
Quando pensamos em Machado de Assis, logo nos vem à cabeça os romances Memórias Póstumas de Brás Cubas, Quincas Borba e Dom Casmurro, sem esquecer os contos Missa do Galo, Uns Braços e O Alienista (na verdade, muito pequeno para ser romance e muito longo para ser um conto). Apenas esses títulos bastam para consagrar o Bruxo do Cosme Velho como um dos maiores (senão o maior) escritor brasileiro, pelo menos até hoje. Mas o legado do fundador e primeiro presidente da Academia Brasileira de Letras vai muito além das obras que o consagraram.
Para começo de conversa, Machado foi um operário das letras. Em cerca de quarenta anos de atividade, produziu uma vastíssima obra, reunida em trinta volumes pela Jackson Editores, em 1962. São milhares de páginas de produção de uma vida inteira, sugerindo que ele não passou um só de seus dias sem escrever. De fato, a pena foi, para Machado, um instrumento de trabalho e de sobrevivência. Funcionário público modesto, buscou na literatura um meio para driblar a pobreza e ascender socialmente. Na era pré-industrial da imprensa carioca, foi revisor, redator de bancada, cronista, folhetinista, contista, ao mesmo tempo em que escrevia poemas e peças de teatro.
Alheio, por temperamento, às rodas boêmias dos jovens beletristas da época, que desejaram viver no Rio de Janeiro os desvarios da Belle Époque parisiense, acompanhava de perto os movimentos e tendências literárias da Europa. Tudo indica que lia os grandes autores franceses, britânicos e até alemães no original. A quantidade de citações a escritores célebres que aparecem em seus contos (Dante, Hegel, Fernão Mendes Pinto, Shakespeare, Byron, Heródoto, Montaigne, Heine, Alexandre Herculano – cito apenas os que me ocorrem no momento) dá ideia do vasto universo de leituras de Machado de Assis.
No segundo semestre de 2025, mergulhei nos livros de contos do grande romancista (dez volumes) que, confesso, antes apenas folheara, e me deparei com um Machado praticamente desconhecido para mim. Primeiro, por descobrir uma surpreendente diversidade temática que o faz transitar com absoluta segurança do romantismo água com açúcar à crueza da crítica de costumes. Depois, pelo experimentalismo formal que ele pratica no modo de compor suas narrativas.
Com relação ao primeiro aspecto, admirei-me com o número de histórias que tem o adultério, masculino e feminino, exposto sem meios tons. Nada que se pareça com a dúvida que paira sobre a reputação de Capitu, talvez a mais famosa de suas personagens. Em certos contos, respeitáveis senhoras da sociedade traem os maridos explicitamente, e nobres cavalheiros se revelam conquistadores baratos. Há ainda histórias de mistério e terror, aventura e exotismo, crime e castigo, seguindo a tradição da literatura do século XIX.
Do ponto de vista formal, Machado também demonstra notável versatilidade. Às vezes, utiliza um narrador “sabe tudo”, com total domínio da história (em primeira ou terceira pessoa); outras um narrador “vacilão”, que não conhece bem os acontecimentos; outras, esconde o narrador, optando por mostrar a história por meio de cartas ou de diálogos. Em certos casos, combina técnicas com absoluto domínio da carpintaria narrativa e perfeita adequação entre a fábula e o discurso. Para ele, o narrador é uma espécie de máscara que o autor utiliza ao produzir o texto, e que pode mudar completamente a cada obra. Machado usa muitas máscaras, o que contribui em muito para a sua genialidade. Na verdade, ele exacerba seu transformismo a ponto de criar capítulos inéditos das Sagradas Escrituras (Na Arca) e da Peregrinação, de Fernão Mendes Pinto (O Segredo do Bonzo), mimetizando a dicção do Velho Testamento e a frase do grande prosador português contemporâneo de Camões.
Essa volúpia pelo experimentalismo dá ideia da amplitude das leituras de Machado de Assis, sugerindo também que ele não se preocupava com “estilo” como marca de originalidade.
Continuo fascinado pelas máscaras machadianas. Por isso estou organizando uma coletânea do lado B de Machado para partilhar as minhas descobertas com os leitores. Como amostra, disponibilizo a seguir um fragmento de um conto publicado originalmente na coletânea Várias Histórias (Garnier, 1896), revelando um autor que faz jus ao apelido de Bruxo do Cosme Velho.

A CAUSA SECRETA
Machado de Assis
Dois dias depois — exatamente o dia em que o vemos agora, — Garcia foi lá jantar. Na sala disseram-lhe que Fortunato estava no gabinete, e ele caminhou por ali; ia chegando à porta, no momento em que Maria Luiza saía aflita.
— O que é? perguntou-lhe.
— O rato! O rato! exclamou a moça sufocada e afastando-se.
Garcia lembrou-se que, na véspera, ouvira ao Fortunato queixar-se de um rato que lhe levara um papel importante; mas estava longe de esperar o que viu. Viu Fortunato sentado à mesa, e havia no centro do gabinete, sobre a qual pusera um prato com espírito de vinho. O líquido flamejava. Entre o polegar e o índice da mão esquerda segura vai um barbante, de cuja ponta pendia o rato atado pela cauda. Na direita tinha uma tesoura. No momento em que Garcia entrou, Fortunato cortava ao rato uma das patas; em seguida desceu o infeliz até a chama, rápido, para não matá-lo, e dispôs-se a fazer o mesmo à terceira, pois já lhe havia cortado a primeira. Garcia estacou horrorizado.
— Mate-o logo! disse-lhe.
— Já vai.
E com um sorriso único, reflexo de alma satisfeita, alguma coisa que traduzia a delícia íntima das sensações supremas, Fortunato cortou a terceira pata ao rato, e fez, pela terceira vez, o mesmo movimento até a chama. O miserável torcia-se, guinchando, ensanguentado, chamuscado, e não acabava de morrer. Garcia desviou os olhos, depois voltou-os novamente, e estendeu a mão para impedir que o suplício continuasse, mas não chegou a fazê-lo, porque o diabo do homem impunha medo, com toda aquela serenidade radiosa da fisionomia. Faltava cortar a última pata; Fortunato cortou-a muito devagar, acompanhando a tesoura com os olhos; a pata caiu, e ele ficou olhando para o rato meio cadáver. Ao descê-lo pela quarta vez, até a chama, deu ainda mais rapidez ao gesto, para salvar, se pudesse alguns farrapos de vida.
Garcia, defronte, conseguira dominar a repugnância do espetáculo para fixar a cara do homem. Nem raiva, nem ódio; não somente um vasto prazer, quieto e profundo, como diria a outro a audição de uma Bela Sonata ou a vista de uma estátua divina, alguma cousa parecida com a pura sensação estética. Pareceu-lhe, e era verdade, que Fortunato havia-o inteiramente esquecido. Isto posto, não estaria fingindo, e devia ser aquilo mesmo. A chama ia morrendo, o rato podia ser que tivesse ainda algum resquício de vida, sombra de sombra Fortunato aproveitou para cortar -lhe o focinho e, pela última vez, chegar à carne ao fogo. Afinal deixou cair o cadáver no prato, e arredou, disse, toda essa mistura de chamusco e sangue.
Ao levantar-se deu com o médico e teve um sobressalto. Então mostrou-se enraivecido contra o animal, que lhe comera o papel; mas a cólera evidentemente era fingida.
— Castiga sem raiva, pensou o médico, pela necessidade de achar uma sensação de prazer, que só a dor alheia pode lhe dar; é o segredo deste homem.
Fortunato encareceu a importância do papel, a perda que lhe trazia, perda de tempo, é certo, mas o tempo agora era-lhe preciosíssimo. Garcia ouvia só, sem dizer nada, sem lhe dar crédito. Relembrava os atos dele, graves e leves, achava a mesma explicação para todos. Era a mesma troca das teclas da sensibilidade, um diletantismo sui generis, uma redução de Calígula.
Quando Maria Luiza voltou ao gabinete, daí a pouco,o marido foi ter com ela rindo, pegou-he nas mãos e falou-lhe mansamente.
— Fracalhona!
— Acredita que quase desmaiou?
(…)
Fragmento do conto com esse título, transcrito no volume 14 da Obra Completa do autor (Jackson Editores, Rio de Janeiro,1962). A pontuação machadiana, pródiga em vírgulas, foi mantida.
