
Cheguei em tempo de escravidão. Não lembro nem data nem lugar; só sei que passei a existido aqui mesmo, neste Brasil de Deus, e a verdade não é a da certidão do cartório, que essa eu forjei quando foi preciso: minha certidão de certeza é a vida, é estar vivo e sofrido; ontem, forro, hoje, prisioneiro, mas lúcido da ideia, historiando o que fui e o que vi desde que me dei por gente. O local preciso em que primeiro divisei um facho de luz, isso daí já é outra conversa: bem sei que nasci num cudimundo de mato desses interiores que não apurei ao certo até hoje. Mesmo depois de autodidata estudado em idiomas e geografias, e de percorrido pelas estradas do país inteiro, seja como vagabundo, viajor, marinheiro, capanga, boiadeiro ou motorista de caminhão-jamanta, não consegui descobrir. Mas pergunto: e a mim, preocupa saber onde? É claro que, vez por outra, bateu curiosidade fininha, furadeira, daquelas que ficam verrumando como ferroada de marimbondo, como saudade de mulher amada e, então, me lancei em buscas e pesquisas sem fim, eternamente. Procurando um pé de serra de nascença, muito moço e contente da vida, meti pau na grana ajuntada no garimpo e, ainda, contraí dívidas que nunca tive condições de pagar, na procura do oco de chão em que alumbrei. Mais de ano nessa lida, só colhi infortúnio, desengano e pista trocada. Mas, então? Na flor da minha mocidade, queria porque queria ver as paragens onde a luz entrou, pela primeira vez, nos meus olhos, e onde espantei bicharedo miúdo, com meus choros de moleque. Sentimentalismos, eu sei: mas quem não os tem? O que consegui foi torrar muito capital e assumir moléstias graves, que muito tempo levei para curar, como reumatismo artrítico, opilação, maleita, tifo preto; o que vi de gente tragada pelo cólera, pela tísica, pela febre amarela nesse mundo de Deus, virge nossa senhora. Muita gente. Tenho para mim que, nesse país, é muito pouco o valor que se dá à vida humana, diferença existindo, pra isso de morrer, entre mosca e homem, é um tantinho assim de tão pequena, um quase nada. Muita gente pesteada, inflamada, baleada, caída de andaime, furada de faca, soterrada em vala de construção, amassada em capotamentos, atropelada em ruas e estradas e até finada de fome, morreu no meu ombro, soltou aqui, ó, o último suspiro. Nunca vi lugar pra se morrer de morte besta como esse tal de Brasil. Dá até nojo. Mas vou falando, juntando coisa com coisa, cosendo daqui e dali, e o que importa a minha nascença, vai ficando para trás. Será porque, pergunto, não gosto de lembrar o dia em que vim ao mundo? Quanto mais assunto, menos atino. Diz que minha mãe foi escrava e meu velho, liberto. Ou o contrário. Não acredito. Quando me dei por achado, e olha que me lembro de coisas do meu primeiro ano de vida, minha memória sendo demais de boa, minha mãe era mulata clara e o pai, branco, um tipo até meio alourado que, segundo vim a saber mais além, seria filho de fazendeiro, porém bastardo. Então: vem desse avô torto, fidalgo, meu olho azul. Diz que, também, na minha infância, eu tive e tinha cabelo de palha de milho, tão amarelo que era. Pois sim, acredito: conheci criança que, de ruça virou morena, em adulto. Eu, e isso não me importa nem um pouco, tenho que reconhecer que não é ofensa, nem pecado ou desdouro: sou tisnado. Ou não sou? Mulato do cabelo bom, lábio fino, nariz afilado, mas a pele não nega, herança da minha mãe, ou do velho meu pai: dos dois, talvez. Mas, como eu dizia, naquele tempo tirava-se um homem, uma família, fora da terra que habitavam, assim como quem expulsa um cão ou mata um porco. Chegava o camarada e dizia: olha, o patrão manda dizer que quer esse canto de campo, o recado trazido por um próprio, que dono não falava com agregado, e lá se ia o infeliz com mulher e filhos, e ai de quem desobedecesse, caía um bando em cima, tocava fogo no rancho, arrasava roças, tropeliava criações, enfim, punham uma vida de trabalho por águas abaixo de uma hora para outra, num átimo. Minha mãe me teve em viagem, em cima de uma carreta, a família expulsada das terras em que morava. Nasci, portanto, em momento de desgraça, em noite de tempestade, creio eu. Meu pai contava que levou todo mundo, Vivina, Tutu, João Bosco, Catileia, Garida e Catirininha, para baixo de uma grande mangueira, ou figueira, à margem da estrada, e ficaram, ele e os filhos, esperando que minha mãe me tivesse. Acho que, em virtude do mau tempo reinante na hora em que vim ao mundo, até hoje, e isso confesso, sem pejo ou vergonha, até hoje apavoro com ronco de trovão e barulho de temporal, e houve época em que, perdão da palavra, me mijava nas calças, mal começava trovejando. Assim, segundo ficou na minha ideia, vim a furo num caminho carroçável, estradinha vicinal, em cima de uma carreta, calentado pela junta de bois, único bem, sobrado da mudança, que meu pai conseguiu carregar, em meio à noite de chuvarada, com minha irmandade, uma escadinha, tudo acocrados debaixo de frondosa árvore, tremendo arrupiados do frio que fazia, meu pai, no desespero de ter família enorme pra dar sustento, talvez desejando, meio arrependido, que o mais novo rebento nascesse falecido. Foi de madrugadinha, quando rompeu a aurora e calmou o tempo, eu já tinha saído do ventre materno, mas gelado e silencioso, que apareceram três viajantes a cavalo, que vinham pelo caminho guiados por uma estrela de rabo aparecida naquele tempo, aliás, eu próprio tive ocasião de apreciar, mais tarde, o tal cometa; pois os três se achegaram com a manhã e vieram ver o nascente abandonado da quentura do útero, que tremia de frio, muito roxo, caladinho como para morrer, e os homens em cavalos muito bem arreados, com selas de couro novo e aperos de prata, parecendo príncipes, ou reis, pediram licença ao pai para velar o recém-chegado. Somos viajantes do destino e Deus, com sua estrela, nos disse que uma criança viu a luz no meio dessa noite de tempestade e que precisava de nós e, assim, se o senhor, que é pai, nos der licença, vamos ajudar para que saia desse transe e entre de vez na vida, de pé direito e cu pra lua.
