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O mundo coberto de penas, aliás Vidas Secas

O mundo coberto de penas, aliás Vidas Secas

Por Sinval Medina

Com o texto já na gráfica, em conversa com o editor José Olympio, Graciliano Ramos bateu o martelo. Seu quarto romance se chamaria Vidas Secas. O título provisório, O mundo coberto de penas, ficou para o penúltimo capítulo, quando o vaqueiro Fabiano, ao perceber a revoada de aves de arribação, entende que, mais uma vez, o sertão vai pegar fogo.

O mais conhecido romance de Graciliano Ramos teve sua primeira edição há exatos 80 anos. Já consagrado pela crítica, o autor de Caetés (1933) São Bernardo (1934) e Angústia (1936), após amargar por dez meses uma prisão política sem acusação formal, ressurge em 1938 com Vidas Secas. No devido tempo, o livro se tornaria um clássico, isto é, uma obra imorredoura, capaz de revelar, sempre que revisitada, perspectivas não vislumbradas em leituras anteriores.    

As agruras e misérias do semiárido nordestino aparecem em nossa literatura com O Cabeleira de Joaquim Távora e O Sertanejo, de José de Alencar, ambos de 1876. Nos anos vinte do século passado, os temas de denúncia social ganham corpo na ficção brasileira. A tendência, vinculada ao nacionalismo programático da Semana de Arte Moderna, repercutiria por todo o País com a valorização de personagens, linguagens e situações sociais pouco ou mal exploradas no impropriamente chamado Pré Modernismo.

Em 1928, José Américo de Almeida lança A Bagaceira. O livro não é inovador na forma, mas se torna profético pelo tom de denúncia social. Quando o País deixa de ser arquipélago para perceber-se como continente, o autor paraibano dá amplitude nacional à temática regional sem, contudo, engajar-se na revolução estética proposta pelos modernistas.

Em 1930, Rachel de Queiroz publica O Quinze, que se tornaria o ex-libris do “romance da seca”. Dois anos depois José Lins do Rego, com Menino de Engenho, inicia o ciclo moderno do “romance da cana de açúcar”. Ambos residem em Maceió e integram o círculo literário de Alagoas, no qual Graciliano Ramos, ainda inédito, é visto como o maior escritor alagoano. “Escritor sem livro”, escusa-se, com a  modéstia que o caracteriza. Nessa época, o baiano Jorge Amado, que aos vinte anos já faz sucesso com O País do Carnaval, visita a capital de Alagoas para conhecer mestre Graciliano. Nasce ali uma amizade de vida inteira.

 Ao estrear com Caetés (1933), Graciliano é “figura municipal”, nas palavras de Álvaro Lins. Sem poupar reparos ao livro, o respeitado crítico reconhece não haver no autor as indecisões, os excessos, os erros comuns aos jovens, numa referência velada a Jorge, Zé Lins e Rachel, cultores das ousadias formais dos novos tempos.

Apesar de quarentão (nascera a 27 de outubro de 1892) Graciliano não era um paraquedista no mundo das letras. Muito menos um sertanejo rústico. Concluíra estudos no prestigiado Colégio Interno Quinze de Março de Maceió, revelando já a veia de escritor. Em 1914 tenta a vida no Rio de Janeiro, onde trabalha como revisor nos jornais Correio da Manhã, A Tarde e O Século. Na Capital Federal, frequenta ambientes onde voejavam os plumitivos da belle époque carioca. Em 1915, após uma epidemia de peste bubônica em que perde duas irmãs e vários parentes, volta a Palmeira dos Índios, no sertão de Alagoas, para auxiliar o pai nos negócios da família. Ainda que o trágico episódio não apareça de modo explícito em sua ficção, caberia a ele traduzir o romance A Peste, de Albert Camus, na edição da José Olympio publicada em 1950.

Antes de Vidas Secas, os territórios explorados por Graciliano não se enquadravam no figurino regionalista. Caetés, São Bernardo e Angústia o situavam como um ficcionista da alma humana, introspectivo, interiorista, mais próximo de Lúcio Cardoso ou de Otávio de Faria do que dos romancistas voltados para a temática social.

A relação entre vida e obra de um autor é discussão presente desde sempre na história da literatura. Na biografia de Graciliano, o sofrimento na prisão se reveste da maior relevância, mas talvez não seja chave explicativa essencial em seu processo criativo. Com Caetés e São Bernardo, alcançara o reconhecimento da crítica. Angústia, publicado enquanto ele penava no presídio, fora recebido com calorosos elogios. Todos eram romances psicológicos.

Seria a história do vaqueiro Fabiano um ponto fora da curva na trajetória de Graciliano? Teriam as “memórias do cárcere” provocado tal inflexão? Parece óbvio que ao narrar a tragédia dos retirantes, Graciliano se inspira em experiências pessoais. As humilhações e violências impostas pelo Patrão e pelo Soldado Amarelo ao vaqueiro Fabiano podem ser reflexos de tormentos vividos na própria pele.  Mas a qualidade literária de Vidas Secas ultrapassa em muito o caráter documental tão ao gosto do público da época.

Seja como for, Vidas Secas não fez sucesso imediato. Só teria a segunda edição em 1947 e a terceira em 1952. A consagração viria após a morte do autor. Com as devidas ressalvas, cito aqui dados pinçados na internet: sete milhões de exemplares vendidos no país e três milhões no exterior, com traduções em espanhol, inglês, italiano, francês, alemão, russo, húngaro, polonês, romeno, tcheco, além de várias edições em Portugal.       

Em vida, além dos quatro romances, Graciliano publicaria três coletâneas de contos, um volume de memórias e dois livros para crianças. A Terra dos Meninos Pelados (1939) e Histórias Incompletas (1946) foram editadas pela Globo de Porto Alegre. Além de Memórias do Cárcere (1954), sairiam ainda oito obras póstumas pela José Olympio, tornando Graciliano Ramos um dos escritores mais lidos e estudados da literatura brasileira.

Mas voltemos a Vidas Secas. Ao retratar a existência de seres humanos massacrados pela natureza e por uma situação social degradante, Graciliano acrescenta uma dimensão mítica à narrativa.  A condição dos protagonistas lembra a de Sísifo, o mortal que desafiou os deuses do Olimpo e foi condenado a empurrar uma pedra montanha acima, sem nunca chegar ao topo.  Como Sísifo, Fabiano e Sinhá Vitória vagam pelo sertão carregando o peso do próprio destino: nunca vencerão, mas jamais se darão por vencidos. 

A estrutura do enredo prende os personagens em um circuito fechado. A situação do primeiro capítulo (Mudança) se repete no último (Fuga). Ao ver o mundo coberto de penas, Fabiano pressente que a pedra voltará a rolar montanha abaixo. Nas últimas frases do livro, ao

revelar o que vai pela cabeça dos retirantes, Graciliano usa, com maestria narrativa, o modo condicional: “Antes da noite, beberiam, descansariam continuariam a viagem com o luar. Iriam para diante, alcançariam uma terra desconhecida”.

Os personagens ficam jogados no futuro hipotético, que é o tempo dos sonhos, mas também das incertezas. No final da história, a tragédia dos flagelados volta ao ponto de partida, ao fechar uma trajetória de tempo que parece avançar em linha reta, mas acaba se revelando perversamente circular.

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