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O caso do Máscara de Ferro

O caso do Máscara de Ferro

Por Sinval Medina

De onde você tira as ideias para inventar suas histórias? Essa é uma das perguntas mais frequentes que ouço em encontros com meus leitores.  Costumo dizer que as fontes são as mais variadas que se possa imaginar: uma recordação de infância, um sonho, uma cena presenciada na rua uma fofoca, um acidente, uma notícia de jornal… Enfim, as possibilidades são infinitas. O ponto comum a todas as ideias que viram literatura é que elas brotam de um grão de realidade, ou seja, de um fenômeno ocorrido fora da nossa consciência, percebido pelos nossos sentidos. Talvez esteja aí o divisor de águas entre a lírica e a épica. O poeta se volta para dentro de si mesmo; o contador de histórias processa o que vê em torno de si. Isso significa que, grosso modo, sem fato não há ficção.  O acontecimento, ao passar pela caixa preta da imaginação se transforma em narrativa. Como isso acontece? Ganha uma viagem a Marte com passagem só de ida quem desvendar o enigma: o ato criativo não pertence ao planeta da razão, mas à galáxia do mistério. A história do homem da máscara de ferro é bom exemplo disso. 

O “FATO REAL”

No tempo do rei Luís XIV (1638/1715) circulava na França a história de um misterioso prisioneiro encerrado na Bastilha com uma máscara que lhe escondia as feições. Sua identidade teria permanecido em segredo até morrer, provavelmente em 1703. Diziam que fora encarcerado ainda muito jovem. Que crime cometera para merecer a pena de prisão perpétua? Não existem registros na justiça francesa de que tenha sido submetido a julgamento.  No cárcere, desfrutava de privilégios dignos de um membro da realeza.  Nunca, porém, permitiram que circulasse livremente.  Se revelasse a própria identidade, o responsável pela sua guarda tinha ordens de executá-lo imediatamente. Mas o prisioneiro nunca tirou a máscara. Morreu na Bastilha, já sexagenário, e o corpo foi sepultado em segredo.

Quase cinquenta anos depois, François Marie Arouet (1694/1778), ficcionista, historiador e filósofo que se tornaria o mais polêmico escritor de seu tempo com o pseudônimo de Voltaire, na obra “O século de Luís XIV” (1751), publicou uma versão que, à época, já circulava de boca em boca como lenda. 

Escreveu Voltaire:

Alguns meses após o desaparecimento do ministro* deu-se um fato sem precedente e, o que não é menos estranho, ignorado por todos os historiadores. Enviou-se, sob o maior sigilo, para o castelo da ilha Santa Margarida, no mar da Provença, um prisioneiro desconhecido, de estatura acima do comum, jovem e de aparência bela e nobre. Esse prisioneiro levava, em caminho, uma máscara sobre o rosto, e havia ordem para matá-lo se a retirasse. Permaneceu ele na ilha até quando um oficial de confiança, de nome Saint Mars, governador de Pignerol, tendo-se tornado governador da Bastilha, em 1690, foi buscá-lo no referido castelo, levando-o para a Bastilha, sempre com o rosto oculto sob a máscara. O marquês de Louvois teve ocasião de vê-lo na ilha, antes da transferência, e falou-lhe de pé, com uma consideração que indicava respeito. O desconhecido, levado para a Bastilha, ali ficou alojado tão bem quanto podia sê-lo no castelo; não lhe recusavam nada do que pedia; cultivava o melhor gosto pelas roupas brancas de finura extraordinária, e pelas rendas; tocava guitarra. Serviam-lhe os pratos mais finos, e o governador muito raramente sentava-se diante dele. Um velho médico da Bastilha, que assistira algumas vezes esse homem singular, quando enfermo, dissera jamais ter-lhe visto o rosto, embora lhe tenha examinado a língua e o resto do corpo. Era admiravelmente bem-feito, dizia o médico, tinha pele um pouco morena, o tom de voz atraente, não deixando entrever quem poderia ser. 

O desconhecido morreu em 1703 e teria sido enterrado à noite, na paróquia de São Paulo. O que torna o caso mais espantoso é que, quando o enviaram à ilha Santa Margarida, não houve notícia de ter desaparecido na Europa nenhum homem notável. E o prisioneiro o era sem dúvida, como se pode aquilatar pelo que aconteceu nos primeiros dias de sua permanência na ilha. O próprio governador punha-lhe os pratos na mesa, retirando-se em seguida. Certo dia o prisioneiro escreveu qualquer coisa com uma faca, num prato de prata, e jogou pela janela, na direção de um barco que se achava junto à margem, quase ao pé da torre. O dono do barco, um pescador, apanhou o prato e o levou ao governador. Este, espantado, perguntou-lhe: “Leste o que está escrito neste prato? Alguém o viu em tuas mãos?”  “Não sei ler – respondeu o pescador. – Acabo de encontrá-lo e ninguém o viu”. O camponês ficou detido até o governador certificar-se de que ele não sabia ler e de que o prato não fora visto por ninguém. “Vai – disse o governador – és bem feliz por não saberes ler”. Entre as pessoas que tiveram conhecimento desse fato há uma muito digna de fé e que vive ainda.

O Sr. Chamiliart foi o último ministro que conhecia esse estranho segredo. O segundo marechal de Feuiliade, seu genro, disse que na morte do sogro conjurou-o de joelhos a revelar-lhe quem era aquele homem que não se conhecera jamais senão como “o homem da máscara de ferro”. Chamiliard respondeu-lhe tratar-se de um segredo de Estado e haver feito juramento de nuca revelá-lo. Enfim, resta, ainda muitos dos meus contemporâneos que depõem sobre a verdade do que avanço, e não conheço nada mais extraordinário, nem mais bem comprovado.

A SEDUÇÃO FOLHETIM

A menção ao misterioso prisioneiro não passaria de um peixe no oceano volteriano, não tivesse sido pescada por Alexandre Dumas para criar  a passagem sobre o homem da máscara de ferro, incluída no romance O visconde de Braguelonne,  de 1847, integrante da trilogia de D’Artagnan, da qual também fazem parte Os três mosqueteiros e Vinte anos depois.

Alexandre Dumas (1802/1870) contemporâneo de Balzac (1799/1850), Stendhal (1783/1842) e Flaubert (1821/1880) tornou-se um dos mais lidos ficcionistas franceses do seu tempo. Nunca foi, porém, ao contrário dos três primeiros, reconhecido como um autor da chamada “alta literatura”. 

Sem o rigoroso estilismo de Flaubert, o refinado psicologismo de Stendhal ou a panorâmica visão social de Balzac, Dumas alcançou enorme sucesso com seus romances folhetinescos como “Os três mosqueteiros” e “O conde de Monte Cristo”, obras que continuam a atrair leitores até hoje.  Numa época em que os romancistas retratavam os conflitos sociais e psicológicos resultantes do triunfo da ordem burguesa, Dumas oferecia ao público nada mais do que o prazer da leitura, sem se preocupar em transmitir uma “mensagem” por meio da literatura. 

 A discussão sobre o papel social do escritor permanece viva até hoje.  De certa forma, o confronto entre os autores “engajados” e os considerados mercadores de ilusões continua.  O fato é que a literatura de entretenimento se apoia em tradições narrativas que remontam às” Mil e uma noites”, ao “Decameron”, a D. Quixote de la Mancha, dotada de um poder de sedução que arrasta atrás de si, como o flautista de Hamelin, uma apaixonada multidão de seguidores.  

Alexandre Dumas não criou o folhetim, mas foi um dos mais bem sucedidos cultores do gênero. A edição de uma história que se desdobrava em episódios, em geral veiculada em publicações baratas, atingia o público de menor poder aquisitivo, alimentando um leitorado sequioso por fortes emoções e pouco afeito a inovações formais, o que explica o desprestígio do criador do “Homem da Máscara de Ferro” nos meios acadêmicos da época. Antecipava-se assim o confronto entre apocalípticos e integrados que alimentaria o debate sobre o papel dos mass media no século XX. Num certo sentido, a ficção de Dumas está para a obra dos grandes romancistas de seu tempo como as novelas televisivas estão para a cinematografia de Ingmar Bergman ou Luchino Visconti na era audiovisual. Cada qual no seu quadrado.

O ACONTECIMENTO E A FICÇÃO

Tudo indica que Dumas inspirou-se em Voltaire para escrever a história do Máscara de Ferro. Mas, ao relatar o episódio, o filósofo iluminista se restringe “à realidade dos fatos”.  Registra a existência do prisioneiro cuja identidade é mantida como segredo de estado apoiando-se em fontes confiáveis, citadas nominalmente. Não avança nenhuma hipótese sobre a identidade do prisioneiro, ainda que o descreva como alguém merecedor de tratamento só dispensado a pessoas de alta extração. Não chega sequer a insinuar que se trata de um membro da realeza. 

 Já Dumas, quase cem anos depois, em um contexto social e político já livre dos constrangimentos do absolutismo, sente-se livre para solucionar o mistério, apresentando uma versão dos fatos que, sem se afirmar verdadeira, se mostra verossímil.   Em seu romance, ele não revela ao leitor como as coisas aconteceram, mas como poderiam ter acontecido. Com as devidas ressalvas, não é despropósito dizer que o texto de Voltaire é jornalístico, enquanto o de Dumas é novelístico, ainda que abordem ambos o mesmo assunto. Um bom exemplo da fluidez das fronteiras entre duas formas de prosa narrativa, mas ao mesmo tempo, uma clara demarcação dos territórios do jornalismo e da literatura.   

Além da trilogia de D’Artagnan, que inclui O homem da máscara de ferro, merece destaque o não menos popular O Conde de Monte Cristo.  Obras do folhetinista francês geraram várias versões cinematográficas disponíveis no streaming.  Os romances de Dumas foram publicados no Brasil em texto integral, com comentários críticos, em esmeradas edições da Zahar (grupo Companhia das Letras). Também são facilmente encontráveis inúmeras adaptações das obras de Dumas para o público jovem. Segue aqui neste link para download GRÁTIS uma versão assinada por Sinval Medina intitulada O meu Máscara de Ferro.

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