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Quatro vias para bailar em leitura cultural

Quatro vias para bailar em leitura cultural

Por Cremilda Medina

Surpreendente o encontro com a escrita ficcional de João Sabali. Seu livro, publicado em 2023, convida ao deslizamento nas planícies contemporâneas ou ao mergulho nos abismos do inconsciente  ou à viagem no imaginário simbólico sem freios realistas, no ritmo em que suas Bailarinas em Marte dançam até a morte (título do conjunto de contos). O movimento que inspira minha leitura cultural segue quatro vias:

1. Na tarde chuvosa e nublada

do presente humano/desumano

Sempre que os motes da ação coletiva emergem nas tramas, o tom sombrio, sem perspectivas, percorre o subtexto, uma avaliação de toques sombrios dos contextos epidêmicos da sociedade contemporânea. Ao abrigo do pessimismo latente, porém, salta a primeiro plano o humor incontido com que lida com seus personagens. Então da tarde chuvosa e nublada, se descortinam nas frestas breves sóis de bem-humorado otimismo.

2.    Travas do cotidiano

inflam o torpor na ação

João Sabali  , não contaminado pela formação ortodoxa de jornalista, não se deixa enlevar pelo movimento afirmativo dos personagens e dos narradores que regem o clima ficcional. Qualquer processo de ação a desencadear sofre as travas de cotidianos, regidos por um certo torpor. Nesse embalo, muitas vezes não se sai do lugar, um anticlímax que pausa e movimenta a leitura numa circularidade mítica ou no inacabado dos gestos. A seta do mover-se na tradição do conto cede à inovação das idas e voltas, dos desvios para os lados, à anarquia de tempos e espaços.  O torpor da ação se conjuga perfeitamente com  a respiração atípica das bailarinas em Marte.

3. Arrancos do sonho

utopias surrealistas

João não se seduz também, como ficcionista, com o delírio da fuga romântica. Não seria próprio de um autor maduro no conhecimento artesanal da ficção contemporânea. A veia que irriga humor se lança a inesperadas cenas surrealistas, batuta literária presente em todo o livro. Lances como, em lugar do diálogo previsível entre dois protagonista – um jovem (não) sedutor e uma jovem a ser conquistada (?) se concentrar na pergunta masculina, o que você acha de meus pés? E por aí vai, ao longo do conto, esta inusitada e repetida curiosidade. O autor surpreende constantemente pelo avesso da realidade, o que nos faz perceber (talvez) que a fantástica utopia surreal supera nossas pobres vivências.

4.    Não, ao acento na palavra

sim, ao fluxo das frases

Nem um pouco atraído pelo concretismo, o acento na palavra, o que impulsiona a narrativa é o encadeamento ora mais lento ora alucinante da sintaxe brasileira. E nesse caso, um domínio surpreendente de passagens autor-narradores, vozes coloquiais, suspiros íntimos e gritanças incontidas, cenas e torneios reflexivos, prosa e verso, subordinações e coordenações sem os limites gramaticais da língua oficial. A variedade de recursos dialógicos e de estruturas narrativas dá toda a dimensão de domínios poéticos estudados e intuitivos do autor. E nesse caldo, claro, o acento na palavra também aflora, só que não exclusivamente numa solidão verbal, mas acompanhada pelas sinfonias fraseológicas.

Em síntese: João Sabali se revela, na ficção Bailarinas em Marte dançam até a morte, um jovem escritor de passos firmes na dança literária do presente para o futuro. E vale acrescentar que as epígrafes de cada conto rendem homenagens e inspirações a consagrados parceiros que denotam a erudição do autor, como no caso da abertura de seu livro:

                O tempo é a insônia da eternidade

                                            – Mário Quintana

Nota: Este livro se encontra à venda na seção “Loja” do site Lendas e Narrativas.

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