
Ao estudar hoje, 2026 , os fundamentos que me levaram a organizar o Primeiro Seminário Transdisciplinar, a Crise de Paradigmas, em 1990, cujos anais iniciaram a Série Novo Pacto da Ciência em 1991, vale a pena ir à Nota de Apresentação, que então publiquei (em um texto posterior apresentarei a atualização escrita em 2025 pela comemoração de 31 anos de 12 edições da referida série):
A mediação social da informação não se esgota nos acontecimentos políticos, econômicos, socioculturais. Pode-se aspirar também a interação dos fatos e ideias científicas. Um jornalista, um comunicador contemporâneo, se inquieto, irá ao encontro desta invisível rede de interrogações que se tece nos meios especializados do saber humano. A Crise dos Paradigmas não se contém nos Olimpos da Ciência. Os paradigmas societários ultrapassam sábios e cientistas, seus impasses impregnam o cotidiano do século XX.
Não é, pois, de estranhar que a Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo chamasse a si o Primeiro Seminário Transdisciplinar, abordando a “Crise de Paradigmas”. Foi generosa a anuência de consagrados cientistas, provenientes de áreas bastante distintas, em participar de uma jornada intensa de discussões. O resultado aqui transcrito atesta a fertilidade do trabalho e o rigor do empenho. Especialistas deixaram, por dez horas, gabinetes, consultórios, laboratórios e salas de aula – espaços nobres em que desenvolvem a Ciência -, para se expor ao desgaste corpo a corpo, cérebro a cérebro. Neste embate, pesou mais o espírito de busca que a afirmação competitiva.
A linguagem dialógica em que se expressa este relato tem a grandeza da fluência de um momento coletivo, embora abdique da sofisticação do texto elaborado na palavra escrita. A oralidade de um debate pode apresentar imperfeições no discurso racional, mas contém a emoção da polêmica, a ambiguidade dos impasses, das dúvidas. E, acima de tudo, a crescente interação dos debatedores que, numa dinâmica de entusiasmo e reflexão, procura constituir caminhos cruzados e abandonar a individualização. É nesta fértil seara que se plantou a questão da transdisciplinaridade.
Os momentos iniciais privilegiam a apresentação de cada cientista e sua contribuição mais próximas às atuais perplexidades da Teoria do Conhecimento. Logo a seguir, a atmosfera de interdisciplinaridade estabelece a troca de ideias, no confronto de experiências, na procura de pontes. Mais cedo ou mais tarde, de acordo com os diferentes ritmos, se atingem perplexidades comuns. Neste sentido, um dia reflexivo, de empatia e disciplina criaram este documento, sob forma de um NOVO PACTO DA CIÊNCIA.
Não escaparam à sutil análise deste qualificado grupo científico os temas emergentes no âmbito internacional da crise de paradigmas. Da crítica ao mito da ciência, alimentado pelo imaginário popular, às relações de poder que permeiam a produção do conhecimento na sociedade; da profunda meditação sobre o método fragmentalista às deficiências dos modelos; do reexame da linguagem conjuntiva ou disjuntiva às reduções da complexidade do real; da ponderação acerca da herança científica ocidental aos resultados concretos das técnicas e tecnologias atuais, – eis um mural de interrogantes. Mas, através desta dura jornada, corre um dilema substancial: como pode a Ciência se aproximar da Vida e a ela devolver dignidade, melhores condições materiais e felicidade.
Sim, não se trata de estéreis discussões sobre paradigmas. O principal eixo do encontro é o ser humano e não teorias ou práticas de laboratório. A crise, como ela se manifesta na busca de novos caminhos, tem como referência a situação do homem contemporâneo. E a Ciência, num plano bem mais humilde que no século passado, se inclina perante esta situação para, antes de mais nada, compreendê-la. Todos os cientistas do Primeiro Encontro Transdisciplinar são unânimes ao se flagrarem aprendizes da epistemologia da complexidade. Unem-se como nunca a filósofos e poetas para tentarem formular respostas ao desafio dos seres humanos neste fim de século. Por este lado, como mudou a cultura científica desde o fim do século XIX…
De tal modo o grupo se contaminou do sentimento poético, que vários dos participantes produziram textos posteriores ao encontro. Daí a oportunidade de anexar ao relato do seminário reflexões que testemunham a criatividade do pensamento brasileiro. Isso denota também que não domina, entre nós, a tranquilidade dos paradigmas estabelecidos. Felizmente, há cientistas em nosso meio que não reproduzem o conhecimento sob um teto e com pé firme em chão inquestionáveis. Matemática, física, química, biologia, medicina, sociologia, psicologia, comunicação social, áreas antes estratificadas – exatas, biológicas e humanas –, se reúnem hoje legitimando, antes de mais nada, o discurso interdisciplinar e buscando, sem abandonar o aprofundamento das especializações, o discurso da unidade transdisciplinar.
O novo pacto da ciência com a arte e as diferentes sabedorias humanas realimenta o desejo ancestral: podemos nós cultores do conhecimento científico contribuir de algum modo para paz, justiça e ecologia? A tríade, apresentada e discutida neste relato, parece sintetizar os objetivos de uma ciência eficiente para o século XXI.
MEDINA,Cremilda (Org). “Novo Pacto da Ciência. A Crise dos Paradigmas, Primeiro Seminário Transdisciplinar, Anais” . São Paulo: 1991, ECA/USP, Nota de Apresentação.
