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Romance, testamento de um povo.

Romance, testamento de um povo.

Por Cremilda Medina

Após tanto ler romances, da adolescência à vida adulta, os caminhos de estudos e a prática de reportagem me ofereceram testemunhos da importância simbólica dessa escrita ficcional na história humana. Em 1980, ao conversar com o autor que me inspirava a partir dos anos 1970 ( por exemplo, no mestrado e na  dissertação defendida há 50 anos, que virou meu segundo livro, Notícia, um produto à venda, Jornalismo na Sociedade Industrial, 1979 a primeira edição), pois como dizia, no encontro com Edgar Morin em São Paulo, ele me lançou uma instigante reflexão: quem quiser compreender, no século XXI, o que se passou no século XX, terá de ler os romances da época. Ainda lembrei desse momento no texto que lhe dediquei numa publicação da USP (e-book) que saiu pelos seus cem anos, em 2022. Morin está entre nós, publicou muitas obras, com ele conversei outra vez em Buenos Aires, e o filósofo prossegue imprimindo suas digitais em dois séculos tanto na ensaística quanto no mergulho intimista de Meus demônios ou na memória recente de contexto biográfico, Lições de um século de vida (Bertrand, 2021).

Na mesma década de 1980, a do primeiro contato direto com Morin, me envolvi com a busca das sagas literárias que iria nomear em tese de livre-docência na USP, 1989, Povo e Personagem. Nas viagens que fiz para colher depoimentos dos escritores das narrativas poéticas contemporâneas, após as prévias leituras de suas obras disponíveis, estava trabalhando no projeto em Moçambique, em 1986, o primeiro dos cinco países africanos de língua portuguesa que visitava, e ao sair da casinha de um importante poeta do Continente, em Maputo, ele me segredou uma última observação: olhe, quero lhe dizer uma coisa que não falei no nosso papo – um povo se escreve no romance. José Craveirinha (Morin está entre nós, aos 104 anos,  Craveirinha nos deixou em 2003), clamava pela ficção de longo fôlego, em sua terra, independente há dez anos nessa data. Logo ele que era celebrado então como uma das grandes vozes da poesia na África a clamar pela prosa ficcional.

O fato é que esses dois enunciados de profunda elegia ao romance calaram fundo no meu ato de reportar as literaturas contemporâneas – portuguesa, brasileira e africanas – que resultaram em três livros. Mas nada como ir a campo para flagrar realizações concretas  que coincidiam com as originais intuições de Morin e Craveirinha. E quero me ater ao território brasileiro. No contexto histórico, sociocultural dos anos 1970-1980, sentia-se, no mundo artístico, os tolhimentos da ditadura militar, da censura e das ameaças físicas extremas (no caso de minha área, culminou com o assassinato de Wladimir Herzog há 50 anos). A literatura brasileira vivia sob essas ameaças, mas enfrentava os tempos. Uma das válvulas de liberação era o florescimento do conto em concursos e publicações (o Estado do Paraná concentrou muita dessa produção nacional). Enfim, assunto para historiadores. De minha parte, ao andar por aí no País, ao encontro daqueles que então sucediam as gerações consagradas do Norte e Nordeste ao Sul, tive o privilégio de observar que o romance explodia com total vigor junto com a luta pela redemocratização nos anos 1980. Mas não era só uma literatura engajada, de protesto, e sim uma literatura fundante de quem interroga o ser brasileiro. Ou a metamorfose mítica do desejo de Outra História no reencontro de Sua História. Ou Povo e Personagem.

Não me alongo nesta memória, vou resumir esse mapa romanesco do  território nacional.  Digamos que, na Bahia, ao visitar João Ubaldo Ribeiro na Ilha de Itaparica, ele ultimava os originais de Viva o Povo Brasileiro.  No Rio de Janeiro, na casa de Nélida Piñon, muito falamos de seu romance A República dos Sonhos. Em Porto Alegre, Moacyr Scliar, às voltas com A estranha nação de Rafael Mendes. E em casa, já acalentava pouco antes e acalentaria logo depois com meus alunos na volta à  USP em 1986, a ficção fundante de Sinval Medina (após dois romances de inserção social-política) de seu Memorial de Santa Cruz. Ou seja, o que Morin e Craveirinha anunciavam, aí estava presente nestes quatro romances: as sagas de raiz mestiça com a África no Povo Brasileiro de João Ubaldo; a mestiçagem ibérico-brasileira na República de Sonhos Nélida; a migração judaica para Sul de terras libertárias em A estranha nação de Rafael Mendes de Moacyr; o rosto indígena milenar de Santa Cruz no Memorial Sinval. Todos, romances de fôlego muralístico.

Quanto agradeço esta oportunidade da vida de repórter e do gostinho de ler. Minhas saudades aos que se foram: 

José Craveirinha, 1922-2003.

João Ubaldo Ribeiro, 1941-2014.

Nélida Piñon, 1934-2022.

Moacyr Scliar, 1937-2011. 

São Paulo, 20 de novembro de 2025.

P/S Duas notas bibliográficas:

  1. Povo e Personagem, tese de livre-docência de Cremilda Medina , foi publicada pela Editora da ULBRA em 1996.
  2. Memorial de Santa Cruz, romance de Sinval Medina acaba de sair numa segunda publicação comemorativa, em Porto Alegre, pela Editora Casa 29.

Rodapé complementar

Mitos fundantes no laço Povo e Personagem

A leitura cultural das literaturas de língua portuguesa, registradas em três livros – Viagem à literatura portuguesa contemporânea (1983), A posse da terra, escritor brasileiro hoje (1985) e Sonha Mamana África (1987) – me inspirou a compor a tese de livre-docência, defendida na Universidade de São Paulo, em 1989. Tive o privilégio de contar, na banca de examinadores, com Antônio Cândido, um dos ensaístas de quem recebera subsídios teóricos para propor a leitura cultural no lugar da análise crítica do texto poético que a semiótica estruturalista defende teórica e praticamente. No trabalho de campo  (reportagem) em que o projeto profissional se desenvolveu nesta década de 1980, encontrei um laço substantivo entre os sujeitos anônimos das ruas portuguesas, brasileiras e africanas (de Moçambique, Angola, São Tomé e Príncipe, Guiné-Bissau e Cabo Verde, os Cinco da África como se nomeavam esses países aos dez anos de independência quando lá estive), entre esses Povos e os Personagens que seus autores delineavam na escrita literária. E com o reforço intuitivo do grande poeta moçambicano José Craveirinha de que “um povo se escreve no romance”, me aventurei a viajar numa leitura cultural temerária, a de ensaiar a epifania dos mitos fundantes nestas obras.

Diante de Antônio Cândido (1918-2017) para defender a livre-docência no último ano da década de viagens, submeti, encolhida  na temeridade de interrogantes,  três mitos fundantes nos romances e na poética dos três continentes: os portugueses, ao contrário do que sugere o senso comum brasileiro, são sonhadores de uma História para o futuro e para fora dos limites da costa ibérica; os brasileiros mostram um apego pela viagem de uma História de circularidade presentificada em seus incomensuráveis limites geográficos; e os africanos cultivam a busca de sua História em tempos passados em que ela lhes foi sonegada. Ou seja o mito lusitano do eterno retorno com escapadas para fora nos mares; no caso brasileiro, o mito se tece em voltas no próprio território; e na poética africana o mito retorna  às raízes históricas que lhe foram apagadas. A empreitada da leitura cultural pode ser arriscada, e certamente o é, mas encontrei registros literários e vozes das gentes da rua que me  pareceram assinar essas intuições da tese. E a banca não contestou. 

Na década seguinte, Toni André Scharlau, um aluno de pós-graduação, então professor da ULBRA, no Rio Grande do Sul, levou o original que eu distribuía em cópia Xerox, para ser publicado em livro. Povo e Personagem saiu pela editora da universidade em 1996.

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