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Visitas esparsas ao meu tio Herculano

Visitas esparsas ao meu tio Herculano

Por Cremilda Medina

As memórias lúdicas da autora captam três momentos em suas oito décadas de vida em que Alexandre Herculano vem à tona no caldeirão literário e no gostinho de ler dos anos 1950 ao século XXI, o da Inteligência Artificial.

Primeiro momento: uma aula de francês no Ginásio Farroupilha de Porto Alegre, 1955.

Segundo momento: no jornal O Estado de S. Paulo, cobertura do centenário da morte do romancista, historiador e ensaísta Alexandre Herculano, 1977.

Terceiro momento: releitura do romance Eurico, o Presbítero, Lisboa, 2017.

Guria exibida na minha aula de francês

– Hoje, na minha aula de literatura, vamos estudar as características do romance francês do século XIX. E vamos começar por Victor Hugo. Vocês sabem, né? Os românticos dão muita ênfase aos sentimentos, aos apaixonados… E a literatura francesa se destacou no Romantismo. Tu levantaste a mão, Cremilda?

         – Sim, Professor. Se o senhor me permite, posso fazer uma observação pessoal, da minha origem portuguesa?

         – Claro, minha jovem. Aqui no Colégio Farroupilha a maioria dos alunos vem de origem alemã, mas, sim, tu o que tens a dizer, já sei que és natural de Portugal?

         – Professor, até gostaria de lhe contar o que vou contar em francês, mas ainda não estou com essa capacidade, pardonnez-moi.

         – Muito bem, fala em português mesmo…

         – Então, Professor, eu queria revelar que o Romantismo português também é muito importante. E preciso dizer isso, porque um dos principais autores, o Alexandre Herculano, é meu parente. Fico encabulada de lhe dizer que sou sobrinha em quarto grau desse escritor.

– O quê, minha jovem? Herculano é teu tio? Não me diga.

         – Pois é, Professor Fascina. Meu avô paterno, Armando, tem o Araújo do Herculano, é sobrinho dele em segundo grau. O Herculano não teve filhos e meu avô vem da descendência do irmão dele, uma árvore genealógica que eu preciso pegar em casa para lhe provar essa descendência. Foi na casa do meu avô que eu aprendi com ele essa história, antes de vir para o Brasil.

– Que novidade, essa. E a Cremilda já leu algum romance do  Tio?

         – Pardonnez-moi, Professeur… Não li nenhum livro dele. Aucun, aucun. Está correto o meu francês, Professor?

         – O francês está, agora tu não teres lido nenhum romance do importante autor de tua terra, isso é que não está correto. Vamos fazer o seguinte, continuamos a aula com Victor Hugo e na próxima semana vou exigir que tu leias Eurico, o Presbítero, romance do Herculano. Certo?

         – Vou tentar conseguir o livro, Professor.

P.S. do Primeiro Momento: Não foi fácil resolver a questão. O professor de francês, nas aulas seguintes, não esqueceu da cobrança. Cremilda Celeste Fernandes de Araújo escreveu uma carta ao padrinho, pedindo socorro. Mas chegaria só no segundo semestre pelo correio a obra completa, em bela encadernação, faltando apenas os revolucionários volumes da História de Portugal. Padrinho Daniel Pereira de Araújo, sobrinho em terceiro grau do Herculano, achou que era demais para a menina afilhada a leitura desses livros volumosos. E o Professor de francês, em 1955, não chegaria a ouvir da guria exibida o resumo de um romance do seu tio.

Centenário da morte de Herculano

         Na reunião de pauta do jornal O Estado de S. Paulo, às vésperas do centenário da morte de Alexandre Herculano, em 1977, como editora de Artes, Cremilda Medina sugere um texto pessoal para essa cobertura. Dirige-se ao editor-chefe, Miguel Jorge, e revela o parentesco com o escritor. Há espantos. A firmeza da jornalista agora é outra: já bem lida, propõe, não um resumo crítico da obra, mas um depoimento de sua experiência no gabinete do avô paterno na infância e os relatos de Armando sobre as virtudes cívico-republicanas do tio consagrado. Miguel aceita e o texto, publicado em São Paulo, que repercute em Portugal (Estado de S. Paulo, 11 de setembro de 1977, domingo). Na ampla cobertura dada pelo centenário é incluído um box registrando a memória da sobrinha em quarto grau, agora naturalizada brasileira. E em Portugal, O Diário de Notícias repete o texto impresso em São Paulo, com o mesmo título: “Homem teimoso e insubmisso além de escritor e historiador”.    

         Ao se reportar à perda do autor um século antes, entre vários depoimentos internacionais, a editora de Artes do Estadão cita uma frase de Rui Barbosa: “Alexandre Herculano não jaz; sobreviver-nos-á em nossos filhos; renascerá de geração em geração, enquanto esta língua soar”. Mas no texto do centenário, Cremilda se apega a uma frase do próprio Herculano:

                          Eu nunca fiz soar meus pobres cantos

                         nos paços dos senhores!

                     Eu jamais consagrei hymno mentido

                        da terra aos opressores.

         Sem adotar o tom parnasiano de Rui, a distante descendente lembra, nesse depoimento, a fibra esculpida no rosto anguloso do retrato no gabinete de seu avô Armando. No olhar firme, parece reforçar seu propósito de um legado histórico e sociocultural.

Volta ao Eurico, quem diria.

Passam-se anos, muitas leituras, descobertas das várias fases na formação acadêmica e exercícios profissionais, pesquisas e navegações nas literaturas ou bibliografias especializadas para num determinado dia de fevereiro de 2017, a protagonista deste relato, voltar a ler Eurico, o Presbítero, romance de Alexandre Herculano de 1843.

         Ela está em Lisboa, numa das tantas visitas a Portugal, hoje com mais motivação, pois o filho e família aí se instalaram em terras do Alentejo. Mas em passeio na capital, onde também residem outros parentes, primos do ramo Araújo — o irmão do pai, Artur, havia se fixado em Lisboa antes dela nascer e aí formou sua própria família, muito antes do José ou, para os íntimos, o Zeca, se mudar para o Brasil. Mas, perdão, este narrador está saindo do assunto. Dizia que Cremilda se encontra naquela tarde na livraria que costuma frequentar no bairro do Areeiro, onde moram os descendentes do tio Artur, uma preciosidade. A esmo, em meio a balcões de livros, de repente se depara com uma edição de bolso do Eurico. Por curiosidade, ao folhear tal a edição, simples e barata, da Bertrand (lembra da encadernada que tem em casa, publicada nos anos 1950), acha muito interessante porque tem até uma raridade – a introdução do autor na primeira edição de 1844. E assim, leva para reler em Montemor, o Novo, onde mora o filho Daniel de Araújo Medina, o romance cobrado pelo professor de francês em priscas eras, na sua adolescência.

         Que maravilhosa surpresa: só o tempo amadurecido no gostinho de ler pode descortinar novos horizontes. Além da trama do romance, que já percebera há tempo, agora descobre outro amadurecimento literário de Herculano quando conversa com o leitor no introito das aventuras de Eurico. Já então pesquisador de documentos em arquivos, historiador, ensaísta, poeta e ficcionista, confessa nas páginas iniciais do romance: Essa crônica de amarguras procurei-a pelos mosteiros quando eles desabavam no meio das nossas transformações políticas. E o historiador que poderia advogar, na ficção, um realismo minucioso, faz um diagnóstico de outra persona, a do romancista: Sabei quanto eu padeci. E, por isso mesmo, sobre ela (a crônica dos tempos pesquisados) pesava o mistério, a imaginação vinha aí suprir a história.

         Ela se deslumbra. Quem diria: o remoto tio relativiza a ambição positivista do impropriamente denominado romance histórico. Compreensão do que logo vem registrado na introdução ao seu personagem Eurico: Por isso na minha concepção complexa, cujos limites não sei de antemão assinalar, dei cabida à crônica-poema, lenda ou o quer que seja do presbítero godo: dei-lha, também, porque o pensamento dela foi despertado pela narrativa de certo manuscrito gótico, afamado e gasto do roçar dos séculos, que outrora pertenceu a um antigo mosteiro do Minho.

         Em 2017, Cremilda se espanta com a humildade do autor que lhe lembra o pensamento de Edgar Morin em livro de 1989 com os fundamentos da Epistemologia da Complexidade. Mas não ficam por aí as descobertas de camadas antes não percebidas na obra de Herculano. Esse terceiro momento de suas visitas traz à tona uma vanguarda com que trabalha, a partir de seus estudos de narratologia no curso de Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, no início dos anos 1960. Na releitura do Eurico, surge a descentralização da terceira pessoa implícita do autor para delegar voz a personagens, aquela fluência de narradores que ela advoga como habilidade polifônica/democrática, seja na comunicação social, seja na literatura.

 Pronto, Cremilda está decidida: quando chegar a São Paulo, escreverá um ensaio a partir desta leitura de férias em Portugal. P.S. E assim fez. O referido ensaio, com o título “Narradores do Autor-Jornalista”, foi publicado na Revista Cajueiro, v.1 n.1, p.21-43, nov.2018.

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