
Era preciso trabalhar, em 1961, tão logo ela havia entrado na universidade, em Jornalismo, aulas pela manhã, disciplinas de Letras Clássicas, à tarde. Sobravam algumas noites e o que arrumou para se tornar economicamente independente – já que nem mesada recebia – foi se candidatar num cursinho pré-vestibular para habilitar os candidatos a provas de língua e literatura portuguesa. Graças ao desempenho nos dois vestibulares na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, consegue o primeiro emprego. (Não é longe de casa, em Porto Alegre, e graças à nova etapa de vida, aos 19 anos, conquista duas liberdades ímpares perante a vigilância do pai desde que chegou ao Brasil, aos 11 anos: trabalhar com carteira assinada e ainda por cima, trabalhar à noite.)
Apesar das benditas lições de Gramática, as aulas noturnas são prazerosas, um verdadeiro transplante do que aprendera, uma década antes, nos andaimes do primário com Dona Emilinha em Portugal, depois o colégio particular gaúcho Ginásio Farroupilha e culminando com os professores da escola pública, o Júlio de Castilhos ou Julinho, alguns desses professores que iria encontrar também na universidade, como Ângelo Ricci de latim. Partilha tudo, então, com seus alunos do cursinho, alguns até mais velhos que ela. É assim que traz para as aulas do Pré-Vestibular Piratini uma novidade literária: as crônicas de Fernando Sabino. Com os professores universitários Pradelino Rosa e Albino de Bem Veiga, nas aulas em comum a Jornalismo e Letras, tira a inspiração de começar pelos contemporâneos e não pelos clássicos. A crônica e o conto, então, entram em cartaz no gostinho de ler e estudar. Isso a ponto de se lançar na estilística de Fernando Sabino e seu livro O homem nu, lançado há pouco, em 1960.
Meio tímida, num intervalo de seus estudos na URGS, aborda o mestre de literatura, Professor Rosa, e comenta que estava descobrindo uma coisa muito interessante, Fernando Sabino usa como ninguém os dois pontos para lançar o que seria uma oração subordinada. O mestre sorri e se entusiasma, ah é? Faça esse estudo, uma observação curiosa, quero ver.
Pra quê? Não dá outra. Afunda nas crônicas do autor de O homem nu e se seduz pela economia de orações subordinadas com o uso de dois pontos e segue o bonde de orações coordenadas. Claro, não deixa escapar a oportunidade de trazer às aulas do pré-vestibular uma hipótese de gramática e outra de redação dessa descoberta que dança na sua cabeça. Mas antes, precisa encontrar uma comparação de períodos carregados de subordinação. Vai em busca e lembra de pegar os sermões de Vieira na biblioteca da faculdade. Perfeito, basta comparar um período do autor do século XVII e uma frase do cronista contemporâneo. E aí junta à questão literária a agitação sociológica do início dos anos 1960 no ambiente universitário. Propõe aos alunos do cursinho uma temerária hipótese: olhem estes dois textos que trouxe para vocês, uma crônica e um sermão, por favor, leiam e me digam se há alguma coisa de diferente no fraseado de Vieira e Sabino. A turminha, angustiada com o aprendizado da gramática para a redação para o vestibular, se põe a examinar os textos, mas parece difícil compará-los. Um aluno, talvez mais esperto e desinibido, arrisca: acho que Vieira pendura um monte de subordinadas à oração principal e Fernando Sabino joga mais com coordenadas. É o que a jovem professora, estudante universitária em 1962-63 mais queria: isso mesmo, meu amigo. (Vem um pitaco político nesse instante.) Sabe por que essa diferença? Vejam só os contextos dos dois escritores – Padre Antônio Vieira vive sob um sistema absolutista em que o rei manda e os súditos obedecem; já o cronista do século XX arma os períodos com regência democrática, orações coordenadas.
Na base do espanto ou de incredulidade, os alunos do Pré-Vestibular Piratini vão ensaiar redações mais leves, tentando aplicar a coordenação (democrática) nos seus períodos. Já para a lançadora dessa motivação, isso se torna um farol de estilo.
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São Paulo, memória lúdica de 25 de outubro de 2025.
