
Quando, no início da década de 1980, me propus ir ao encontro das literaturas de língua portuguesa, me movia, enquanto jornalista, o desejo de compreender o contexto sócio-cultural daqueles que enfrentavam desafios históricos: portugueses e brasileiros na reconstrução democrática, africanos na conquista das independências nacionais. Foi fértil a colheita. O depoimento de mais de 150 escritores, suas obras e o contato direto com a rua e as vozes cotidianas confirmam aquilo que intuitivamente se configurava na consciência de repórter itinerante: povo e personagem estão em fina sintonia.
No final dessa jornada, após publicar Viagem à literatura portuguesa contemporânea (1983), Escritor brasileiro hoje, a posse da terra (1985) e Sonha Mamana África (1987), senti a necessidade de uma reflexão abrangente que foi desaguar na tese de livre-docência Povo e Personagem, defendida na USP em 1989 e publicada em livro em 1996. Esboça-se então o laboratório que há muito subsidiava o aperfeiçoamento jornalístico tanto na prática de mercado quanto na teoria e prática acadêmicas. Em 1990 fixo o tema em uma comunicação apresentada na antiga Iugoslávia, um ano antes da guerra e dos posteriores desmembramentos do país. Em um congresso internacional em que o assunto predominante girava em torno das “novas tecnologias”, o texto que apresentei saía da agenda: defendia a persona do jornalista como leitor cultural. Entenda-se jornalista como o repórter que transita pelo mundo, agente da dialogia social. Nas andanças, se comporta não como um técnico em busca de respostas pautadas, mas antes como um observador/curioso, disposto a se encontrar em diálogo com a aventura humana. Ambiente composto de gestos, sons, cheiros, paladares – outras codificações não linguísticas atravessam a observação-experiência. Menos questionador e mais atento à escuta do Outro, capta falas e silêncios. Então se torna autor da alma encantadora das ruas como o fez o repórter ancestral João do Rio (1997).
Nas narrativas da contemporaneidade, quatro flancos de mapeamento se conjugam para tecer o presente: cotidiano dos protagonistas anônimos além das fontes oficiais de informação ou o exclusivo protagonismo dos olimpianos da hora; o contexto do factual imediato que levanta tendências sócio-comportamentais ao lado da vocação jornalística investigativa dos poderes constituídos e suas implicações político-econômicas; a compreensão mais sutil dos sujeitos na ação social descobre símbolos do imaginário coletivo que falam da história e da cultura; especialistas, investidos pelo saber científico, diagnosticam conceitualmente o presente e produzem possíveis prognósticos do futuro. Enfim, a pauta da narrativa da contemporaneidade instiga o jornalista a uma leitura complexa e não apenas a uma redução técnica que já se intitulou de pirâmide invertida. Para ser fiel à antologia de jornalistas-autores, eles nunca se submeteram a essa fôrma, pois tão logo se narra o acontecer contemporâneo, qualquer que seja o recorte temático, se exige da inteligência plena do agente cultural a produção de significados múltiplos e não hierárquicos. Pensando bem, o que poderia ser enquadrado numa grade valorativa decrescente? O contexto social do acontecimento, os protagonistas, as raízes histórico-culturais, os diagnósticos/prognósticos dos especialistas? Da primeira à última linha do texto (lato senso) haverá significados de importância não hierárquica, bem como sempre haverá, sim, a incompletude do esforço de fidelidade à realidade em processo.
Sociedade, cultura e mito
Como leitor cultural, o jornalista muito tem a ganhar no convívio com a intuição criativa do artista, outro leitor sutil de sociedade, cultura e mito. Voltando aos anos 1980. Da longa viagem a Portugal, a regiões brasileiras e aos Cinco da África – Moçambique, Angola, São Tomé e Príncipe, Guiné-Bissau e Cabo Verde -, o aprendizado fertilizou essa dimensão. Em Portugal, desmontaram-se preconceitos de uma visão estrábica do tônus do povo, interpretado ideologicamente como gente nostálgica do passado, respirando uma saudade fadista, cujos suspiros não encontrei nem na rua nem na literatura contemporâneas. Ao contrário, na reconstrução democrática, o gesto português se voltava para o mundo exterior e para o futuro. Já na África, despojada de um passado histórico por todas as explorações sofridas no plano material e humano, senti uma necessidade intensa de reconstituição das raízes, tanto na poética da literatura quanto nos falares cotidianos da oratura. E o Brasil? Bem o Brasil se narra nessa grande saga da circularidade no horizonte interno com motivações presentificadas. Essa uma possível leitura das variantes do mito do eterno retorno que submeti a uma emérita banca na livre-docência em 1989.
A partir de então, mito, sociedade e cultura comparecem à oficina universitária para partilhar com jovens da graduação e pesquisadores da pós um projeto pedagógico paralelo às neopatias tecnológicas. Diga-se de passagem, porém, que já no fim do século passado voltaram à pauta acadêmica o interesse por cultura, identidades, autoria criativa. Mesmo nas áreas duras das humanas, o cruzamento, por exemplo, de fatores econômicos com fatores culturais se afirmou. Não esquecendo que a razão científica, na física ou na biologia, se abre ocasionalmente para o reconhecimento da intuição artística. Vem das neurociências a aposta na plenitude inteligente: a síntese intuitiva e a racionalidade analítica se encontram na ação transformadora. Diria, por experiência e paixão, que o Gesto da Arte lubrifica a intuição que, por sua vez, instiga a racionalidade complexa para a inovação. Daí os ganhos a aferir no contato com leitura cultural dos artistas. Além, é claro, da fruição que proporcionam nos cenários da imaginação emancipadora.
Digo experiência, porque fiz desse Gesto um braço pedagógico precioso. E devo a paixão pela arte a raízes na trajetória de vida, com destaque para a formação universitária em Letras e Jornalismo na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) nos primeiros anos da década de 1960. Se já trazia de infância e adolescência (2012) o gosto da leitura de clássicos, se no segundo grau se acentuou essa herança, mesmo porque naquela época para se entrar na universidade havia exame escrito e oral em que, na prova de português, se aferia a leitura dos canônicos portugueses e brasileiros, foi na etapa posterior que os contemporâneos assumiram o primeiro plano. João Cabral, Manuel Bandeira, Graciliano Ramos e seu filho, Ricardo Ramos, Lygia Fagundes Telles, tantos outros vieram à tona em um cenário sócio-cultural em que casavam muito bem com os anseios da geração 60. Os universitários de então viam neles o espelho de um Brasil desejado, de outra história a ser conquistada. Não eram leituras fora do lugar, pelo contrário, Morte e vida Severina inspirava gaúchos a se engajarem na transformação das misérias dos irmãos nordestinos, numa sintonia de identidades.
Houve muitas oportunidades para me fixar na forma literária e nas teorias estéticas do curso de Letras, mas a práxis da reportagem, no curso de Jornalismo, chamava para o aprendizado cultural, ao tomar contato com a literatura contemporânea. Por isso, quando veio a ditadura militar (o diploma de Jornalismo é de 31 de março de 1964, noite da formatura na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, UFRGS), não me exilei no formalismo, mas resisti no âmbito da leitura cultural ao longo dos 1960 e dos 1970. Uma cultura que não se fechava no espaço regional ou nacional, pois havia motivações profundas para avançar no horizonte internacional, com especial curiosidade pela América Hispânica. No âmbito das artes, o alimento cultural não provém apenas da literatura, porque o cinema, o teatro, as artes plásticas ou a música oferecem igual fruição. Mas a literatura hispano-americana que o pólo editorial de Barcelona irradiou para o mundo, chegava com muita força à Porto Alegre dos anos 60/70, quando já trabalhava na Editora e na Revista do Globo gaúchas. Consegui, a caro custo, os direitos da obra de Jorge Luís Borges para ser publicado no Brasil e quando anos depois trabalhava na pesquisa dos escritores portugueses, o grande ficcionista Vergílio Ferreira me enfrentou dizendo que na América Latina só havia uma voz, a de Borges, e isso porque ele era mais inglês do que argentino. Encarei o autor do romance Alegria Breve e, depois de informar que publicara Borges na Editora Globo (nesse momento, ele me olhou com mais respeito), acrescentei: não posso concordar; na obra dele, há ressonâncias inequívocas de Buenos Aires, do pampa. Como então avaliar o escritor argentino como um deslocado de sua terra, de seu povo?
E García Márquez, Juan Rulfo, Carlos Fuentes, Vargas Llosa. Este último então pode ser exemplo perfeito da sutil leitura de um povo, como o demonstra em El Hablador (2008) ou no mais recente romance El sueño del celta (2010). Conheci Llosa e seu processo de trabalho quando escrevia Tia Júlia e o escrevinhador, nos anos 1970. Me dizia ele, na sua casa de Lima no bairro de Miraflores, que de manhã se dedicava à escritura e à tarde ia para um bairro periférico, se sentava num barzinho popular, observava e conversava com as pessoas para sentir o clima dos anos 50 e para trazer para o romance esse ambiente que não se perdera na periferia de Lima vinte anos depois. Imagine-se agora, já Prêmio Nobel, a dedicação do autor peruano para colher informações e ambientes do Celta, o protagonista que Llosa elegeu como personagem e que vive e sofre o ciclo da exploração da borracha no Congo Belga e na Amazônia, além das lutas do nacionalismo na Irlanda.
Edgar Morin, numa de suas passagens pelo Brasil, em 1980, confessou em depoimento que colhi, que seu ideal seria escrever romance, porque no futuro – ele se referiu precisamente ao século XXI – quem quisesse compreender o século XX teria de ir à literatura. Seis anos mais tarde, em Moçambique, o grande poeta José Craveirinha pronunciou frase confluente com Morin: um país só atinge a identidade nacional quando escreve seu romance. Pouco tempo depois Mia Couto se lançaria a essa empreitada com Terra Sonâmbula. Justamente nessas viagens dos anos 80, tive o privilégio de surpreender, no Brasil que se redemocratizava, a explosão de narrativas literárias de longo fôlego, daí o título que dei ao livro – Escritor brasileiro hoje, a posse da terra. (À época foi divertido encontrar esse livro em algumas estantes de livraria, indexado no tema de assuntos fundiários.) A posse da terra vem, no entanto, da área cultural e do esforço coletivo dos romancistas pelo reencontro da identidade nacional, após anos de repressão e censura em que a literatura e a arte em geral foram alvos preferenciais.
Ao percorrer o País, apareceram, na produção literária, as digitais simbólicas dessa perseguição identitária: na Bahia, João Ubaldo Ribeiro terminava o romance Viva o Povo Brasileiro na Ilha de Itaparica; no Rio de Janeiro, Nélida Piñon estava às voltas com A República dos Sonhos; no Rio, conversei muito sobre o romance de Fernando Sabino, publicado no fim dos 70, O grande mentecapto; Herberto Sales, baiano radicado no Rio, acabara de lançar Os pareceres do tempo; em São Paulo, Sinval Medina editava Memorial de Santa Cruz; Moacyr Scliar se lançara à Estranha nação de Rafael Mendes; na Amazônia, Márcio de Souza, após imortalizar Galvez, o Imperador do Acre, nos anos 70, prosseguira com vários títulos de ficção e chegava naquele momento ao livro A Ordem do Dia. Sete exemplos de uma safra ficcional que, junto com as demais digitais da arte, atestam o mergulho na condição brasileira: quem somos, onde estamos, para onde vamos. Poetas e ficcionistas, ensaístas e dramaturgos, cujas vozes recolhi na peregrinação dos anos 1980, assim definiram a necessidade da arte. Não por meio de rótulos de gênero ou de ordem de grandeza (hierarquia de arte erudita, de massa, popular ou folclórica), mas no exercício premente de escavação identitária ou de transcendência simbólica do inconsciente. Esdras Nascimento, ficcionista e teórico da literatura, expressou nesse trabalho a vocação do romancista: “A literatura é a atividade que justifica, orienta e dá certo sentido à minha vida. Escrever romance é meu jeito de tentar compreender, de fazer uma reflexão crítica sobre mim mesmo e o mundo que me cerca. Exercer o ofício de escritor, como prática de liberdade, foi a maneira mais efetiva que encontrei de ser útil e solidário aos meus companheiros na difícil aventura de ser e existir” (1985, pág. 433).
Partilha e fronteiras
Como dissociar a saga literária da produção jornalística? Dirão escritores das narrativas ficcionais e escritores das narrativas da contemporaneidade que a fronteira não é literária, pois o signo poético representa o que há de mais humano, seja na temporalidade presentificada, seja na atemporalidade ficcional. Talvez, arrisco, a fronteira se restrinja ao protagonista na ação social e o personagem no delírio de imaginação; o primeiro se refere à realidade disciplinada pelos acontecimentos; o segundo, à meta-realidade indisciplinada pela imaginação. Ambos, porém, povo e personagem, se fundem na identidade histórico-cultural. Por isso mesmo foi tão fecundante perceber na literatura latino-americana – Brasil incluído aos hispano-americanos – as marcas culturais, aquelas que seriam reconhecidas e decantadas no Ocidente como realismo mágico. Da mesma forma sutis leitores culturais identificam o barroco da América com raízes históricas próprias. Ou os que agora descobrem tardiamente a originalidade de Machado de Assis no século XIX.
O significado pedagógico da tríade mito, sociedade e cultura na formação e no aperfeiçoamento do jornalista se definiu na graduação em 1986 e logo se projetou na pós-graduação nos anos seguintes. E essa herança do chamado boom da literatura latino-americana se fez presente em disciplinas de pós, quando ousava guindar a plano acadêmico prioritário, não o encantamento com a Era Digital e suas maravilhosas máquinas, mas interrogantes epistemológicas. Estas, oriundas da pesquisa de campo e da visão de mundo com que se captam significados. Em tal percurso nada mais gratificante que se impregnar de arte. Ainda insistindo na literatura, lembro de quão fecundo foi fruir com alunos de Jornalismo A última sonata, romance de São Paulo, a belíssima saga migratória que simboliza o perfil das megalópoles, construída pelo escritor gaúcho Renato Modernell; ou a circularidade do Brasil de Santa Cruz, personagem mítico de Sinval Medina que traça o painel do País do século XIX à década de 1960; ou ainda as fundações da metrópole Porto Alegre no século XIX no delicioso enredo do romance de Luiz Antônio de Assis Brasil em Cães da Província. Com alunos de pós-graduação, no trabalho coordenado entre Escola de Comunicações e Artes (ECA) e Programa de Pós-Graduação em Integração da América Latina (Prolam), ambos da USP, a leitura cultural se valeu das obras de Carlos Fuentes, Octávio Paz, Scorza e tantos outros além dos antes citados.
Na arte se revelam técnicas e recursos estéticos válidos para a comunicação social, para a narrativa da contemporaneidade (jornalismo) ou para a metodologia de pesquisa engajada na compreensão cultural. Estudantes de graduação e de pós, para além de fruírem a obra artística, afinam a sensibilidade. A emoção estética rapidamente se torna cúmplice com a linguagem mítica, se motiva para praticar o signo da relação no trânsito social e se envolve nas práticas dialógicas. Darcy Ribeiro, que muito bem representa as ciências sociais brasileiras, com destaque para a antropologia, também pode ser invocado pela literatura. Um romance como Maíra oferece essas três entradas, insisto, além da fruição: na superfície da trama comparece o contexto social que, por sua vez, remete a traços culturais e na profundeza da narrativa, a atualização mítica da condição humana.
Como laboratório, o gesto da arte tem sido desencadeador da experiência solidária, ponto de partida para a linguagem dialógica, selo de identificação na comunicação social. O repórter desafeto ao outro e à sociedade contemporânea não é digno de se nomear comunicador. Mas também o pesquisador, ao se lançar ao trabalho de campo que dará sentido e locus ao levantamento de dados, não exercerá uma operação compreensiva se circular insensível ao contato com o mundo. Nem a pesquisa mais abstrata, desenvolvida por meio da erudição bibliográfica, escapa do enlace decisivo com sociedade, cultura e mito. Daí que metodologia científica e técnicas profissionais ganham vitalidade quando inoculadas pela poética. Após tantos anos de exercício nesse laboratório, não temo afirmar que o rigor analítico tanto do cientista quanto do profissional da comunicação social se enriquece no ato criativo da leitura cultural da Arte.
A observação e a entrevista, como principais técnicas de trabalho, merecem reflexão específica nos laboratórios epistemológicos e também aí frutificam bons resultados do convívio com a literatura. No embate com o real imediato, a formação do jornalista ou do pesquisador tem no aparato de captação um desafio crucial: o que observar, de onde observar, como observar. Os problemas que se põem tocam de perto a visão de mundo, a mentalidade e ideologia do observador. Ou melhor, as atrofias do radar de sintonia fina com o outro e mundo que nos cerca. Percebem-se tais limitações quando se compara um relato jornalístico ou a escrita de um trabalho de pesquisa com uma narrativa de fôlego na arte. Já quando uma reportagem ou uma tese se expressam com autoria inovadora, pode-se concluir que ali, como em um mural de Portinari, vibram sociedade, cultura e mito. A observação do artista integra as virtualidades da inteligência plena – análise sutil, intuição sintética e ação rebelde. Mas para que a observação se abra para intuir, analisar e criar uma narrativa que represente a complexidade do mundo, é preciso renunciar à comodidade das técnicas gramaticalizadas ou dos pré-conceitos que nos levam a enxergar e ouvir o que se quer à partida.
Laboratório de atrofias
Nesse capítulo das atrofias da inteligência natural muito há a fazer, principalmente com a contribuição das neurociências. Mas esse é outro tema em que tenho trabalhado. No entanto, quero persistir na importância do encontro povo-personagem. Diria, com toda a franqueza, que depois de ir à África nos anos 1980 e percorrer, ainda que só pelas capitais, as cinco sociedades de língua portuguesa, depois de ter lido a poética, a ficção e o ensaio de seus escritores, o olhar se aguçou, a visão se transformou. O exemplo mais contundente ficou explícito no título do livro que reúne 41 escritores e mais alguns jovens que se iniciavam na literatura. Sonha Mamana África nasceu como título, primeiro, do vocábulo moçambicano para mãe (mamana, insisto, e não mama, que esse é de origem italiana). Digo na quarta capa: “A palavra mãe, em Moçambique, fermentou em Mamana e ficou do tamanho do grande ventre das culturas africanas”. No espanto trágico do que observei nas ruas e nos ambientes cotidianos, a tendência duma visão conformada pelas aparências recaía no diagnóstico negativo – uma sociedade sem futuro. Moçambique, à época, era um dos países mais pobres do mundo. Mas, para quebrar a análise esquemática, saltavam à minha frente a alegria das crianças na rua e o grito dos desajustados na literatura, para citar Nicolau Sevcenko (1983). No encontro com o jornalista e poeta Calane da Silva, expus a ele minha amargura e a pergunta que me angustiava: como sonhar com melhores dias? Calane pegou um guardanapinho da mesa do depauperado bar em que nos encontrávamos e escreveu o que se tornou a epígrafe do exclamativo direito de sonhar:
Ainda achas que temos sonhos
(Poema dito e criado por Calane da Silva na noite de 20 de setembro, Maputo, Moçambique, 1986.)
ainda achas que estamos vivos
não achas que nós, vivos,
estamos perdidos
pessoano não sou
venho do bairro limítrofe
onde a pólvora do mundo
conosco acabou
Tivesse eu chegado ao poeta com um questionário no papel ou pelo menos com a pauta da entrevista na cabeça, não teria tido essa epígrafe para Sonha Mamana África. Tal epifania acontece quando se atinge interação social criadora no diálogo. Do ato relacional aflora o insight – e que é surpreendente, interlocutor e jornalista ou pesquisador se alteram inesperadamente. Técnicas de pergunta e resposta ou aplicação de questionários aplicados a amostragens selecionadas não favorecem a intuição criativa. Escrevi sobre o tema nesse mesmo ano em que fui à África na tese de doutorado, defendida na USP (maio de 1986). A Editora Ática publicou um terço da tese, sob o título Entrevista, o diálogo possível (1986). Prefiro citar agora o título acadêmico do trabalho inteiro, Modo de ser, Mo’Dizer, porque ele traduz o que proponho reforçar – a fala do Outro diz muito mais do que o código lingüístico expressa. Retorne-se à literatura: a oratura do povo inspira os diálogos dos personagens. Ao fazer essa transcriação – da oratura para a literatura – o escritor apreende o modo de ser pelo modo se dizer. Ou, aquém de determinada fala, está uma cultura que caracterizará o personagem.
A arte de tecer o presente tem possibilidades conscientes e inconscientes, previsíveis e inusitadas. Para o contato consciente com o Outro e sua circunstância valem uma visão de mundo complexa e apta a noções epistemológicas inter e transdisciplinares. Tem sido essa a pauta da pesquisa iniciada em 1990, Saber Plural e a Crise de Paradigmas, com onze volumes publicados em que múltiplas áreas do saber disciplinado e outras áreas da expressão artística têm balizado tais noções, entre elas, a linha mestra da relação sujeito-sujeito no lugar da clássica direção sujeito-objeto. Outras operações mentais também atravessam a metodologia da pesquisa e da reportagem: a noção de Inter causalidades dos fenômenos substituindo a rotina da causa e efeito; a noção de universo poroso e não de universo sólido; a mutação da noção de substância e acidente para a noção de relação complexa; do maniqueísmo fácil na noção de certo e errado se propõe compreender que os dados de realidade não estão assim hierarquizados e, sim, podem ser apreendidos por uma noção de coerência, de encaixe, de sustentação no todo. No texto em que fixei tais noções, em 1990, no primeiro seminário transdisciplinar na ECA, acrescentava: “A visão com que operamos ao pautar e desenvolver uma pauta tende sempre para o enquadramento esquemático do real, a atrofia de sua vitalidade enquanto processo”. A formação consciente em laboratórios epistemológicos passou então a ocupar o espaço dominante dos rasos treinamentos técnicos. Constata-se também a mesma emergência na metodologia de pesquisa – tanto a conceitual quanto a empírica – na pós-graduação em nível de mestrado, doutorado ou pós-doutorado.
Se a conscientização exige esse esforço da razão complexa, para circular no mundo disponível à prática do signo da relação, é também importante assumir a dimensão do indeterminado, do não previsível, dos mistérios inusitados da dialogia social. A ciência e os conhecimentos partilhados na inter e transdisciplinaridade acrescentam constantes desafios, as neurociências muito avançaram. Em uma das obras mais recentes, António Damásio oferece um painel sofisticado no Livro da Consciência, a construção do cérebro consciente (2010). Mas no âmago dessa sofisticação neurocientífica aflora, em Damásio, o espanto da intuição da arte, não disciplinada pelo ato consciente. O que levou o escritor Sinval Medina, em um dos seminários do Projeto Plural e a Crise de Paradigmas, a se pronunciar diante dos demais cientistas como um ser proveniente da indisciplina. Fixava aí o que no meu entender provém do universo inconsciente, do imaginário indisciplinado. A liberdade criativa não se submete à racionalidade analítica, pois esta não alcança a sensibilidade intuitiva no ato emancipatório da consciência. Ora, a arte de tecer o presente compreende no instante não esperado um grão da poética da relação humana. Seja diante da referência real (jornalismo ou pesquisa empírica) seja na navegação imaginária do artista, é então que se assina uma autoria: a originalidade do comunicador ao narrar os acontecimentos contemporâneos ou a originalidade do pesquisador ao defender uma tese; nunca se contestou, por outro lado, a originalidade da narrativa e do narrador, criados pelo autor, na arte de tecer a condição humana em qualquer tempo.
Abordagens inesgotáveis, cada parágrafo anterior é uma síntese insatisfatória do tanto que se tem trabalhado nos grupos de estudo da graduação e da pós-graduação e também do que se tem experimentado coletivamente no mercado profissional. Recentemente fiz uma visita à TV Bandeirantes, onde atuei no telejornalismo nos primeiros anos da década de 1970. No encontro com Fernando Mitre, atual diretor da área, mas também de antiga convivência no Jornal da Tarde na mesma época, ele me apresentou a um colega com uma afirmação que não admitia contestação: “Esta aqui (se referia a mim) é a única que une teoria e prática; não conheço outro profissional assim”. Muito sofri com a discriminação alternada: nos ambientes jornalísticos, me acusavam de acadêmica quando debatia determinado tema ou procedimento técnico; na academia, alguns colegas não me admitiam como scholar. Ainda bem que essa união indissolúvel teoria-prática, prática-teoria, identificada por Mitre, resistiu aos ataques. A mesma complementaridade articula ciência-arte, julgo eu. Ou, pensar em operação mental, a conjugação complexa das virtualidades lógico-analíticas com as virtualidades intuitivo-sintéticas vai desaguar na ação inovadora.
A arte coletiva de tecer o presente
Parte-se da hipótese de que o estar no mundo resulta da possível ação comunicativa e esta ação pode ser disciplinada conscientemente, bem como motivada por misteriosa interação cultural inconsciente. Ao organizar uma narrativa dessa contemporaneidade, os sentidos e símbolos que se elegem, os contextos e seus protagonistas da ação social instigam uma tessitura autoral. Como os ficcionistas, a narrativa jornalística ou o relato científico pode criar narradores, reconstituir cenas com a vivacidade dos movimentos e falas, modos de dizer que representem os modos de ser dos heróis/anti-heróis do cotidiano junto às declarações dos poderes constituídos ou os conceitos da bibliografia especializada. Abre-se então uma oficina literária para a articulação de nexos, a perseguição das contradições no processo informativo, a inesgotável busca das verdades em conflito, a escuta inesgotável dos diagnósticos e prognósticos de especialistas – enfim tudo exige do autor uma regência simbólica na edição da narrativa da contemporaneidade ou na escrita da pesquisa,
O sinal de alarme do relato burocrático é dado quando se cede à tentação de acionar os códigos da inércia ideológica ou da rotina técnica, em que se inclui no caso do texto científico a prática do refúgio em citações alheias que se sucedem indefinidamente. A composição autoral – não importa o suporte impresso, eletrônico ou digital – se torna inconfundível, não pelo formalismo literário, mas por uma estética que reencena a contundência social contemporânea, no jornalismo, ou transcende o presente na densidade da condição humana, na arte. E, no caso da ciência, revoluciona o saber dogmático sobre determinada circunstância ou fenômeno. Nas três espécies de narrativas, em comum se destacam os autores que reinventam um elo da produção simbólica e a referência real.
Tenho insistido no contato vivo do signo da relação desde que, em 1972, traduzíamos na ECA o primeiro texto conceitual de Tom Wolfe na revista Esquire. Enquanto ele conectava a reportagem com a literatura norte-americana e acenava para os recursos estilísticos dos grandes ficcionistas norte-americanos da primeira metade do século XX, nos laboratórios de Jornalismo Informativo e Jornalismo Interpretativo desse momento, propunha o eixo da captação na reportagem como inspirador da palavra poética. Preferia a literatura como fruição, não como manual de regras de estilo. Mesmo porque também os próprios artistas, ao se impregnarem de sociedade, cultura e mito se integram na produção simbólica (construção social do sentido), transcriada na linguagem autoral. Daí insistir do ato de reportar como inspirador primeiro do ato de narrar.
No fim da década posterior, quando voltei à USP e partilhei com meus alunos de graduação o projeto da série São Paulo de Perfil, livros-reportagem voltados para identidade sócio-cultural paulista, a concepção se consolidou. Inclusive nos foi muito útil o retorno de leitores externos, alunos da escola pública de segundo grau na capital, um projeto em parceria com a Secretaria de Educação do Estado de São Paulo. Apesar de já ter escrito sobre a experiência, vale resumir alguns traços definidores da narrativa que foram sendo reafirmados pela pesquisa de grupo e pelos feedbacks dos leitores jovens e adultos de escolas diurnas e noturnas. A reportagem comunicativa se anima na ação dos protagonistas sociais envolvidos pelo acontecimento, tramas que se registram nas histórias de vida e o cotidiano da aventura humana. Os cenários vivos, em movimento, têm primazia na comunicação perante o acervo proveniente do mundo das ideias, dos conceitos, das opiniões; os protagonistas comparecem por meio da observação sutil do autor e da criação de suas falas (a palavra poética da oratura e não palavra opaca da resposta empostada a uma pergunta de entrevista); o jogo polifônico e, portanto, polissêmico, promovido por uma atenta escuta que interroga e em lugar de assumir partido; a narrativa presentificada, característica da identidade jornalística, não prescinde da pesquisa de antecedentes históricos e tendências futuras, dosados ao longo do contexto do acontecer e das histórias de vida; a criação de um ou mais narradores será decisiva para montar a massa narrativa, à partida submersa no caos da realidade.
Trata-se, enfim, nas palavras do pesquisador/fotógrafo Boris Kossoy de criar uma segunda realidade. O problema da veracidade persegue a consciência do autor, mas a fidelidade ao outro e sua circunstância se constitui antes, no momento do encontro ou desencontro com o acontecimento em processo. As técnicas conscientes, cultivadas no esforço da racionalidade complexa, foram acionadas na captação de informações e desde então se fermenta a intuição estética que irá dar forma ao cosmo narrativo. A reportagem ou a pesquisa de campo, noutras palavras, o contato vivo e atualizado com o mundo traz consigo a inquietude narrativa. O labor de articulação dos sentidos, como já sintetizado em parágrafos anteriores, cria elos que associam contextos e protagonistas sociais. Articulam-se informações colhidas na bibliografia e nas fontes especializadas. A intuição sintética descobre na cena traços culturais que darão identidade à linguagem. Do real imediato se desliza para imaginários universais em meio à trama localizada.
Tem sido deslumbrante acompanhar esse processo ou com estudantes de graduação ou com os pesquisadores da pós-graduação. Estes, não apenas da área da Comunicação Social. Posso chamar a esta reflexão, a médica infectologista Sônia Geraldes, que produziu um trabalho científico transformador ao trabalhar com as campanhas preventivas de AIDS, num estudo comparativo de México e Brasil no Prolam/USP. Quem ler sua narrativa, Paixão, confiança e AIDS, um trinômio feminino de risco, encontrará a confluência dos tópicos aqui destacados. A pesquisadora voltou ao tema no Foro Permanente de Reflexão sobre a América Latina, que eu coordenei no Memorial da América Latina de São Paulo. Aí Sônia Geraldes atualizou sua pesquisa com o mesmo toque poético na relação médico-paciente (2011).
Da mesma maneira, no nível de graduação, em Nau dos desejos, 14º exemplar da série São Paulo de Perfil que aborda a migração dos portugueses na primeira metade do século passado para o Brasil, sempre recomendo a leitura de As minhas sobrancelhas pretas, de Marco Polo R. Henriques (1994). À força das histórias de vida se somam os contextos de sociedade, as informações históricas, as interpretações especializadas e o veio da linguagem mítica na circularidade da Viagem da Esperança. No laço com a arte, citei agora o título de um filme suíço de Xavier Köller (1990) que narra como Carlos Fuentes na ficção A fronteira de cristal (1999) ou como Marco Polo no jornalismo ou Sônia Geraldes no campo da saúde, a saga do humano ser.
Leitores da primeira realidade produzem outra realidade, a simbólica, com marcas indiscutíveis de autoria. Narrativas que saem dessa oficina se tornam tão fascinantes como a leitura cultural do artista no âmbito da ficção. Por isso conjugo, na oficina pedagógica, textos de arte, textos de jornalismo, textos de teses ou dissertações em que o grupo fruidor não pressente fronteiras nem hierarquias. A narrativa da arte, do jornalismo ou do trabalho científico se encontram no rigor da complexidade analítica, na surpresa da intuição criativa e no vigor da inovação. Técnica, estética e ética são indissociáveis. Após tal experiência, não há registro de grupos que se distanciem ou rejeitem a alegria autoral. Quando o laboratório é assumido por aqueles que vão se lançar à navegação, há etapas de dor a vencer, mas invariavelmente acontece o momento culminante: ele, ela, leitores de outrem, agora assinam a própria leitura. E por outros serão lidos, numa rede de prazeres pedagógicos que cultivo na arte coletiva de tecer o presente.
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*Cremilda Medina, jornalista, pesquisadora e professora titular aposentada da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, é autora de 20 livros e organizou 65 coletâneas na USP e em outras universidades no Brasil e em Portugal. Seu mais recente livro, Casas da Viagem, de bem com a vida ou afetos do mundo (2012, edição da autora), narra a trajetória pessoal e profissional da jornalista e pesquisadora, formada pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – em Letras e Jornalismo -, e as demais etapas da carreira – mestrado, doutorado, livre-docência e titularidade – na USP, em São Paulo, onde está radicada há 41 anos. Das coletâneas que vem organizando, destacam-se as séries São Paulo de Perfil, Novo Pacto da Ciência e Foro Permanente de Reflexão sobre América Latina.
Referências bibliográficas
MEDINA, Cremilda. Viagem à literatura portuguesa contemporânea. Rio de Janeiro: Nórdica, 1983; A posse da terra, escritor brasileiro hoje, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda,1985; Sonha Mamana África. São Paulo: Edições Epopéia, 1987.
MEDINA, Cremilda. Povo e Personagem. Canoas: Editora da Ulbra, 1996.
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