
Desceu a corrente numa frágil jangada de bambu, rasgando a pele nas ásperas rochas que eriçavam o rio e suas margens: com a cabeça raspada, sem armas ou provisões, banido e maldito pela tribo. Em todas as aldeias onde tentou aportar, receberam-no com insultos e pedradas. Aproximava-se apenas para cumprir o ritual e despertar iras; não obteria jamais nenhum auxílio — a ajuda a um exilado constituindo grave ofensa a todas as leis, passível das mais severas punições: a história de sua sina corria mais rápido do que a jangada, e o escárnio e o desprezo das populações ribeirinhas se transformavam em terror generalizado. Precisava enfrentar não apenas insultos indiferença, mas armadilhas e traições.
Embora passasse dia e noite, horas e horas, imóvel no fundo da Jangada, deixando-se levar pela corrente dormia cada vez menos e passou a ter a certeza de que o mal era incurável: estava fadado, como rezava a maldição, a desejar com todas as forças, pelo resto da vida, a paz do sono. Mas apesar de reconhecer sua incapacidade, dispunha-se a sobreviver.
Sua companhia no degredo seriam sórdidos animais, os que sempre temera e que o apavorava me em sonhos: lagartos víboras escorpiões toupeiras ratazanas. Nem o golpe da pata do tigre (que matou com a lança) expondo-lhe as costelas, um rasgo de alto a baixo no tórax, nem o raio que, caído em uma árvore próxima em madrugada de tempestade, prostrou-o sem sentidos no meio da savana, nem as dores que lhe atravessavam o ventre junto com as águas impuras que bebia, nada o intimidava a ponto de tresloucá-lo, como os animais rasteiros que lhe surgiam em sonhos.
No início, sobreviveu comendo gafanhotos e mel silvestre: nada mais as mãos estavam aptas a dar-lhe. Construiu, sem projeto ou ferramenta, uma cabana sobre as árvores que os vendavais da primavera arrasavam quase todas as semanas. Para caçar lebres, coelhos bravos, sorros, nútrias e preás, montou engenhosas armadilhas, concebidas com senso e tino que o surpreendiam. Plantou milho, sorgo, inhame, mandioca, centeio, cevadinha, feijão, trigo mouro, sem nunca atingir uma boa colheita que fosse. A peste devorava as lavouras, grandes, pequenas, não importava a extensão do campo semeado, antes que madurassem em grãos, raízes ou espigas — que, no entanto, chegavam a granar e brotar lindos pendões. Tornou-se destro no manejo da lança da boleadeira do arco e da flecha da zarabatana a ponto de acertar qualquer pássaro em pleno voo ou o peixe escondido entre as rochas da praia.
Nas longas noites passadas sem dormir, tecia precisos e inadiáveis planos de vingança, lembrando em todos os pormenores a vida na aldeia e maldizendo os responsáveis por sua desgraça. Aguçava, hora após hora, a ponta dos dois punhais de osso e ao enterrá-los na areia jurava estar golpeando os inimigos.
Raptou, na orla do deserto, uma mulher muito jovem, de tribo estranha à sua e a manteve cativa por dois anos violentando a diariamente, sem chegar a aprender sua língua e sem conseguir fecundá-la: dizia a praga que morreria sem descendência. Quando se afeiçoou a mulher (contrariando a deliberada renúncia a qualquer sentimento) passou a deixar mais frouxas as correias com que a subjugava; ao sair para a busca do sustento sabia que a colocava em liberdade. E da copa das árvores, do fundo das dunas, do alto das falésias, observava excitado a mulher soltar pés e mãos e correr para a praia, banhar-se nua no remanso, tomar água na concha da mão, correr atrás dos pássaros, depois voltar, amarrar-se ao tronco e esperá-lo com ar de susto. Na noite em que cortou as correias e disse, embora ela não entendesse, que nunca mais a sujeitaria, possuiu-a com um orgasmo que pela primeira vez o saciou e, ao mesmo tempo, foi como se o rompesse por dentro. Nessa noite, após muitas semanas de insônia, adormeceu. Ao despertar a escrava fugira.
Decidiu mudar de morada; temia que ela guiasse até a cabana os parentes, por certo desejoso de vingança. Refugiou-se no mais profundo lamaçal, desdenhado até por caranguejos e lacraus. Bebeu água barrenta o resto da vida, e nunca mais apoiou os pés sobre a terra firme. Malária, falta de ar, diarreia, úlceras e varizes, cabelos brancos, dentes podres, com o passar do tempo, instalaram-se em seu corpo para ficar. Por não ter mais a antiga habilidade em prover o próprio sustento, começou a tortura da fome.
Agonizou durante vinte e três dias, mergulhado na lama do pântano, sem comer ou beber, animado pela impossível esperança de que ainda se reergueria: quando morreu, afinal, o corpo foi partilhado e devorado lentamente pelas bestas contra as quais lutara durante toda a vida.
