Skip to content Skip to sidebar Skip to footer

Estrela guia para marinheiros de primeira viagem

Estrela guia para marinheiros de primeira viagem

Por Sinval Medina

Em novembro de 1965, representantes dos países das Américas se reuniram no Rio de Janeiro para a Conferência de Cúpula da OEA – Organização dos Estados Americanos. Na pauta, a superioridade dos valores democráticos ocidentais sobre a tirania soviética, tema obsessivo em tempos de Guerra Fria. Na abertura do conclave, um grupo de penetras passou sem dificuldade pela segurança e entrou no salão do Hotel Glória onde se realizava o encontro. A frente deles, um senhor de meia idade, cabelos grisalhos, trajando um elegante terno de linho claro abriu uma faixa com os dizeres: “OEA: Queremos Liberdade!”. 

Minutos depois o escritor Antônio Callado, autor da façanha, seguia de camburão rumo ao quartel da Polícia do Exército na companhia, entre outros, do poeta Thiago de Mello, do jornalista Carlos Heitor Cony, do diretor de teatro Flávio Rangel e dos cineastas Glauber Rocha e Joaquim Pedro de Andrade. A foto de Callado com a faixa de protesto repercutiu na imprensa mundial, desnudando a contradição do regime instaurado no país com o golpe de 1964. Um governo que sufocava a livre expressão do pensamento podia hospedar um evento que exaltava a democracia como valor fundamental? 

Vivíamos sob “a ditadura envergonhada”, como Elio Gaspari definiu os anos 1964 a 1968. Os golpistas ainda se importavam com a imagem do governo. Só depois do Ato Institucional n°5 o regime se tornaria descaradamente sem vergonha. Mesmo assim, em um ano a ditadura afastara da vida pública 4 454 adversários; 203 casos de tortura haviam sido formalmente denunciados; 20 prisioneiros haviam perdido a vida, sendo 9 dados como suicidas. Em 1965 seriam formalizadas 84 denúncias de tortura, com três vítimas fatais: um desaparecido e dois “suicidados”. Esses números só cresceram a partir de então. 

 Entre os camicases da manifestação do Hotel Glória, Antônio Callado não era o mais conhecido do público. Nascido em Niterói em 1917, iniciara-se no Jornalismo aos 20 anos como repórter do Correio da Manhã. Durante a II Guerra Mundial trabalhou na BBC, de Londres. Em 1947 voltou ao Brasil e à imprensa diária. A estreia literária se daria em 1954, com A Madona de Cedro; três anos depois publicava Assunção de Salviano. Segundo José Paulo Paes, os romances, “a par do gosto pela intriga linear arrematada por um gran finale simbólico demonstram preocupação com a problemática católica do pecado e da graça”. 

A ficção de Callado teria repercussão modesta. Já no teatro, sua peça Pedro Mico, que tem como personagem principal um malandro carioca e como cenário um barraco na favela foi encenada com grande sucesso em 1957 sob a direção de Paulo Francis. Até 1965, esse era o currículo do escritor que clamava por liberdade na Assembleia da OEA. 

Dois anos depois, Callado voltaria a ser notícia, desta vez como autor de Quarup, obra que, na opinião de muitos críticos causaria, no decênio de 60, o mesmo impacto provocado, na década anterior, por Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa. Na verdade, o panorama da época não chegava a ser desanimador. Campos de Carvalho, surrealista tardio, publicara, com muitos fogos de artifício e relativo sucesso, um ciclo de romances encerrado com O púcaro búlgaro (1964). No ano seguinte Dalton Trevisan assombrava o país com O vampiro de Curitiba. Em 1966, Dona Flor e seus dois maridos, confirmava Jorge Amado como escritor mais popular do Brasil. Vale também lembrar Balé Branco (1966) e Pessach, a travessia (1967), de Carlos Heitor Cony. 

Nenhuma dessas obras, porém, alcançou a repercussão de Quarup. No caudaloso romance de Callado ressurgiam os temas proscritos pela ditadura, tratados com competência técnica e profundidade psicológica. Nas palavras de Franklin de Oliveira, das páginas do romance emergiam “ondas tumultuantes de poesia substantiva e de tenso lirismo arrancado à raiz das coisas”, reverberando os conflitos que agitaram o país entre 1954 e 1964, e que terminariam como todos nós sabemos. 

Antes do golpe de 64, uma novíssima geração, influenciada pelo ideário do CPC (Centro Popular de Cultura da UNE), encarava a criação artística como uma espécie de braço estético da Revolução. O cinema, o teatro, a música, a literatura tinham como função esclarecer o povo, formando consciências para impulsionar as transformações sociais em curso no país. Esta visão romântica que, de modo geral orientava as esquerdas ruiu como um castelo de cartas com a tomada do poder pelos militares. Reforma agrária, ligas camponesas, analfabetismo, vida sindical, imperialismo, a questão indígena, a fome nordestina, as traficâncias dos governantes, a insensibilidade das elites e outras mazelas brasileiras, de onde os escritores aprendizes pretendiam tirar matéria para suas criações tinham sumido do radar. A sensação era de que a arte como instrumento de ação política fora confinada aos subterrâneos da clandestinidade. 

Para os jovens afogados em ilusões perdidas, Quarup representou um chamado às armas: despertou a consciência de que o ofício das letras, além de responsabilidade social, exigia preparo, estudo, reflexão. Nesse sentido, Quarup brilhava como estrela guia para os marinheiros de primeira viagem. Ao alternar trepidantes cenas de ação com esmagadores conflitos existenciais, o romance inaugurava um realismo crítico acima e além do que se entendia como literatura engajada. O virtuosismo técnico de Callado se manifestava na elaborada estrutura narrativa e numa linguagem que misturava a fluência coloquial com fluxos de consciência de pura inspiração joyceana. Ao mesmo tempo, a base factual das tramas revelava vivências pessoais filtradas pelas lentes do artista. 

Nos anos seguintes, a truculência do regime se encarregou de oferecer aos noviços as experiências necessárias para transformar em matéria literária o medo, as frustrações, as cassações, as humilhações e a dor física da tortura. Para boa parte da geração pós-64, os romances de denúncia e as memórias do cárcere se impuseram como autoficção.  É inegável que essa rebeldia literária contra o “sistema”, como se dizia, teve no Quarup sua centelha deflagradora.    

Callado continuaria, com Bar Don Juan (1971) e Reflexos do baile (1976), a escrever romances de alta qualidade literária, empenhados na luta contra a ditadura com uma visão crítica, mas nunca revisionista, das posições da esquerda, em especial no tocante à luta armada. Permaneceria na ativa até o final da vida, publicando mais sete livros, entre os quais se destacam os romances Sempreviva, Expedição Montaigne e Concerto carioca. Em 1994 foi eleito para a Academia Brasileira de Letras. Faleceu três anos depois, aos 80 anos. Cinquenta anos após a edição do Quarup e vinte anos após sua morte, Antônio Callado merece ser lembrado como um dos mais importantes escritores brasileiros do século XX.

Deixe um comentário