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Indelicidade de solteiro

Indelicidade de solteiro

Por Sinval Medina

  Franz Kafka, em livre adaptação de 

Sinval Medina

É desolador ser aquele velho solteiro que, no limite da própria dignidade, insinua-se com indiretas para ser convidado a uma festa de aniversário; ou finge estar doente para atrair visitas, por mais breves que sejam; ou, na calçada, puxa conversa com vizinhos que o ouvem, indiferentes e jamais o convidam para entrar. O que dizer quando contempla com disfarçada inveja os jovens que sobem as escadas abraçados e entram no apartamento ao lado trocando risinhos cúmplices.   E fica a fantasiar a emoção do pai que, ao voltar do trabalho, bate à porta fingindo-se de desconhecido só para sentir a reação das crianças. Se não fosse chefe de família, mas um simples solteiro, meteria a chave na fechadura e entraria em silêncio, tateando o interruptor para acender a luz (se fosse inverno), ou correndo a cortina da sala (se estivessem em horário de verão). Mesmo sendo dono da casa, aquele pai prefere tocar a campainha e aguardar que os filhos o recebam como visitante, e lhe vasculhem-lhe os bolsos à procura de guloseimas, num ritual que se repete a cada final de tarde.

Em antigos carnavais, cantava a plenos pulmões o samba que dizia, “a vida de casado é boa; mas a vida de solteiro é melhor; solteiro vai pra onde quer; casado tem que levar a mulher”. Quem lhe dera agora ter uma companheira para andar com ela aonde quer que fosse. Talvez a idade já não lhe permitisse nada mais do que levá-la ao cinema, uma vez por semana, ou almoçar fora aos domingos, ou sentar no sofá ao lado dela, todas as noites, depois do Repórter Esso, para ouvir o Rádio Teatro Colgate Palmolive. Assim, pelo que imaginava, viviam os casais de certa idade, habituados há muito tempo à vida em comum.

Quem vive só e, no entanto, deseja de vez em quando estabelecer vínculos com alguém; aquele que, considerando as mudanças do dia, da previsão do tempo, das oscilações do mercado, aspira ainda encontrar um braço a que se possa agarrar, ou um ombro para apoiar a cabeça, não consegue resistir a uma janela aberta para o bulício das ruas. Nada mais lhe é permitido nos finais de tarde, quando volta para casa, além de acercar-se da janela para, com um olhar furtivo, observar os transeuntes que se acotovelam na calçada e os automóveis que rodam pelo asfalto; se a janela se abrisse para um balcão, pequeno que fosse, poderia dar um passo à frente e cumprimentar um vizinho ou até acenar para uma jovem desconhecida, que talvez retribuísse com um sorriso desconfiado.

A paisagem da praça em frente se dissolve na luz amarelada dos combustores, o frio da noite chega à janela, o ruído das buzinas aumenta com a escuridão. Hora de fechar a cortina. Como sempre, no fogão, fumega a sopa, que acompanhada de pão dormido sobre vinho ordinário celebrará o último ritual do dia.

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