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Do difusionismo à dialogia democrática

Do difusionismo à dialogia democrática

Por Cremilda Medina

O texto que a seguir recupero foi escrito para uma  participação  pública no Brasil celebrando os 50 anos da instituição de pesquisa latino-americana CIESPAL, em 2009. Torna-se oportuna a memória do Centro Internacional de Estudos Superiores de Comunicação para a América Latina (CIESPAL), implantado em Quito, Equador, em 1959, porque as sementes de pesquisa acadêmica do Jornalismo iriam repercutir inclusive na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP) que, em 2026, comemora seus 60 anos. E foi no Departamento de Jornalismo da ECA que José Marques de Melo (1943-2018), um docente da USP, especializado no CIESPAL, introduziu a metodologia de pesquisa de Jornalismo Comparado nos primeiros anos de 1970. A proposta seguia os primeiros rumos acadêmicos de autores latino-americanos, registrados na publicação intitulada “Dos semanas de la prensa de América Latina” (Quito, primeira edição de 1967), sob a direção geral de Jorge Fernandez e edição de Marco Ordoñez Andrade. Daí em diante, sucedem-se linhas de pesquisa latino-americanas que vão se aprofundar e expandir nos cursos de pós-graduação em Ciências da Comunicação, de que a iniciativa da USP em 1972 é pioneira. É nessa trajetória em que me envolvi e passo a recuperar.

Às vésperas de um momento crucial de sua vida, Friedrich Nietzsche, que seria internado em um hospital psiquiátrico três meses depois, escreveu o livro “Ecce homo” (2006). Em 1880, o filósofo que se caracteriza pelo discurso polêmico, decidiu falar de sua própria vida. Aos 40 anos, se permitiu o testemunho existencial, o confessional sem pruridos conceituais. A certa altura, propõe numa edição publicada em Madri:

Se me preguntará cuál es la auténtica razón de que yo haya contado esta cosas pequeñas y, según el juicio tradicional, indiferentes; al hacerlo me perjudico a  mí mismo, tanto más si estoy destinado a representar grandes tareas. Respuesta: estas cosas pequeñas – alimentación, lugar, clima, recreación, toda la casuística del egoísmo – son inconcebiblemente más importantes que todo lo que hasta ahora se há considerado importante. (2006, pág. 59)

Também me permito, no presente texto, partilhar com o leitor que me honrar com sua presença, pôr em relevo a experiência, as coisas pequenas, o cotidiano das trajetórias individual e coletiva. Se o CIESPAL ao celebrar 50 anos no XIII Colóquio Internacional sobre a Escola Latino-Americana de Comunicação, reuniu pesquisadores em Marília (SP), em maio de 2009, para exporem a herança dos estudos midiáticos no Continente, pressinto certa coerência nos fios tecidos nas quatro décadas de protagonismo em que me incluo.

No segundo semestre de 1972, saio em viagem da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo e mergulho, pela primeira vez, no universo latino-americano. Quito, Equador, sede do CIESPAL: os Andes, a adaptação dos primeiros dias à altitude, a Vieja Quito e calle Amazonas, avenida moderna, que haveria de palmilhar durante dois meses. O Centro de Estudos era apertado na época, mas o pequeno auditório me ofereceria um convívio de los hermanos hispano-americanos. Falar português com eles, parceiros de comunicação? Nem pensar. Exigiriam que eu aprendesse o espanhol. (O tempo superou essa barreira, pois hoje se fala com tranquilidade a língua comum, o portuñol.)

Sim, o primeiro aprendizado não foi nem técnico (ferramentas profissionais), nem fenomenológico (ciências da comunicação) nem humanístico (sociologia, antropologia, filosofia). A imersão se deu na cultura, nas identidades em que a língua abre as portas da compreensão. Se os conceitos procuram circunscrever a experiência em teorias, a vivência cultural do cotidiano provoca a curiosidade e o acesso a noções abertas sobre o Outro. O diálogo com minha companheira de pensão, a chilena Cecília Burgos, me introduziu no horizonte do extremo Sul. O Chile de Salvador Allende era até então indecifrável, o que sabíamos desse país em ebulição que, no ano seguinte, cairia numa feroz ditadura, era muito pouco diante do que a palavra e o gesto de Cecília me revelavam. Lembro – essas pequenas, grandes coisas como diria Nietzsche – de que trocamos presentes como o fariam os ancestrais indígenas. Por exemplo, ela me deu um casaco de inverno, não estava preparada para o frio intenso das noites de Quito. E aí constatei: que indústria qualificada, essa da matéria-prima, da tecelagem, do corte e costura. Até aí achava eu que só na Europa encontraria tal produto. Foram tantas as descobertas que, muito motivada a conhecer a terra de minha amiga, combinei de, em 1973, programar a viagem com meu companheiro, Sinval Medina. Mas o ano seguinte foi trágico e, perante o sofrimento que se abateu sobre o povo chileno, adiei a viagem até a queda de Pinochet. Só então pude visitar e revisitar o extremo do Cone Sul. 

Não só a vizinhança de pensão que me iniciava ao Chile. No curso de especialização do CIESPAL, os dois chilenos eram muito solicitados na troca cultural dos intervalos de aula. Aquele momento culminante do projeto Allende mobilizava a atenção dos latino-americanos. O que não quer dizer que principalmente os brasileiros não quisessem saber tudo da América Central, da Venezuela, da Colômbia, do Peru, do Paraguai, da Bolívia. Uruguai e Argentina já corriam nas veias abertas da América Latina, não representavam tantas surpresas. Por outro lado, o mergulho do Equador profundo foi a grande lição, não propriamente os cursos em série de conferências que vinham dos Estados Unidos, da Europa e da então União Soviética: uma enxurrada de manuais difusionistas, sociologia quantitativista, teoria crítica da comunicação social, metodologias de pesquisa quantitativistas. A memória ficou marcada por um módulo de um professor da Columbia University, sucedido por um módulo de um professor da Universidade de Moscou – ambos ditados pela mesma concepção funcionalista pré-análise de Merton (1970), que tão bem soube comparar virtudes e limitações do funcionalismo norte-americano e da sociologia crítica europeia.

Durante a semana, os estudos; no fim de semana, os passeios pelo Equador. Nas aulas, os latino-americanos mais inquietos, em que me enquadro, sem censura, questionavam o discurso do Outro, pois a coceira da Nova Ordem da Informação provocava a constante pergunta: por que os do Sul tinham que ser colonizados pelos cérebros do Norte? Por que a metodologia, as teorias explicativas, a conceituação delimitada não se abriam às inovações da América Latina? O laboratório pedagógico corria em paralelo ao formalismo do curso expositivo. Em meio à rebeldia subterrânea, irrompeu uma interlocução dialógica. Por incrível que pareça, com o próprio diretor do CIESPAL, o teórico equatoriano Marco Ordoñez. Aqui lhe presto uma homenagem, pois soube ele ouvir os reclamos dos ciespalinos do início dos anos 1970, o que preparou o caminho para uma prática e teoria da autoria latino-americana. Já durante essa década, alguns de nós voltávamos para dar cursos e, principalmente, coordenar pesquisas com novas metodologias – o signo da difusão migrou para o signo da relação.

Convém fazer um breve retrospecto da inquietude levada ao recinto da especialização no CIESPAL. Havia desembarcado um ano antes na Universidade de São Paulo (USP). Professora na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), contratada em 1967, tive notícia em fins de 1970 que a USP abriria o primeiro curso de pós-graduação da América Latina. Em dezembro desse ano venho colher informações e conheço José Marque de Melo, chefe do Departamento de Jornalismo da Escola de Comunicações Artes. Muito ao seu generoso feitio, de imediato convidou a possível migrante para se mudar para São Paulo e trabalhar na ECA. O curso de pós só seria implantado em 1972, mas comecei a dar aula na USP em 1971. Por que queria eu fazer pós-graduação (seria a primeira mestre do curso em 1975), se havia à época o direito de defender doutorado pelo meu tempo de magistério superior? Queria porque queria desde o primeiro momento da UFRGS, ao reconhecer que professor universitário não é digno desse estatuto, se apenas passar aos alunos as técnicas de trabalho, o que já tinha certo domínio, pois me profissionalizei em 1961. Quando o estudo permanente ocupa o lugar da ascensão na carreira profissional (como comunicadora no mercado ou como docente na universidade), surgem constantes inquietudes reflexivas e necessidade de mudança de comportamentos.

A formação humanística dos cursos de Letras e de Jornalismo na Universidade Federal do Rio Grande do Su (UFRGS), no início dos anos 1960, o aprendizado técnico nos laboratórios acadêmicos e no mercado de trabalho, a busca de qualificação na pesquisa e na teoria da Comunicação Social já na Universidade de São Paulo (USP) confluíram com a experiência concentrada em dois meses no Equador no início dos anos 1970 e, a seguir, um mês na Colômbia, onde fui estagiar no Centro de Estudos sobre Divulgação Científica. Não estava no grau zero nem das teorias, nem da metodologia de pesquisa à qual fui iniciada pela via de análise de conteúdo nas mídias da comunicação coletiva, sob orientação de José Marques de Melo, em 1971, na ECA/USP. Sem demérito desse significativo aprendizado, logo transcenderia os estudos quantitativos para uma contextualização sociocultural do Jornalismo, tema da dissertação de mestrado, que viria a constituir meu segundo livro (1978). O projeto que trouxera de Porto Alegre, sob o título da “Estrutura da Notícia”, se transformou, depois da experiência de USP, do CIESPAL e da vida profissional cerceada pela ditadura militar, em um estudo sobre o Jornalismo na sociedade industrial – “Notícia, um produto à venda” – que deslizava do estruturalismo para as teorias culturais, sem perder de vista herança sociológica da análise crítica (europeia) da informação jornalística.

Apesar das circunstâncias da censura e da repressão, dava meu depoimento como pesquisadora e jornalista militante nos debates acalorados com meus colegas ciespalinos, chamando o foco para as contradições e não para o maniqueísmo. Se a notícia era um produto industrial, hoje um produto pós-industrial, a representação do real em uma narrativa se dá em um contexto simbólico atravessado por múltiplas forças e não apenas conformada por um determinismo econômico-político. Foi duro discutir essa complexidade na ECA dos anos de chumbo ou em Quito, no CIESPAL, onde imperava a dicotomia difusionismo/teoria crítica ou em qualquer outro fórum onde se debatiam, ao longo dos anos 1970-80, a censura e a livre-expressão. Mas o que quero reforçar: a estante de autores latino-americanos, fruto das inquietudes do Sul perante a hegemonia bibliográfica do Norte, reuniu em Quito o pensamento local. Rendo mais uma homenagem ao CIESPAL, quando me pediu para escrever um livro sobre o papel do jornalista na sociedade. Elegi a vertente da responsabilidade social do mediador-autor das narrativas da contemporaneidade. Reflexão à margem do tempo: hoje, na era digital, prossegue a pesquisa e a fé na responsabilidade social do jornalista, cercado pelo difusionismo de repórteres cidadãos

Quero voltar às pequenas experiências do cotidiano, quando, nos fins de semana, me ilhava nas excursões aos pueblos do Equador. Meus colegas do CIESPAL, em geral jornalistas, assessores de imprensa, professores de comunicação, preferiam ir à praia e descer de Quito a Guaiaquil. Mas eu preferia Otavalo, Latacunga, Cuenca… Mas antes de viajar para o interior, havia a história e a contemporaneidade da capital equatoriana. A Quito Vieja seria a primeira cidade-monumento do patrimônio da humanidade, escolhida no programa da Unesco que, mais tarde, incluiria Ouro Preto na lista. (Me envolvi de tal forma nesse processo que levaria a Paris, em janeiro de 1981, ao então secretário de Cultura do MEC, Aloísio Magalhães, cópia do dossiê de Quito que colhera em 1979, para colaborar no pleito brasileiro. Não sei se ajudou ou não, mas o secretário saiu vitorioso.) À paixão pelo patrimônio histórico brasileiro se somou, nos anos 1970, o interesse e afeto pelas marcas hispano-americanas. E Quito foi uma lição viva.

Sentimentos contraditórios, porém. Ao entrar, nos fins de tarde, na Igreja de São Francisco, no centro histórico de Quito, e perceber a suntuosidade do ouro e do barroco, saltava o contraste com o povo indígena acendendo velas e orando por dias melhores. O que mais me tocava era aquela gente “mirradita”: onde estavam os primeiros habitantes guerreiros? Os séculos de dominação e o álcool introduzido pelos conquistadores fizeram deles uma sombra triste de humanidade que nem a luz das velas da catedral engrandecia. (Num entardecer, lembraria hoje a frase caboverdiana que conheci depois – no desamparinho da tarde -, depois das aulas no CIESPAL, sentei num banco da igreja, os quiteños pobres desfilavam rezando e acendendo velas nos altares, chorei.)

Não foi por acaso que conheci Otavalo. Um jornalista equatoriano, que fazia o curso de 1972, me falou de sua gente – uma cultura indígena que resistiu à Conquista, se ilhou nos Andes e partiu, com autonomia, para a sobrevivência comercial de seus produtos. Trouxe para o Brasil uma reportagem (publicada no Jornal da Tarde em dezembro desse ano), cujo título, Os Fenícios da América, ensaiava representar essa saga dos otavaleños, no sentido oposto da miserabilidade dos fiéis da Igreja Matriz de Quito. Quem encontrar os índios de Otavalo, nas comunidades andinas ou na feira de sábado da cidade, vai constatar pelo porte físico e a atitude altiva que eles não se deixaram dominar. Criaram uma estrutura de resistência e de trocas; montaram uma cadeia de comércio que atravessou séculos de colonização e chegou à atualidade. Assim, nas décadas posteriores, encontrei otavaleños em Londres, Nova York, Rio de Janeiro ou em Higienópolis, o bairro onde moro em São Paulo. Seus produtos coloridos são inconfundíveis. Discretos caixeiros-viajantes, ficam deslumbrados quando lhes digo que já estive lá na montanha, visitando uma comunidade andina, cujo líder tinha ido estudar Ciência Política nos Estados Unidos.

Quando voltei do Equador (a primeira viagem), os profissionais do Jornal da Tarde não compreendiam o entusiasmo com que contava essa e outras histórias. Ainda bem que a sensibilidade de Murilo Felisberto (1939-2007), outra homenagem que faço, editor-chefe do jornal, gostou da narrativa de Otavalo. Dessas incursões nos Andes, não pode escapar outra grande aventura, dessa vez inspirada em um mestre da primeira pós-graduação da América Latina, Egon Schaden (1913-1991). Sua presença no aprendizado de antropologia é tão viva que não preciso detalhar a terceira homenagem póstuma. Além do desbravamento das teorias culturais que iniciara na USP na primeira disciplina que fiz com Schaden antes de ir para o CIESPAL, ele compareceu a Quito para oferecer um seminário. Muito informado da cultura local, me convidou para irmos no fim de semana a Latacunga, acompanhar a festa tradicional La Mama Negra

Imaginem-se índios pintados de negros com ricas fantasias dançando em ritmo de tambores; na frente, a cavalo, la mama negra com um boneco no colo; o desfile, verdadeiro carnaval dos Andes, segue até à igreja matriz de Latacunga e espera os católicos saírem da missa para chegar à apoteose da festa de libertação dos escravos. Acontece que a população negra ficou concentrada no litoral e a cidade desta celebração está nos Andes; mas os índios se travestem de negros e comemoram o fim da escravidão negra. E mais, a igreja católica considerava, até onde acompanhei, um rito pagão e todos os anos os índios desafiavam os padres à porta do templo na missa de domingo. Schaden e eu fomos no sábado para as casas dos festeiros, vimos os preparativos, sentamos no chão e fomos convidados para a roda da chicha, a bebida indígena fermentada do milho. O antropólogo me fez experimentar o trabalho de campo. Na sala de aula do CIESPAL, falávamos das teorias sociológicas da comunicação; em Latacunga, senti o gosto da chicha, o cheiro da casa indígena, as cores da Mama Negra, o gesto das danças, o som dos tambores. Tudo unido me fez compreender a importância da produção simbólica

Ao me aproximar de Néstor Canclini, em especial o texto panorâmico da noção de cultura em As Culturas Populares no Capitalismo (1981), partilharia a compreensão de que as narrativas da contemporaneidade produzem e articulam sentidos perante o caos da realidade que nos cerca e invade. Diria, em um congresso internacional na antiga Iugoslávia, em 1990, um ano antes da guerra, que o jornalista é um leitor cultural. É essa leitura que se traduz numa produção simbólica. Vejo à distância do tempo e do espaço, quanto aprendi nas viagens pelo Equador, quanto transpus o aprendizado do trabalho de campo da antropologia para a reportagem jornalística. Se desde a graduação havia optado pela condição de viajante em busca do signo da relação, os estudos dos primeiros anos da década de 1970 acresceram um grão de consistência ao estar afeto a no âmbito da teoria e práticas culturais.

Não fora a circunstância política da ditadura militar e não teria interrompido esse percurso acadêmico uspiano. Em maio de 1975, com a cassação de Sinval Medina, Walter Sampaio (1931-2002), Paulo Roberto Leandro (1948-2017) e eu deixamos o Departamento de Jornalismo e Editoração da ECA. Uma ruptura dolorosa em tempos de ameaças e riscos da integridade física e intelectual. Segue-se o mais longo período de dedicação plena ao jornalismo, dez anos no Estado de S. Paulo.  Na prática diária de uma editoria de Artes (oito anos como editora), a experiência política dos agentes culturais em confronto com a censura e a repressão me pôs à frente de cotidianos desafios. As dinâmicas sociais na luta pela redemocratização no Brasil dos anos 70 para os anos 80 receberam enorme contribuição dos artistas e O Estado de S. Paulo, enquanto empresa jornalística, soube acolher o grito dos desajustados. Estou citando o contexto da Primeira República, tema de Nicolau Sevcenko em sua tese de doutorado, em que provoca o interesse pela literatura para aí colher o desejo de uma outra história. O autor se vale, no caso, de Lima Barreto e Euclides da Cunha , tese que foi registrada em livro (1983). No dia a dia da editoria de Artes, além da resistência das obras, os artistas se organizavam para enfrentar o arbítrio: brincávamos no meio da tarde, lá vem o manifesto das cinco.

O enlace com a América Hispânica não desapareceu. Se não retornava nem mesmo em visita à USP, prossegui nos itinerários latino-americanos. Peru, México, Venezuela, Costa Rica e, claro, Equador. Em 1979, o CIESPAL celebrava sua nova sede e lá estava eu para a festa. Uma dupla festa, porque entre as ditaduras militares do Continente, o Equador era o primeiro país a se redemocratizar. Dessa vez elegi Guaiaquil como viagem interna, não para ir à praia, mas para entrevistar o presidente eleito, Jaime Roldós (1940-1981).

 Apesar do tônus político do momento, conjugava-se na oficina jornalística a interdisciplinaridade das ciências sociais com as artes. E foi a ênfase humanística, cultural, que me imunizou da “neoapatia” das tecnologias. No alvorecer dos anos 1980, começa a febre do computador, da informática, da telemática. Os arautos da Era Digital tomarão conta do imaginário das elites. Enquanto a inteligência natural ralava nas ruas em manifestações e comícios, os tecnólogos se ilhavam na expansão e propaganda da inteligência artificial. Ainda bem que ambas se reconciliaram no fim do século passado e amanhecemos no século XX conscientes de que a produção simbólica corre à frente da produção mecânica, esta, sem dúvida, precioso suporte dos sentidos que atribuímos ao mundo e da partilha democrática que se acelera e se estreita nas redes inteligentes.

Mas foi difícil manter essa chama. Ao voltar à Universidade de São Paulo (USP) em 1986, muitos estragos seriam irrecuperáveis. O retorno, pleno de afetos e expectativas positivas, não se realiza na concretização de nostalgias. O ambiente dos anos 1970 se dissipara. Aos poucos se foram os mestres do primeiro curso de pós-graduação. Na América Latina, às voltas com seus projetos de construção democrática e desenvolvimento socioeconômico, o CIESPAL  não ocupava mais o lugar de destaque nas escolhas acadêmicas – os pesquisadores preferiam especialização tecnológica nos Estados Unidos ou sociologia da comunicação na Europa. Teorias Culturais? Nem pensar. Sentia-me estrangeira trabalhando sociedade, cultura e mito com meus alunos. A sorte é que eles adoravam o contato com a arte, na graduação ou na pós-graduação. As novas ferramentas de trabalho em nada impediam o prazer do livro. Lembro de uma disciplina da pós, há quase vinte anos, em que fruímos o romance latino-americano. Renato Seixas, mestre e doutor pela USP, hoje professor aposentado da mesma universidade, à época advogado, seguidamente me cobra esse programa que tanto  o marcou.

Como omitir o ato de resistência da cultura artística numa época de cultura mecânica? E foi a experiência do Programa de Pós-Graduação em Integração da América Latina (PROLAM) que muito me estimulou. Implantado em 1988 na USP, logo me agreguei ao projeto que já atingiu a maioridade quando escrevo este texto. Seria o CIESPAL que me motivara? Certamente. Depois dos dez anos no Estadão que me levaram a viajar pela Europa, Estados Unidos, África e a então União Soviética, voltei entusiasmada à latino-americanidade. Uruguai, Chile, Argentina, Peru, ah, que bom reencontrar o espetáculo dos Andes e o rosto mestiço dos caminhos do Hemisfério Sol. Desta vez em tempo integral dedicada à universidade, assumi definitivamente a conjugação da repórter e da educadora. Uma aluna de pós-graduação, que faz doutorado no Canadá, me intitulou, em 2009, praticante do empirismo radical. Alguns podem não gostar, mas de minha parte, que outra denominação serviria para o mergulho de cabeça na cena viva contemporânea para daí emergir com interrogantes reflexivas?

Tais interrogantes ganharam outra dimensão com a pesquisa inter e transdisciplinar das últimas décadas. Se em narrativas da contemporaneidade o projeto culminante com alunos de graduação foi a série São Paulo de Perfil, livros de reportagem-ensaio que têm mapeado de 1987 a 2008 – 27 edições temáticas – os contextos paulistas, os seminários interdisciplinares da pós-graduação vêm debatendo, desde 1990, o discurso fragmentalista da ciência e a crise de paradigmas. As edições publicadas propõem um adensamento do diálogo social, das mediações entre ciência e sociedade e da autoria inovadora. Nas redes à distância ou de conexões presenciais, aparece com nitidez a voz latino-americana, brasileira e paulista seja em temas como o mundo do trabalho (1995) ou energia e meio ambiente (2009). Um dos seminários a que compareci, em Buenos Aires, com a presença de europeus como Ilya Prigogine e Edgar Morin, deu oportunidade de se verificar o acerto dos debates assumidos pelos autores inquietos do Hemisfério Sol, segundo registro do Projeto Plural e a Crise de Paradigmas (1993).

Do saber local, outra maneira de nomear o saber cotidiano, se aprende muito na aventura humana de São Paulo. Daí as narrativas de mais de 500 autores, na Série São Paulo de Perfil, trazerem para as páginas impressas de 27 livros o imaginário das ruas, as marcas identitárias dos migrantes, o rosto mestiço, o enfrentamento urbano, as raízes culturais e o desejo mítico de melhor qualidade de vida. Ir ao encontro do Outro, ainda que vizinho, revela a condição humana do presente, traz à tona a memória das biografias e projeta o sonho do futuro. Embora a contemporaneidade da narrativa, os tempos e os espaços histórico-culturais se entrelaçam.

Nesse sentido, a volta à universidade em 1986 valeu mais do que os desgostos das circunstâncias adversas. A solidária cadeia interdisciplinar trouxe energias muito positivas: físicos, matemáticos, biólogos, químicos, médicos, dentistas sacodem, com suas experiências de ciência dura ou empirismo radical, as platitudes cristalizadas das ciências sociais, da educação, da arquitetura ou da engenharia. Tem sido um convívio nada agressivo, mas um intercâmbio enriquecedor. É uma honra o lugar do comunicador nessa mediação dialógica. Daí resulta o que venho insistindo nos últimos anos: mais importante que laboratórios técnicos de mídias impressas, eletrônicas ou digitais são os laboratórios epistemológicos. As ferramentas mentais se atrofiam se deixarmos de cuidar delas para só se dedicar ao treinamento das máquinas. Aprende-se muito com os neurocientistas como António Damásio (1994) ou com Gil Taylor (2008), entre muitos outros.

Um breve sumário das pautas do laboratório epistemológico nos vem da pesquisa batizada com a denominação geral Saber Plural. Na interação inter e transdisciplinar, se colhem, por exemplo, subsídios para concretizar a relação sujeito-sujeito; aplicar aos fenômenos naturais ou sociais a busca da intercausalidade; compreender a noção de processo e as contradições inerentes ao processo; captar polifonia e polissemia no diálogo social; cultivar a autoria na produção simbólica, não importa em que suporte. Ao longo de um trabalho na graduação, na pós, na especialização ou breves oficinas, a mutação de vícios mentais – relação sujeito-objeto, monocausalidade, dicotomias, voz oficial ou significados do poder, burocratização das fórmulas sem a autoria inovadora – leva o educando e o educador às potencialidades da inteligência natural. A narrativa da contemporaneidade irradia então brilho poético em meio ao discurso opaco do noticiário sobre o presente.

O Ciespal ficou para trás? Décadas se passaram e a vertente cultural da América Latina subsiste como o principal eixo dos estudos teóricos e das práticas narrativas na Comunicação Social. Dos mitos fundadores aos desejos coletivos das sociedades contemporâneas, não há como se mover física ou digitalmente, sem os símbolos dos povos vocalizados nas personagens literárias. Como jornalista, o gesto da arte me aproxima da dialogia da viagem ao Outro. A formulação de teorias da comunicação se fecunda nos encontros vivos. Podem analisar, e o estão fazendo, as vantagens da velocidade no tempo e dos encurtamentos das distâncias nas mídias digitais, mas teorias assépticas que dispensam o contato direto, corpo a corpo, não mobilizam os sentidos da compreensão, da interação criadora. Razão tem o colombiano Luís Carlos Restrepo quando denuncia o analfabetismo afetivo (1994). No dia em que uma rede digital me oferecer tato, olfato, paladar, além da visão fragmentada e das frases descontextualizadas que oferece hoje, talvez abdique do encantamento da rua. Afinal, a alma encantadora das ruas que motivou João Rio a sair das redações do início do século XX para se encontrar com a gente miúda e o cotidiano cariocas, nos doou além de narrativas preciosas, uma metodologia da reportagem.

Volto, pois, ao CIESPAL: para além dos conteúdos explanados no curso de especialização de 1972, ficou impregnada nos ciespalinos a experiência do que é ser latino-americano, com o Brasil incluído. As viagens que se sucederam, as buscas bibliográficas de autores do Continente e o trabalho jornalístico nunca mais partiram do princípio de eles – latino-americanos – e nós – brasileiros. Parece ingênuo, mas enunciar um todo é tão difícil para os hispano-americanos quanto para os brasileiros. Por isso, o significado do Programa de Pós-Graduação em Integração da América Latina (PROLAM) dentro do universo europeizado da Universidade de São Paulo (USP). CIESPAL e PROLAM representam na saga tormentosa do conhecimento científico e da ação transformadora um legado que mereceria melhor sorte no contexto de ambas as instituições. Muito apreciaria que as autoridades proporcionassem condições para uma sobrevivência tranquila e criativa para lá dos 50 anos de um e 21 do outro. 

Referências bibliográficas

(Por ordem de citação.)

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