(Hoje, 18 de outubro de 2025, Ana Flávia Araújo Medina completa 60 anos. Sua mãe, autora deste texto, se transporta para 1967, aos quase dois anos da menina e lhe entrega a voz de Narradora em experiência vivida na cidade de Camaquã, no Rio Grande do Sul, onde os pais se instalaram no dia do casamento em 5 dezembro de 1964. No final de 2025, Morte e Vida Severina está em cartaz em São Paulo como obra de arte sempre premiada.)

Essa minha mamãe é danada, em vez de me levar pra pracinha onde fico olhando os bichinhos do zoológico, um passeio que adoro, me põe no carrinho e me leva ladeira acima para o colégio das freiras onde ela dá aula na escola normal. Logo na porta, as irmãzinhas vestidas de preto me fazem muitas festas e como tem muito vento lá em cima, ficam reclamando que a mamãe não me põe meias, sapatinhos de croché ou qualquer outro sapatinho para abrigar meus pezinhos. Ela nem explica mais, as freirinhas já sabem das novidades da sua cabeça, não precisa de meias, os meus pezinhos estão muito bem ao ar livre. Entramos no colégio e ainda bem que não vamos nos fechar numa sala de aula, as alunas da mamãe já estão no auditório para o ensaio de hoje. Loucas pra começar, se arrumam no palco. Adoro a freira que pega o violão – ela também é aluna e vai comandar o coro. Mamãe pede para que entone uma frase da música e recomenda, Irmã, veja se segura um pouco o seu sotaque de nordestina. Nem adianta, porque ela ensaia a turma com a frase que eu adoro:
Finado Sèverino…
Mamãe diz que está tudo certo: podemos começar o ensaio. Eu fico ouvindo, ouvindo, e lá pelas tantas também repito o começo da frase que já aprendi, Finado Sèverino… O pessoal se espanta, vira pra mim, olha a pequena, ela também quer entrar no espetáculo. O quê, exclama a mamãe, imagina se João Cabral e Chico Buarque ouvissem essa bebê cantando Morte e Vida Severina. Todas dão risada e fico quieta. Pode deixar. Quando for para casa, descendo a lomba no meu carrinho vou cantar para os pássaros, Finado Sèverino… Só não aprendeu o resto, é muito difícil.
Voltando a outubro de 2025 e à voz da Autora
Será que Ana Flávia se dá conta, hoje avó de meu bisneto Arlo, que desde pequenina, muito pequena mesmo, foi afinadíssima e que projetaria esse ensaio em Camaquã com pouco menos de dois anos, para grandes desempenhos em corais vida afora? O fato é que esse momento ficou tão imortalizado para mim quanto a beleza do poema de João Cabral que as normalistas camaquenses tão bem interpretaram em um congresso na cidade no final de 1967. Morte e vida Severina havia triunfado no IV Festival de Teatro Universitário de Nancy na França em 1966, noticiara o prêmio nas minhas páginas, Literatura Hoje, da Revista do Globo, em Porto Alegre. E quando gravaram um disco do espetáculo encenado no Tuca-PUC – São Paulo, comprei o bolachão, levei para Camaquã e logo toquei numa vitrola em sala de aula tanto para as alunas de Escola Normal pela manhã quanto para os estudantes de segundo grau na Escola Pública noturna. (Era o tempo, de 1965 a 1968 em que trabalhava nos dois turnos de segunda a quinta em Camaquã, viajava com Aninha, no berço, de ônibus para Porto Alegre sexta de manhã e tratava das páginas da Revista do Globo sexta e sábado, com os avós na retaguarda para cuidar da menina até o pai chegar no sábado; domingo à noite voltávamos no transporte público para a então capital do arroz e porque não se achavam boas verduras, levávamos pra casa além da menina no bercinho chamado de Moisés , mais cestas de alimentação.)
Mas de fato tinha um desejo, ao ouvir a bebê cantarolar o começo da estrofe – Finado Severino/quando passares em Jordão/ e os demônios te atalharem/ perguntando o que é que levas… – minha aspiração para Ana Flávia era uma longa trajetória de coisas de sim, como João Cabral na escrita poética e Chico Buarque na escrita musical nos anunciam. Em 1967, no entanto, vivíamos às vésperas de um momento mais duro da ditadura, 1968, e ainda muito resistiríamos às coisas de não.
P.S. Na década 1980, tive o privilégio de conversar com João Cabral de Melo Neto, no Rio de Janeiro, no trabalho com os escritores brasileiros e depois, por ocasião do lançamento de A posse da terra, escritor brasileiro hoje, em Portugal, 1983, o poeta nos recebeu no Porto onde era cônsul. Minha homenagem póstuma ao autor da saga severina, que nos deixou em 1999.Quanto a Camaquã, como esquecer a primeira experiência de família Medina constituída em 1964? Para além da memória doméstica, em 2012, o Núcleo de Pesquisas Históricas de Camaquã – NPHC me contemplou em um volume que me surpreendeu, ao me pedirem um depoimento para compor o título Personalidades Camaquenses, a História do município por seus homens ilustres. Da pág. 591 a 598 aproveito para contar um pouco dessa curta passagem pela cidade gaúcha, como já o fizera no meu livro desse mesmo ano, Casas da Viagem. Tanto num como no outro, lá está minha memória, meu gostinho de ler o poema Morte e Vida Severina e o registro da surpreendente voz de Aninha, filha de uma mãe desafinada. Mas, justiça seja feita, de um pai que certamente a inspirou ao embalar o carrinho cantando e, ao mesmo tempo, tocar na máquina de escrever verbetes para a editora Globo, enquanto a companheira dava aulas de literatura à noite na escola pública de segundo grau em Camaquã.
