alojamento: menino, esse quarto é um verdadeiro zoológico no apartamento. É a gaiola dos dois pássaros, Tancredo e Risoleta, que não calam a boca; é o inquieto hamster; é a Camila, uma poodle mal-educada pelo Dan que não sai da beira da cama do guri; é a tartaruga que também pertence à turma; mais o aquário e os peixinhos. Convoco o jovem domador da bicharada que tem de evacuar o recinto e levar para a área do apartamento. E, por favor, um bom-ar para deixar um cheiro razoável no quarto.
Felizmente tudo acontece no bom rumo – os alunos adoram conversar com Sílvio Tendler, a sessão no Belas Artes é um sucesso e a noite, ao que tudo indica, bem dormida no zoológico do Daniel Araújo Medina. No outro dia nos abraçamos, o cineasta se despede e pega a ponte aérea para o Rio.
P/S Você, querido Sílvio Tendler (1950-2025), muito além dessa singela memória afetiva, nos deixa uma obra documental não só de figuras históricas como Jango, JK ou Carlos Marighella, mas de tantos outros murais da cena brasileira que você levou às telas ou documentou em palavras.
