
(Primeiro momento)
Pombas, sabiás, maritacas e o Condomínio
Escutai, meus companheiros ancestrais: eu, na condição de pomba mais velha, matriarca do bando, estou revoltada. Não é que nos tiraram aquela comidinha deliciosa da varanda do primeiro andar. Voamos todos os dias da Praça Buenos Aires em direção ao prédio naquele corredor, a favor do vento. Na Praça, os restos de alimento andam escassos, então descobrimos aquele manjar que a velha senhora nos oferece. Foi só aparecerem os pratinhos de sementes, de ração da melhor qualidade e de pedacinhos de mamão, que a passarada avisou. Não só meus parentes, pombos, pombas e pombinhos, como sabiás e maritacas correram em direção ao banquete. Sim, verdadeiro banquete que ontem desapareceu. Não é justo.
Meu Deus, como vou passar os fins de tarde, com chuva ou sol, sem o canto dos meus passarinhos? A alegria de servir a mesa pra eles. A mesa, modo de dizer, a varanda. Fico encantada com o voo em direção ao meu apartamento, talvez tenha sido a melhor ideia para a terrível solidão que sofro depois da morte do meu marido. Costumávamos sentar na varanda e conversar, ele com assunto sem fim, sua voz que se parece – quer dizer, parecia – com canto de sabiá. Eram fins de tarde, principalmente no verão, em que o papo rolava, às vezes competindo com os pássaros da Praça Buenos Aires. Hoje, que o Henrique se foi, que Deus o tenha, só os sons à distância no jardim. Mas, há um mês, mistérios da insônia, acordei com o plano arquitetado: vou chamar a companhia dos passarinhos pra minha varanda… Minha cumplicidade com os bichinhos, não contava com isso, foi interrompida à força com a agressiva oposição da vizinha do quarto andar.
Quié que deu na velha do primeiro andar? Onde já se viu botar comida para pássaros na varanda. Um horror. Pombas, sabiás, maritacas e sei lá quem mais desandaram a comer e a defecar na capota do meu carro. Pois é: este prédio não tem garagem pra todo mundo, parece que na década de 1940, quando foi construído, nem se pensava em carro individual. Acontece que em casa temos dois carros, aí alugamos a garagem, numa das raras vagas do prédio. O segundo carro não cabe por inteiro, fica com a traseira pra fora. O condomínio me cobra outro aluguel. Que querem? Trabalhamos e merecemos ter dois carros, não me venham com luxos. E o que não cabe dentro fica bem de baixo da varanda da dona Mirtes. Então foi aquele Deus nos acuda de cocô no meu carro, além da gritaria das maritacas que chega até minha varanda nas horas mais impróprias.
Como síndico do prédio tive que encarar uma situação surrealista. Em toda a minha administração nunca imaginei resolver um problema de fezes de pombas no teto de um automóvel. Como ser juiz de defecações de pássaros? De um lado, a velha senhora viúva, que nunca fez mal a ninguém, arrumou essa companhia e se diverte com o concerto da passarada na varanda do primeiro andar; de outro lado, a indignada vizinha do quarto andar a buzinar no meu ouvido com a capota do carro toda suja. Queria, primeiro, que o funcionário da limpeza resolvesse o problema todas as manhãs. Ó minha senhora, não temos faxineiro particular para o seu carro. Ora, tenha paciência, é preciso arrumar outra solução. Quem sabe a senhora cobre com uma lona o carro e assim só fica a lona pra limpar de vez em quando.
Nem pensar, essa solução é absurda. Eu que vou limpar a lona? Mande então a velha dos pássaros resolver de uma vez a questão. Já mandei para a imobiliária uma reclamação e nem responderam. Estou a ponto de chamar a televisão pra filmar o meu carro todo, perdão da palavra, mas é isso mesmo, todo cagado. O condomínio tem que tomar uma atitude.
Senhor síndico, essa minha vizinha do quarto andar não tem jeito. Sou uma velha paciente, compreensiva. Veja bem, a garagem não é pra dois carros e se ela tem um segundo automóvel com o traseiro pra fora, que se vire. Meus passarinhos são meus amigos, até converso com eles. Dou, sim, muita comidinha e mesmo que diminuísse as porções dos pratinhos, ainda assim não poderia impedir que façam cocô na área. Se não estivesse o maldito carro embaixo da minha varanda…
Não tem mais discussão nem com a velha nem com o síndico. Vou entrar com uma ação na justiça. Uma última proposta: o condomínio manda fazer um toldo de alumínio ou de lona, não me interessa, e põe em baixo da varanda do primeiro andar, em cima do meu carro. Se não tiver reserva de fundos no condomínio, ela que pague.
Esta senhora é maluca. Como vou fazer uma obra por causa do cocô dos pássaros? Tenho que conversar com minha amiga do primeiro andar, a ver se a dona Mirtes se convence de tirar o restaurante da varanda. Só assim para não ter que instalar uma privada para os bichos…
Hoje estou novamente de luto. Primeiro foi o Henrique, agora meus passarinhos. Se não tirasse a comidinha da varanda, este condomínio virava uma guerra.
Ei, gentil passarada. Temos de voar pra outra freguesia. Apesar de minha autoridade como líder, não posso fazer nada por vocês, meus companheiros: acabaram com os alimentos do espírito e da pança na varanda de vossa e minha amiga. Era bom, mas se acabou. Coisas da vida.
Cremilda Medina
(Moradora do Condomínio)
(São Paulo, 5/6/2019, texto baseado em fatos reais e complementos de ficção que a realidade inspira.)
(Segundo Momento)
Atravessagem: teoria e prática em diálogo permanente
(Subsídios para palestra na UNISO, Sorocaba, 28 de maior de 2019.)
A Atravessagem se inicia na formação universitária (1960-1964) dos cursos de Jornalismo e de Letras na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Na profissionalização como jornalista, em 1962, o ofício inerente ao repórter, três habilidades são cultivadas: a escuta curiosa, a captação da síntese de depoimentos, a observação em campo, a escrita linguística e a escrita de códigos visuais (diagramação e fotografia). Nasce como definição metodológica o interesse pela leitura cultural, enriquecida pela literatura, o cinema o teatro, a música. O trânsito ao atravessar as circunstâncias e ir ao encontro dos protagonistas sociais se reveste de responsabilidade ética, segundo a consciência formada em disciplinas como História, Sociologia, Antropologia, Letras, Geografia Humana e outros fundamentos humanísticos tão presentes na universidade pública dos primeiros anos da década de 1960.
Ruptura de utopias
31 de março de 1964 e a noite da formatura em Jornalismo.
Inicia-se a consciência dilacerada da resistência cultural e o enfrentamento dos medos da repressão. Em 1967, convidada para ser assistente de catedrático na disciplina técnica cujo laboratório era o Jornal Escola, acompanharia em um dos focos de acirramento da ditatura militar, a universidade, o ano de inflexão persecutória – 1968. Com a formação pedagógica do curso de Letras, os estudos de humanidades e o convívio com as artes, torna-se inconsistente a simples transmissão técnica ao desenvolver o jornal-laboratório na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras. Mais ainda quando se criam as faculdades de Comunicação Social a partir da pioneira ECA da Universidade de São Paulo (USP). Também no Sul, se dá a autonomia dos cursos de Jornalismo, Publicidade e Biblioteconomia e participo das novas instalações da atual Fabico (Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação/UFRGS).
Fermenta, na esfera internacional, a inquietude pela pesquisa, pelos contatos das novas ciências da comunicação, teoria e prática conjugadas. No final dos anos 1960, comenta-se na universidade brasileira a nova política de pós-graduações. Chega a Porto Alegre a notícia de que a ECA/USP irá criar o primeiro curso da América Latina. Minha inquietude explode e, em 1970, venho a São Paulo, em julho, para participar da Primeira Bienal do Livro (trabalhava então na Editora Globo de Porto Alegre). Aproveito a oportunidade para visitar o Departamento de Jornalismo da Universidade de São Paulo.
As sementes da pesquisa estão lançadas (1971-1975)
Vim do Rio Grande do Sul, em dezembro de 1970, com o projeto de mestrado esboçado: “A estrutura da mensagem jornalística”, que se realizaria na dissertação do primeiro mestrado da América Latina em Ciências da Comunicação em 1975 e seria publicado em 1978, sob o título “Notícia, um produto à venda, jornalismo na sociedade urbana e industrial”. Antes, porém, da defesa do mestrado, mentalidade da pesquisa, inerente ao DNA da USP, resultara, em 1972-73, no primeiro livro, publicado artesanalmente na universidade, “A arte de tecer o presente”, assinado com o colega de docência, Paulo Roberto Leandro (que nos deixou em 2015). Mas 1975, ocorre uma nova ruptura quando três dos professores, o chefe do departamento, Walter Sampaio (1931-2002), Paulo Roberto Leandro e eu saímos da USP em solidariedade à cassação do professor que implantara o curso de Editoração, Sinval Medina.
No entanto, o período de 1971 a 1975 foi decisivo ao fertilizar as sementes da pesquisa e da união indissolúvel entre teoria e prática. As marcas ficaram registradas na graduação de Jornalismo, na profissão e nos desafios da responsabilidade social da mediação jornalística em um trânsito intenso no Brasil e na América Hispânica, no CIESPAL (Centro Internacional de Estudos Superiores de Periodismo para a América Latina).
Palavras-chave: a arte de tecer o presente, complexidade e pluralidade da produção simbólica na comunicação social, autoria e responsabilidade na mediação jornalística.
O gesto da arte (1975-1985)
Ao sair da Universidade de São Paulo, em plena ditadura militar e assumir, no jornal O Estado de S. Paulo, a Editoria de Artes e Cultura, pude conjugar minhas duas formações humanísticas e cruzar as técnicas congeladas do Jornalismo, com a expressão sensível e solidária dos artistas. Além do cotidiano gratificante (pois os artistas, escritores na primeira linha, formavam um dos movimentos sociais mais vigorosos no confronto com a censura institucional e os desatinos da repressão), iniciei um ciclo de viagens às literaturas da língua portuguesa – Portugal, Brasil e África – que me proporcionou lançar sondas (de repórter) na atravessagem simbólica entre povo e personagem, palavra-chave, do gesto da arte e da leitura cultural na interpretação da reportagem. (Fragmento do texto introdutório de “A posse da terra, escritor brasileiro hoje”, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1985, págs.13-14.)
A volta à USP e as completudes ensino-pesquisa-comunicação social
Em 1986, o doutorado e o retorno à pesquisa, docência e comunicação social reataram os laços de ciência e sociedade. Já em 1987, se iniciava o laboratório de dialogia social, palavra-chave da criação do projeto São Paulo de Perfil, hoje 26 livros publicados e um inédito. Na experiência laboratorial, as palavras-chave, respeito ao Outro, diálogo possível, observação-experiência, pesquisa identitária, complexidade e pluralidade de forças simbólicas, mediação autoral, estilística inspirada em campo, no estar afeto a.
Inicia-se também, em 1987, a docência e orientação de mestres e doutores na pós-graduação: as teorias latino-americanas de comunicação social estão atravessadas pelas mesmas noções-chave.
1990, marco da inter e transdisciplinaridade
O primeiro seminário inter e transdisciplinar: A Crise de Paradigmas assinala o lançamento de uma fase que permanece até hoje, em que a Atravessagem colhe teórica e praticamente os desafios dos saberes científicos, dos saberes cotidianos e das linguagens míticas. Na dialogia ciência-sociedade, sociedade-ciência, o mediador-autor não é um mero transmissor nem tampouco um técnico divulgador; nas narrativas da contemporaneidade cruzam-se tempos (seta do tempo, ciclo do tempo), espaços múltiplos, inclusive os do imaginário, da complexidade de miscigenações culturais, ou inter causalidades do acontecimento, do direito à transcendência do real concreto, do coletivo e da produção de sentidos e muitas outras noções que a prática e a reflexão transdisciplinar acrescentam à oficina do jornalista. Eis um convite ao permanente aprofundamento nos impasses e nas provisórias soluções da ação humana (da medicina à cozinha doméstica, da estatística à antropologia, da história à comunicação social, da física à matemática, da biologia à educação, da arte às neurociências). Aprendemos muito com esse último esforço científico, o das neurociências, e o exemplo significativo está na fértil obra publicada de António Damásio que, dos estudos pragmáticos perante as moléstias do cérebro, vem extraindo hipóteses teóricas que nos desbravam.
Temos um espaço de ação desafiante em meio a toda a ebulição contemporânea: a Reportagem e o Ato Presencial em que se realiza. Muita sorte aos repórteres da Era Digital.
