
Ainda menino, quando comecei a escrever, tudo o que pretendia era contar histórias. Alimentada por leituras que iam de Monteiro Lobato a Conan Doyle, passando por Emilio Salgari e Julio Verne, a imaginação me permitia narrar caçadas na África, descobertas de civilizações perdidas e voltas ao mundo num piscar de olhos. Esta fase ingênua, em que não me perguntava por que ou para que escrevia, durou toda a adolescência. Com o engajamento no movimento estudantil, no início dos anos sessenta do século passado, acreditei que a literatura tinha uma função. E esta função era naturalmente política.
Com a sociedade mergulhada no profundo conflito ideológico que antecedeu o golpe militar de 1964, tremulava na universidade a bandeira da arte engajada. Lembro aqui o programa dos CPCs (Centros Populares de Cultura) da União Nacional dos Estudantes – UNE, segundo o qual a arte devia atuar como uma espécie de braço estético da revolução. As manifestações artísticas seriam correias de transmissão destinadas a conscientizar, doutrinar, desalienar a massa explorada, levando-a a rebelar-se contra a injustiça imposta pelos opressores.
Tal concepção orientava minha visão sobre o papel social do artista e, ao mesmo tempo, condenava-me a uma angustiante paralisia criativa. Introspectivo, tímido, voltado mais para a leitura e a reflexão do que para as experiências concretas, de onde tirar material para as minhas ficções? De passagem, recordo que, à época, era petição de princípio a noção do “viver para escrever”, levada às últimas consequências pelos novelistas da lost generation norte-americana. O escritor tinha de protagonizar, ou pelo menos testemunhar os fatos que transformava em ficção. “Como um sujeito que nunca levou um soco na cara pode descrever uma luta de boxe?” Eis uma pergunta que eu não tinha como responder. Minha vida era muito “normal” para me proporcionar vivências transformáveis em grandes temas literários. Nessa época, eu pensava que talvez jamais chegasse a escrever um simples conto, muito menos um romance digno de publicação.
Esse fantasma assombrou a minha trajetória de ficcionista até os anos 70, quando o contato com autores que fugiam ao padrão do “viver para escrever” começou a mudar minha perspectiva. Cito, apenas a título de exemplo, entre os muitos escritores que me abriram novos horizontes, Borges, Kafka e Juan Rulfo. Ao mesmo tempo, novas ideias sobre o papel social da arte me faziam deixar de lado a visão utilitarista da prosa de ficção. Passei a defender, com Jean Paul Sartre, que a arte em geral e a literatura em particular constituíam uma forma de conhecimento do mundo real. Para ser mais preciso, Sartre falava de revelação. A frase chave do conceito é: “a literatura não deve mostrar o visível, mas tornar visível”. Ficava assim relativizada a noção segundo a qual cabe ao escritor reproduzir a realidade, denunciando em suas tramas ficcionais a opressão e as injustiças sociais. Era preciso ir além.
A visão sartriana parecia um bom antídoto contra os exageros do chamado realismo socialista, produto extremado da instrumentação política da literatura. Não chegava, contudo, a demarcar um espaço autônomo para a criação artística, na medida em que atribuía a ela o papel de criadora de conhecimento. Tratava-se, visivelmente, de rivalizar com a ciência, atribuindo à arte voz cantante no escrutínio da realidade. Em resumo, literatura e ciência, com diferenças metodológicas, abordavam o mesmo universo, ou seja, o mundo objetivo – único reconhecido como “verdadeiro” pelo pensamento materialista-racionalista ao qual eu me filiava na época.
Ora, tanto a perspectiva instrumental ou utilitária como a visão cognocitivista confinam a criação literária ao território da razão e da consciência, atrelando-a às virtualidades lógico-analíticas do cérebro humano. Isso se deve ao fato de que, antes da formulação do conceito de insconsciente por Freud, o Iluminismo transformara o homem em máquina pensante. O cartesiano “penso, logo existo”; a separação do ser humano em duas entidades distintas – corpo e mente; a visão do cérebro como mecanismo regulador do comportamento são apenas algumas expressões do absolutismo racionalista.
A partir do momento em que o homem acredita na completa vitória da razão e passa a imaginar-se capaz de controlar as emoções e o próprio corpo, como se este fosse um mero fantoche da consciência, estabelece-se cerrada vigilância e repressão sobre as forças de enunciação do inconsciente, do não compreensível, do intuitivo – enfim, dos impulsos humanos não catalogáveis e, principalmente, não redutíveis à razão. No entanto, existe tanto nas forças cósmicas do universo como dentro de cada ser humano um território obscuro, misterioso, irredutível à explicação racional. Essa dimensão incompreensível – a inelutabilidade da morte, por exemplo – faz parte do dia-a-dia: mesmo sem perceber, defrontamo-nos, a todo momento, com as brumas do acaso e com as surpresas do transitório.
A razão pode dar conta do universo material, explicando-o, destrinchando-o. Mas não tem força para penetrar nas obscuras crateras do mistério. A razão tudo pode contra o inexplicado; contudo, mostra-se impotente diante do inexplicável.
Por mais que nos esforcemos, há limites à repressão ao desejo, à paixão, às explosões emocionais imposta pela cultura. Os racionalistas talvez prefiram a palavra controle em lugar de repressão. A questão semântica me parece irrelevante. O dado objetivo é termos de lidar o tempo todo com as forças obscuras que estão tanto à nossa volta como dentro de nós mesmos. A razão, definitivamente, não dá conta deste recado. Cabe a manifestações não racionais como a religiosidade, o misticismo, os rituais coletivos e, sem dúvida, a arte e a literatura, lidar com o território indevassável da existência.
À luz dessas ideias, já não era possível para mim encarar a narrativa como instrumento de transformação social, nem como ferramenta de conhecimento da realidade. Eis o testemunho de alguém que se formou numa atmosfera intelectual de iluminismo tardio, ou seja, de fé no progresso, de crença na ética e na justiça, de certeza de que a liberdade, a fraternidade e, sobretudo, a igualdade entre os homens estava logo ali adiante, na esquina da Avenida da Ciência com a Rua da Razão. Enfim, confesso que integrei o rebanho de crentes nas sedutoras profecias do fundamentalismo racionalista. Para o bem e para o mal, a complexidade do mundo real se encarregou de mostrar que a utopia não passava mesmo de utopia.
Fechado o parêntese, o problema persiste. Como pensar a literatura num mundo sacudido pelo que se convencionou chamar “crise de paradigmas”? A visão positivista que dominou mentalidades e pautou comportamentos no Ocidente nos últimos séculos, e que continua hegemônica até nossos dias, em nome da razão e da lógica, da ordem e da organização, do produtivismo e da eficiência, tende a sufocar as virtualidades intuitivo-sintéticas do comportamento. Mas o ser humano (cultural) é também um ser cósmico (natural). O território natural tende a ser, no paradigma iluminista, considerado irrelevante. Manifestações como o sonho, a fantasia, a preguiça, o riso, a gula, a raiva, são objeto de desprezo por escaparem ao controle da razão. Tais sentimentos, quando se deixam aflorar, expõem-se à censura e à repressão. Mas o inconsciente não se cala: suas vozes são a linguagem corporal, o transe místico, a magia, a arte – aí incluída a literatura, e dentro desta, a narrativa, ou seja, a ancestral necessidade que o ser humano tem de contar e ouvir histórias.
Em outras palavras, a narrativa ficcional mobiliza o imaginário, a intuição, o inconsciente, territórios não cobertos pelo mapa lógico-analítico. Nessa perspectiva, não faz sentido atribuir função didática ou moralizante à literatura como pregava o cânone realista, nem ver nela uma forma particular de revelação do real, como sugeria Sartre. Em ambos os casos, estamos no âmbito da consciência. À literatura compete explorar os labirintos e as cavernas inacessíveis à razão. Não se trata aqui de iluminar o desconhecido, tarefa reservada à ciência, mas de criar espaços onde possamos conviver sem desespero e sem culpa com os mistérios e enigmas da existência.
O grande romancista Fernando Sabino sintetizou magistralmente esta ideia ao dizer que escrevia suas histórias para saber, não porque sabia. O ato de criação literária é sempre um mergulho nas trevas. Quem sabe, escreve ensaios ou textos científicos. Quem não sabe, escreve ficção. A propósito, o escritor israelense Omós Oz compara um artigo de jornal a um ponto de exclamação; já um romance é sempre um ponto de interrogação. Assim, o ficcionista é movido por dúvidas para as quais jamais encontrará respostas. Cada autor tem a suas perguntas. Todas elas, desde que brotem do seu eu profundo, são válidas. Alguns se interrogam sobre dúvidas existenciais; outros sobre questões éticas; outros sobre a injustiça social. Todos navegam no oceano da dúvida.
A tarefa do ficcionista não é escrever sobre aquilo que sabe, mas escrever sobre o insabível, ou seja, sobre aquilo que não pode saber. Em outras palavras, o texto literário se volta para perguntas fundamentais que afligem, ou inquietam o humano ser. São questionamentos óbvios, mas inevitáveis e irrespondíveis: de onde viemos, quem somos, o que fazemos neste mundo, para onde vamos após a morte. A narrativa é um dos mais potentes analgésicos para conviver sem angústias insuportáveis com tais dúvidas. Insisto no analgésico, pois o mal não tem cura, apenas tratamento paliativo.
Em um ambiente em que a racionalidade ainda é vista como remédio para todos os males, precisamos lembrar que a literatura e a arte em geral são manifestações da esfera não-racional que permitem a nós, humanos, manter a esperança quando nos defrontamos com o absurdo, o inexplicável e o mal nas suas mais perversas manifestações.
Tenho para mim que a ruptura do paradigma racionalista conduzirá à separação dos domínios da arte e da ciência. Não mais se procurará na arte uma forma alternativa, ou diferente de revelação do real. Essa tarefa pertence ao pensamento científico. Cabe ao cientista iluminar o desconhecido. À literatura compete explorar o território inacessível à razão e ao conhecimento. O artista se move no reino das coisas indecifráveis, convivendo com o mistério sem a pretensão de entendê-lo. O máximo que nós, contadores de histórias podemos fazer é ajudar a nós mesmos e aos que nos escutam a encarar as trevas da existência.
