
Certa vez, mexendo na pasta em que meu pai guardava papéis antigos, deparei com um documento com o título “Salvo Conducto”. Tinha o nome e o endereço dele, e a data: 3 de outubro de 1930. Perguntei do que se tratava. Ele me explicou: era a autorização para atravessar a velha ponte de madeira, sobre o arroio Dilúvio e seguir para casa, na Rua Centenário, divisa do bairro da Azenha com o Menino Deus. O motivo: tropas rebeladas contra o Governo Federal patrulhavam a área, controlando as saídas da cidade. Estava em pleno curso a Batalha de Porto Alegre. Havia resistência dos legalistas no Quartel do Sétimo Batalhão de Caçadores, na Praça do Portão, nos quartéis do Morro do Menino Deus e na Segunda Companhia de Estabelecimentos, situada na Rua Vieira de Castro, proximidades do Colégio Militar.
Prestes a completar dezesseis anos, meu pai, aprendiz de ourives na Casa Masson, era muito jovem para participar da luta, mas vibrava com a consigna “Rio Grande, de Pé pelo Brasil”. Dispensado do trabalho no início da tarde, andava pela Rua da Praia quando o Quartel General da Terceira Região Militar foi invadido, marcando o início da Revolução que levaria Getúlio Vargas ao poder.
Outros familiares participaram dos acontecimentos. Meu tio, Pedro de Freitas Filho, dezoito anos, recém incorporado à Guarda Civil, viu-se em uma barricada armada de metralhadoras diante do prédio dos Correios, na Praça da Alfândega. O tio avô, Justino de Freitas, sargento da Carta Geral, se incorporou ao levante no Morro do Menino Deus.
Essas histórias ouvidas na infância, incluindo a de um parente que, no cerco de Itararé, viu um companheiro tombar fulminado sobre o panelão que levava o rancho para os camaradas na trincheira, me motivaram a escrever sobre a participação dos gaúchos no movimento que pôs fim à decrépita Velha República.
Nascia, assim, A Batalha de Porto Alegre, um livro que reproduz os acontecimentos iniciados na capital gaúcha a 3 de outubro de 1930, abrindo as portas do século XX para o Brasil. Na verdade, a luta travada nas ruas da leal e valerosa metrópole sulina alastrou um incêndio que lavrava há quase uma década nos porões da Velha República. O Levante do Forte de Copacabana (1922), a Revolta Paulista (1924) e a Coluna Prestes (1925/1927) prenunciavam a insustentabilidade da carcomida oligarquia política que dominava o País na base do café com leite. A crise econômica que abalou o mundo em 1929 foi a pá de cal no antigo regime. Vieram as eleições presidenciais, com o povo nas ruas exigindo mudanças. O paulista Washington Luís, presidente de turno, insistindo em fazer seu sucessor, fraudou as eleições.
Getúlio Vargas, candidato da oposição, finge aceitar a derrota, enquanto os correligionários articulam uma conspiração para derrubar o governo. O drama se inicia no dia 3 de outubro em Porto Alegre e termina com a vitória da Revolução um mês depois, no Rio de Janeiro.
Esta é a história contada em meu primeiro livro sobre os gaúchos na Revolução de 30. A luta, porém, não termina aí. A frente ampla que levou Getúlio ao poder logo começa a rachar. As medidas autoritárias impostas pelo novo governo provocam descontentamentos. Os conservadores que aderiram à Revolução e os “carcomidos” do antigo regime tentam impedir as reformas econômicas e sociais que o País reclama. Os progressistas apoiam a ditadura, os liberais exigem a volta da democracia. Equilibrando-se na corda bamba, Getúlio promete, mas empurra com a barriga a convocação de uma Assembleia Constituinte. Quer, primeiro, tornar irreversíveis as mudanças modernizadoras.
Nesse clima, os conservadores paulistas se lançam na aventura que mergulharia o País na guerra civil e que passaria à História com o rótulo de Revolução Constitucionalista de 1932. Na verdade, uma contrarrevolução que propunha o retorno da Velha República, cuja constituição negava o voto secreto e tratava as reivindicações da classe trabalhadora como caso de polícia.
Derrotada a insurreição paulista, são convocadas eleições para eleger a Assembleia Nacional Constituinte em 3 de maio de 1933. O pleito marcaria o fim da ditadura, o que não convinha aos conservadores, já que a vitória do governo era praticamente certa. Em outras palavras, o programa de reformas prosseguiria. O único meio de deter a Revolução era, mais uma vez, o recurso à violência.
Na noite de 25 de abril, oito dias antes da eleição, o automóvel em que viajava Getúlio Vargas em companhia da esposa, dona Darci e do filho caçula, Getulinho, sofre um mal explicado acidente na estrada Rio-Petrópolis. O chefe do governo e a primeira-dama ficam gravemente feridos. O capitão Celso Pestana, ajudante de ordens, morre no local. O menino e o motorista escapam ilesos. A morte de Getúlio, que chegou a ser noticiada, jogaria o País numa crise política que levaria ao cancelamento do pleito de 3 de maio.
Acidente ou atentado? Essa é a pergunta, até hoje sem resposta, que me inspirou a escrever O Mistério da Estrada de Petrópolis, meu segundo romance sobre os gaúchos na Revolução de 30.
Fica aqui meu convite para você ler e tirar suas próprias conclusões.
